Entrevista: Cassia Cassitas

Em conversa com o Vai Lendo, a escritora Cassia Cassitas fala sobre suas obras que buscam trazer um novo olhar sobre a vida e seu novo livro, ‘O Menino que Pedalava’

Cassia Cassitas 3Como lidar com os desafios da vida? Com todos aqueles problemas cotidiano que gostaríamos de esquecer ou simplesmente deixamos passar? Porém, ao mesmo tempo, como ter forças para superarmos todos os obstáculos e seguir em frente? Essas questões são abordadas pela escritora Cassia Cassitas de maneira leve e objetiva, oferecendo um novo olhar para os nossos dilemas diários. Autora de Domingo O Jogo – Uma Filosofia Para se Viver e Fortuna – A Saga da Riqueza, em seu novo livro, O Menino que Pedalava, ela traz reflexões sobre um tema que deveria receber uma atenção maior por parte do público, em geral: os paratletas. Com muita sensibilidade, ela não apenas aponta para a necessidade de se prestar o apoio devido, mas também levanta questões sobre o impacto dos Jogos Olímpicos de 2016 para o Rio de Janeiro. Em conversa com o Vai Lendo, Cassia comentou justamente sobre as suas inspirações para obras tão distintas e cheias de aprendizado.

Com uma sólida carreira na área tecnológica, Cassia, que também é professora, publicou sua primeira obra – Domingo O Jogo -, em 2010, em formato digital, alcançando o topo do ranking dos livros eletrônicos mais vendidos no Brasil. O título em questão oferecia maneiras diferentes de olhar para cada dia e torná-lo melhor, uma espécie de provocação. Em 2012, publicou seu primeiro romance, A Saga da Riqueza, no qual mostrava a prosperidade de quatro gerações até chegar à bolha imobiliária americana de 2008. O interesse pela literatura, ela contou, vem desde a infância, época em que morava em uma pequena cidade e andava cerca de dois quilômetros até a biblioteca pública. Aos 10 anos, surgiu o desejo de escrever, que nunca mais abandonou. Para ela, suas trabalhos têm como objetivo estimular o olhar do leitor em relação à vida, abordando assuntos corriqueiros, cuja inspiração a escritora tira de seu próprio ambiente.

“Gosto de pensar que meus livros ampliam o olhar do leitor”, declarou Cassia. “Sem defender um único ponto de vista, ao contrário, trazendo à tona várias nuances de um fato, escrevo para sacudir aquelas verdades que carregamos dentro de nós. Se perceber a oportunidade de fazer isso numa notícia de jornal, em uma discussão entre amigos, começo a pesquisar sobre o assunto. Desenho a estrutura da obra, coloco os subtópicos que desejo abordar e todos os personagens vão para a planilha. Essa organização do texto me ajuda a provocar o leitor, até levá-lo ao questionamento e repensar suas certezas. Só assim podemos avançar”.

capa cassia

Por falar nos leitores, ainda que suas obras abordem temas bem diferentes,  às vezes, inclusive, voltados para públicos distintos, Cassia garantiu que isso não prejudica a identificação e o reconhecimento do seu trabalho. Pelo contrário, gera um interesse maior, principalmente pela questão da surpresa da narrativa.

“A linguagem e a dinâmica de meus livros são diferentes”, explicou. “Meus leitores costumam dizer que não sabem o que esperar dos meus livros e isso gera curiosidade. Eles sabem que meus personagens fictícios vão viver em meio a fatos reais e revelar detalhes geralmente despercebidos. A experiência tem se mostrado gratificante, pois eles gostam do que leem e, a cada novo lançamento, eles voltam”.

Em O Menino que Pedalava, através da história de André, Cassia fala de superação, garra, coragem e solidariedade, e ainda traz o debate sobre as Paralimpíadas e os efeitos dos Jogos para a cidade do Rio de Janeiro. Ao escrever sobre esses temas, a autora explicou que pensava, acima de tudo, em apontar possibilidades, não apenas na vida dos leitores, mas também a partir de um legado olímpico positivo.

O Menino q Pedalava

“Decidi trazê-los (os paratletas) ao centro da narrativa para falar em possibilidades”, ressaltou. “Em Estilhaços eu escrevo: ‘De cada um tirei uma parte, para que fossem perfeitos’. O grande desafio é abraçar a vida tal qual ela se apresenta. Como fazem os paratletas. Para diminuir a dor ou aumentar a alegria, se dedicam à prática esportiva e aprendem a vencer. Durante as pesquisas, descobri que as Paralimpíadas nasceram em um centro de reabilitação de veteranos de guerra. Hoje, constituem um caminho de dignidade para pessoas que acreditam no que parece impossível. Minha maior dificuldade foi colocar em poucas palavras como essa decisão altera a trajetória de famílias e comunidades. A coragem é contagiante. Quanto ao que os Jogos podem significar para a cidade, espero que a despoluição da Baía da Guanabara e da Lagoa Rodrigo de Freitas prossiga após as competições aquáticas, como ocorreu em Seul. A revitalização da zona portuária do Rio promete superar em impacto o que foi realizado na Catalunha. Em termos de mobilidade, a construção da linha quatro do metrô ligará Ipanema ao parque olímpico na Barra da Tijuca. Com centenas de vagas garantidas por ser a delegação anfitriã, acredito que veremos muitos brasileiros colecionando façanhas como fizeram os chineses em 2008. Porém, o meu maior desejo expressei nas palavras do personagem Mário: ‘quem sabe, através das arenas e Transcariocas, os jogos olímpicos consigam arraigar seus ideais na alma do brasileiro. E, apaixonada pelo esporte, a nação opere a grande transformação de corpos, mentes e instituições que levará as pessoas ao pódio da vida’”.

Antenada à influência da internet na literatura, Cassia também desenvolveu um site para O Menino que PedalavaOMeninoQuePedalava.com.br – , completar à leitura do livro. A autora afirmou que a iniciativa serviu para estimular a inclusão e principalmente homenagear aqueles que lhe serviram de inspiração para a história. Com publicações tanto no formato físico quanto no digital, ela exalta a autonomia oferecida pela autopublicação, hoje em dia.

“O site nasceu para colocar as ideias em movimento, ultrapassar a literatura e motivar iniciativas de inclusão”, disse. “É uma homenagem aos atletas que me ajudaram a desenvolver a trajetória de André, as dificuldades de seus pais e amigos, a dedicação de treinadores, professores, as soluções tecnológicas. Desde o início, O Menino que Pedalava parece levar as pessoas a se engajarem. Como personagens de uma historia que deseja seguir adiante, todos têm uma ideia, uma contribuição. Assim, surgiram as ilustrações, as frases, os posts e os depoimentos. Após ler o livro e acessar o site, o debate cresce cada vez que as frases são compartilhadas. E, a cada postagem, aumentam as chances da nossa sociedade pedalar mais longe. A grande vantagem da autopublicação, por sua vez, é a autonomia. Poder escolher da capa ao tamanho da letra do texto, a data de publicação, o preço de venda. Os relatórios estão disponíveis a qualquer momento, você decide tudo. Para o formato digital, funciona muito bem. O maior desafio é a distribuição do livro físico. As livrarias têm políticas diferenciadas para autores autopublicados”.

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada "literariamente". Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de "A Bela e a Fera".

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