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Vícios Ocultos, de Miriam Mambrini | Resenha

‘Vícios Ocultos’: o íntimo, sem julgamentos

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‘Vícios Ocultos’, de Miriam Mambrini / Divulgação

Indivíduos como eu e você. Com rotinas, sentimentos e segredos. Treze histórias que abordam vícios que permeiam pessoas à nossa volta, mas que, de certa forma, passam desapercebidos. São desejos escondidos que a escritora  Miriam Mambrini, que recentemente lançou o romance A Bela Helena, nos revela sem moralismos. Publicado em 2009, pela Bom Texto – pouco antes do fechamento da editora -, Vícios Ocultos desbrava estes sentimentos secretos e mostra uma realidade nua e crua.

Por se tratar de um livro de contos é difícil resumir as histórias sem prejudicar a leitura. Cada uma delas apresenta uma peculiaridade. Um vício: tara, fanatismo ou cleptomania. No entanto, é possível encontrar certas similaridades. São personagens adultos que têm que lidar com sentimentos escusos diante de situações impostas na vida. Imperfeitos como qualquer indivíduo. Esta aí, talvez , seja a grande identificação por parte do leitor. Uma ficção com cara de realidade, com muito drama e certos momentos cômicos. Particularmente, gosto muito desta abordagem “ vida real” e acredito que a Miriam consiga executá-la com maestria. E, como resultado, temos uma trama envolvente, de fácil compreensão e com personagens interessantes (estes, inclusive, são o grande trunfo da obra).

Vícios Ocultos apresenta uma coletânea de textos muito bem escolhidos, porém, por ser uma obra de histórias fragmentadas, é normal que uns contos se sobressaiam mais do que outros. Assim, decidi destacar alguns dos quais eu mais gostei com uma breve justificativa: Freio nos Dentes, pela costura dos conflitos familiares e, principalmente, pelo final inesperado; Débito, pela densidade e drama. Por mostrar que interesses pessoais podem estar acima da vida. O homem que lia necrológios, como, às vezes, julgamos certos hábitos (principalmente de parentes mais velhos) e repetimos quando envelhecemos. Algo que só a vida é capaz de ensinar.

No começo de cada conto é apresentada uma epígrafe que entra em perfeita sintonia com a obra e, de quebra, complementa a qualidade de Vícios Ocultos. De acordo com a orelha do livro, Miriam enviou um conto para cada autor próximo a ela – como João Silvério Trevisan, Nilma Lacerda, Luis Ruffato e Adriana Lisboa – , que, a pedido, elaboraram uma epígrafe especialmente para cada história. Talvez seja por isso o grande entrosamento dos textos. É uma comunhão perfeita! Honestamente, nunca dou muita importância a este detalhe, mas me surpreendi positivamente.

Além do livro físico, Vícios Ocultos acompanha uma versão em audiolivro para os deficientes visuais. Neste ponto, gostaria de fazer um adento. É sempre bom trazer acessibilidade para leitura, mas também gostaria de ressaltar como o formato pode ampliar o contato com a literatura. Seja para os que não conseguem ler no ônibus (que é o meu caso), uma distração enquanto dirigem, ou ainda para as pessoas, principalmente as mais idosas, que têm dificuldades em enxergar. Infelizmente, não entendo o descaso das editoras em investir neste formato. Será que é medo de que prejudique as vendas das publicações impressas? Enfim, vale a reflexão.

Apaixonado por histórias, tramas e personagens. É o tipo de leitor que fica obsessivamente tentando adivinhar o que vai acontecer, porém gosta de ser surpreendido. Independente do gênero, dispensando apenas os romances melosos, prefere os livros digitais aos impressos, pois, assim, ele pode carregar para qualquer lugar.

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