Entrevista: Andrea Viviana Taubman

O Vai Lendo conversou com a autora nacional voltada para o público infantil que, através dos livros, apresenta temas delicados e profundos da nossa realidade aos pequenos, de forma lúdica e sensível

10422113_10203118909727777_2599984896157121357_nA arte de se comunicar com as crianças. A sensibilidade de educá-las e de transformá-las em formadores de opinião e leitores apaixonados, sem, contudo subestimar a sua inteligência e capacidade de absorção (um erro ainda cometido por muitos). É isso o que a escritora Andrea Viviana Taubman busca com o seu trabalho inspirador, atualmente voltado para os pequenos. Com obras como Meu Amigo Partiu (editora Vida & Consciência), O Menino Só (Escrita Fina) e Sonho de Mãe (Editora Jovem), ela – que é mãe de dois meninos – traz temas profundos para a realidade das crianças, de uma maneira leve e bastante delicada.

Nascida e criada na Argentina, até os sete anos, Andrea herdou o amor pelos livros da própria família, uma vez que “as pessoas que mais amava e admirava liam e contava histórias para ela”. Mas foi com a avó materna, a quem chamava carinhosamente de “abuela Emilia”, que morava em Buenos Aires, que a escrita entrou em sua vida. Isso porque as duas trocaram inúmeras correspondências ao longo dos anos, estimulando a prática em Andrea.

“Essa avó recortava poesias do jornal ‘La Nación’ e mandava junto com as cartas”, contou Andrea em entrevista ao Vai Lendo. “Não me lembro dela sem um livro, jornal ou revista na mão; certamente a troca de correspondências foi lapidando a escritora que me tornaria muitos anos depois. Até a adolescência, li e escrevi muito; por circunstâncias da vida, segui uma carreira acadêmica distante das letras (sou bacharel em Química), mas nunca me afastei da Literatura – continuei sendo uma devoradora de livros por toda a juventude e vida adulta. Em 2008, a partir de demandas emocionais dos meus filhos, escrevi meu primeiro livro, O Menino Que Tinha Medo de Errar (Escrita Fina)”.

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Ainda que eventualmente escreva contos e crônicas para os adultos, são seus pequenos leitores que sempre a atraem, declarou. Com uma irmã caçula que considera um dos “maiores amores de sua vida”, Andrea disse ainda que sempre esteve envolvida no universo infantil, mesmo antes de se tornar mãe. Percebendo a necessidade de ajudar as crianças a se abrirem mais em relação aos próprios sentimentos, a autora explicou que busca em lembranças de sua própria infância e em experiências pessoais o material para abordar questões delicadas da nossa realidade de forma lúdica e criar, cada vez mais, uma identificação maior por parte das crianças.

“Costumo dizer que escrevo os livros que gostaria de ter lido na minha infância, mas que ainda não haviam sido escritos”, disse. “Quando escrevo, visito a menina de cinco, seis, sete anos que fui e tento transformar suas lágrimas em letras. Crianças têm dificuldade de se expressar emocionalmente, ainda não sabem nomear seus sentimentos, não dispõem de léxico suficiente e se veem numa solidão imensa nos seus desconfortos, acreditando que são únicas a sentir aquilo que as incomoda, que lhes causa temores.  Ao ver esse leque de emoções presentes nos personagens do livro, podem criar uma identificação e, a partir dela, conseguir elaborar essas questões (se há outros que sentem o que sinto, então, eu não sou ‘o errado’, ‘o esquisito’). Uso muito a poesia, os versos, as rimas para dar leveza a assuntos que não são leves, como o luto na infância, o perfeccionismo, a falta de autoaceitação e suas consequências, o autismo, as relações interpessoais na escola – que precisa ser um lugar de relações amáveis, mas, na prática, nem sempre é – e a realidade da maternidade com suas nuances – trabalho, expectativas, desejos, cuidados. Escolhi trabalhar com esses assuntos porque acredito que pessoas que se entendem melhor desde a infância têm menos preconceitos e são capazes de fazer deste mundo um lugar melhor. Diferente é o mundo que queremos!”.

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Justamente pelo teor de seus livros há a preocupação com o conteúdo a ser apresentado. Andrea, que já trabalhou como voluntária num abrigo para crianças em situação de risco social, ressaltou a urgência de se preservar a infância dos leitores e semear bons valores e conceitos pessoais através do estímulo pelo leitura.

“As crianças, de um modo geral,  não escolhem o que vão ler – quase sempre há um adulto que orienta esse acesso ao livro”, apontou. “Eu, particularmente, sinto uma grande responsabilidade quando escrevo para elas que não sinto quando escrevo para adultos. Toda criança merece ser protegida por adultos responsáveis, a infância deve ser preservada. Vejo o intervalo dos quatro aos sete anos como a grande janela de oportunidade para germinar, por meio da leitura literária, boas sementes emocionais, afetivas, éticas e estéticas que alimentarão o adulto do futuro. O grande desafio é escrever para crianças sem subestimar-lhes a inteligência e a perspicácia e, ao mesmo tempo, estabelecer pontes sólidas para dialogar com suas emoções”.

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Eleita em setembro de 2015 para a Academia Teresopolitana de Letras – onde assumiu a cadeira número 21 -, Andrea exaltou o contato direto com seus leitores como a sua principal experiência como escritora, o momento “mágico”, já que, segundo ela, essa é a melhor maneira de se conectar com as crianças, ajudar a formar novos escritores e leitores em potencial e criar uma oportunidade mútua de enriquecimento intelectual. Ela, que já está trabalhando em seu novo livro, previsto ainda para o primeiro semestre de de 2016, pela Aletria Editora, também exaltou a importância das ilustrações em suas obras, no sentido de criar percepções com os leitores, e defendeu o acesso fácil aos livros pelas crianças, desde o início.

“As ilustrações são absolutamente indispensáveis no livro infantil; elas ajudam a contar a história e a estabelecer pontes com o leitor em formação”, apontou. “Construir um livro com a oportunidade de trocar ideias e percepções entre escritor e ilustrador é uma experiência instigante. Já para formar novos leitores há estratégias importantes: o exemplo dos adultos que a criança admira (como aconteceu comigo); o contato precoce com os livros de forma divertida e sem formalidades – livros e brinquedos devem conviver no mesmo baú, ao alcance da criança; e a leitura de histórias à beira do berço/cama por mães, pais, avós, irmãos mais velhos, que cria grandes oportunidades de estabelecer relações de intimidade entre as crianças e os livros e entre esses familiares. Os benefícios da leitura literária são inúmeros, até no futuro desempenho da criança em matemática, por exemplo, ela influencia (diversos estudos demonstram que crianças que leem livros literários têm mais facilidade na compreensão de enunciados). Citando o imprescindível Bartolomeu Campos de Queirós: ‘todo livro literário me alfabetiza’. É isso, ler literatura proporciona ao indivíduo a capacidade de ler e compreender o mundo, o outro e a si mesmo”.

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada "literariamente". Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de "A Bela e a Fera".

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