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República de Ladrões, de Scott Lynch | Resenha

‘República de Ladrões’: É sério, como Lynch consegue?

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‘República de Ladrões’, de Scott Lynch / Divulgação

Recentemente, terminei de ler o livro República de Ladrões, terceiro volume da série Nobres Vigaristas, escrito por ninguém menos que Scott Lynch, e publicado pela editora Arqueiro.

Que livro, gente. Lynch parece gostar de surpreender seus leitores. E a única coisa que eu consigo fazer é me perguntar: como ele faz isso?

É sério, vocês têm noção do quanto é difícil manter seus leitores, acostumados com histórias sensacionais – e, cá entre nós, normalmente sem dinheiro para ficar gastando com qualquer título que não tenha sido cuidadosamente analisado, medido, pesado e, consequentemente, considerado suficiente -, interessados o suficiente no que você tem a dizer a ponto de escolherem o seu livro como investimento, E MAIS, não se decepcionarem por essa escolha?

É muito difícil MESMO.

Mas Scott Lynch conseguiu. De novo. Adoro esse cara.

Mas, bem, os nossos queridos, amados e sofridos Nobres Vigaristas parecem ter um talento especial para se meterem em encrencas dignas de nota, porque logo de cara, nesse terceiro volume, eles começam em uma situação piriclitante.

(Atenção, porque o spoiler vai correr solto a partir de agora. Avisei…)

Como vocês devem saber – os que leram o livro Mares de Sangue, o volume anterior, deveriam saber, pelo menos -, Locke foi envenenado e está à beira da morte – de maneira bastante sofrida, devo dizer. Ele e Jean acabaram de escapar de um grande golpe – fracassado, diga-se de passagem – e de uma tentativa suja de assassinato.

Mas eis que uma figura bastante peculiar bate na porta de seu esconderijo e não é ninguém menos do que uma das Arquidamas dos Magos-Servidores – que, como vocês devem saber, são os inimigos jurados e poderosos o suficiente para fazer até com que Jean Tannen, o Nobre Vigarista mais durão do universo, se encolha de medo.

Misericórdia, agora ferrou!, vocês podem estar pensando.

Calma. Lembrem-se de que estamos falando de Locke Lamora, o ladrão mais esperto, sagaz, malandro, mentiroso… E que está se desfazendo envenenado e mais inofensivo do que um coelhinho.

Droga.

Mas, na verdade, a Arquidama parece ter planos bem diferentes do esperado para os nossos rapazes do mundo do crime. Ela quer contratar os seus serviços – olhem só que maravilhosa surpresa!

Então, Locke e Jean se veem a caminho de Kartane, o lar dos Magos-Servidores, e atirados de cabeça em seu meio político e, melhor ainda, bem na época das eleições. E, onde estão os Nobres Vigaristas, há trapaça. Sendo assim, já dá para ter uma ideia do motivo de terem sido contratados, certo?

Por isso, nesse terceiro livro vemos muitos planos, tramoias, golpes, surpresas, brincadeirinhas de mau gosto, manipulações e muita, muita política. É um jogo de mentes do crime brilhantes.

Mas o que é mais surpreendente é que nesse livro nós finalmente conhecemos Sabeta, o grande amor de Locke – um dos maiores mistérios desde o primeiro volume da série.

E, cara, que mulher insuportável! Uma ruiva – gente, por que os escritores de um modo geral têm essa tara por ruivas? Qual é a mágica do cabelo vermelho? -, esperta, malandra, que não mede esforços para se dar bem, que sabe fazer com que todo e qualquer jogo se volte ao seu favor e que não hesita em chutar a cara do Locke quando ele volta para ela com o rabo abanando, como um cãozinho carente – é sério, essa característica perdidamente apaixonada do Locke por uma vigarista como a Sabeta fez com que a minha estima por ele diminuísse um pouco.

Mas o fato é que Sabeta é uma vigarista de carteirinha, ou seja, perfeita para o Locke – talvez não para a sua integridade e saúde física, mas ele parece não estar ligando muito para isso.

Os Nobres Vigaristas

Nesse livro, temos novamente aquele jogo temporal tão característico dessa série, onde o presente é balanceado com digressões que mostram a infância e aprendizagem dos Nobres Vigaristas. Em República dos Ladrões, especificamente, ficamos sabendo como Locke e Sabeta se apaixonaram. Sem falar, é claro, de que temos diante de nossos olhos mais uma aventura dos Nobres Vigaristas quando jovens, ainda desenvolvendo suas habilidades e uma breve participação do Correntes, que é um dos meus personagens favoritos.

No entanto, esse terceiro volume, dentre todos os outros que já li, foi o que eu menos surtei – euforicamente – enquanto lia. No início, eu não sabia o motivo, mas já saquei qual foi. É que não tem um vilão bom – quando digo bom, quero dizer genuína e indubitavelmente mau, aquele sujeito que espreme os inimigos até transformá-los em patê de sangue para passá-los no pão. O possível vilão – aquele badass mesmo – só é apresentado no finalzinho do livro – o que promete muitas maravilhas sanguinolentas para a sequência.

Estou ansiosa.

Quanto ao trabalho da editora, está tão excelente quanto nos dois volumes anteriores. A Arqueiro manteve o estilo de impressão – o que pode não parecer importante, mas é crucial para a apresentação do material. A capa está boa – sinceramente, considerando a qualidade que beira o lindo de tirar o fôlego com que a Arqueiro nos apresenta seus livros, acho que poderia estar melhor, mas não está ruim de forma alguma, até mesmo porque o leitor que pegar esse livro já sabe que a história vale a pena, independentemente de qualquer capa. Então, poderia ter um boneco feito com palitinhos na capa que o leitor ia comprar de qualquer forma. Mas, enfim, o material físico está muito bem feito. Obrigada, Arqueiro, por mais um primoroso trabalho.

Cheio de humor muito bem localizado, planos sagazes e uma narrativa capaz de prender até mesmo o mais desinteressado e relutante dos leitores, Scott Lynch parece fazer mágica com as palavras outra vez em República dos Ladrões.

Recomendo muito a leitura.

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