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Caçadores de Trolls, de Guillermo del Toro e Daniel Kraus | Resenha

‘Caçadores de Trolls’: uma mistura perfeita entre o terrível e o maravilhoso

A resenha de hoje é sobre o livro Caçadores de Trolls, dos autores Guillermo del Toro e Daniel Kraus, publicado pela editora Intrínseca.

Antes de mais nada, quero dividir um sentimento com vocês com relação a essa obra: que livro, gente!

Acho que só por isso já dá para perceber como é que vai ser essa resenha, né?

Admito que, antes de começar a lê-lo, eu não estava tão empolgada assim. Francamente, a sinopse não havia me chamado tanto a atenção, mas decidi aceitar o desafio.

E que bom que fiz isso.

É sério. Caçadores de Trolls foi uma das melhores surpresas literárias que já tive. E estou muito feliz por isso.

Observação: não é a primeira vez que uma sinopse deixa de me estimular quanto à leitura de um livro, mas depois de lido, me surpreendi de maneira muito positiva com o conteúdo. E sei que não sou a única a pensar assim. Então, concluo que o problema é a sinopse dos livros dessa editora. Dessa forma, sugiro que a editora tente melhorar nesse aspecto. Por que o mais difícil vocês já conseguiram, que foi encontrar e publicar um excelente livro. É injusto que ele possa não vir a ser devidamente apreciado e conhecido por causa de um obstáculo que pode ser facilmente superado.

Mas vamos ao resumo do livro!

Tudo começa em 1969, durante o terrível período conhecido como Epidemia das Caixas de Leite. O nome pode ser engraçado, mas não se deixe enganar, porque a coisa é séria. Crianças estavam desaparecendo e o fato de não se saber como, nem para onde e nem quem as levava era motivo o suficiente para deixar toda uma cidade em um estado de medo único e quase sólido.

O prólogo da obra ainda faz o favor de acrescentar mais um nome à lista de desaparecido – e mais um rosto às caixas de leite, de onde surgiu o nome para a tal epidemia de desaparecimentos. Jack Sturges, um menino de 13 anos que tinha tudo para protagonizar um futuro brilhante e irmão mais velho de Jim Sturges, que acaba por ser perseguido por algum tipo estranho e assustador de monstro que surgiu debaixo da ponte onde seu irmão desapareceu, depois do anoitecer.

Quarenta e cinco anos depois, Jim já é um homem de meia-idade, pai de Jim Sturges Jr., e provavelmente o cara mais medroso de toda a cidade.

Sufocado pelo pai super protetor, Jim Jr. tem uma vida digna de pena. Um zé-ninguém na escola, perseguido pelo valentão esportista, com uma paixonite aguda por uma garota confiante, corajosa e genial, cujo melhor amigo está no mesmíssimo barco que ele.

E logo passa-se a poder acrescentar à lista de Jim a característica: assombrado.

Sim, Jim Jr. passa a ser assombrado por criaturas monstruosas e estranhas, que parecem surgir de lugares escuros e nojentos, como ralos bueiros e de debaixo da sua cama.

Elas são trolls. E Jim não faz ideia do que essas criaturas feias e terríveis querem dele e muito menos o que o aguarda na calada da noite…

Mas se vocês querem saber o que os trolls querem de Jim Sturges Jr. e o que o espera na calada da noite, vão ter que ler o livro.

E sugiro que façam isso mesmo. Acreditem, vale muito a pena.

A trama é uma das mais ricas e inusitadas que já tive a oportunidade de conhecer. Os autores usaram e abusaram de um tema que eu, pelo menos – em minha longa caminhada pelas páginas do mundo literário -, nunca vi.

Eles exploram os trolls, criaturas feias, nojentas, normalmente usadas como vilãs, donas de pouca atenção e, quase sempre, alvos de nossa repulsa. Só com isso o livro já pode ser caracterizado como estranho.

Só posso dizer que nunca pensei que fosse, algum dia, torcer por um troll na minha vida.

Gostei.

Gosto de livros estranhos, normalmente são muito criativos. E, quando bem trabalhados, se tornam marcos na vida literária de seus leitores.

E olha que a narrativa é em primeira pessoa – na voz de Jim Sturges Jr. -, o que, por si só, já é um desafio. O tom que o livro assume é o de uma conversa entre o protagonista e o leitor. Nada fica sem explicação, nada fica confuso, nenhum ponto importante deixa de ser abordado. O leitor termina o livro sem ter dúvidas quanto ao fato de ter lido uma obra muito bem bolada e escrita.

Os autores conseguiram fazer uma mistura entre o terror e o nojento, o maravilhoso e o engraçado de uma maneira rara de se ver. Consegui sentir asco ao mesmo tempo em que me sentia encantada com certas passagens e cenas.

Só sei que, como escritora, eu gostaria muito de ser capaz de fazer isso.

Mas, bem, com autores como esses assinando a obra, não posso dizer que a expectativa para a obra não deveria ser grande – na verdade, foi o que me fez dar uma chance ao livro, apesar da sinopse pouco interessante. Porque, afinal, quando dois mestres da ficção fantástica – com certa ênfase no terror – se juntam para criar uma história, você simplesmente para o que está fazendo para lê-la.

Foi o que eu fiz. E não me arrependi. Valeu, del Toro e Kraus. Sou fã de vocês!

Só para você terem um gostinho da coisa, vou colocar um pedacinho do prólogo:

Esses músculos que você usa para caminhar, sorrir, abraçar? São pura carne revestida com tendões borrachudos. Essa pele que você tanto olha no espelho? É uma delícia para os paladares certos, um ensopado de textura suculenta. Não é algo agradável de saber, mas é útil. Há criaturas lá fora, veja bem, que não se escondem em tocas, não temem ser capturadas por nós para serem assadas em nossos fornos. Criaturas com o próprio estilo de caçar, os próprios métodos, os próprios apetites.

Quando li isso, pensei: uau, que nojento.

Curti.

Quanto ao trabalho da editora, tirando a sinopse que eu acho que precisa ser melhorada – assim como a de outros títulos da editora -, não tenho absolutamente nada do que reclamar. Muito pelo contrário. O livro está lindíssimo! Apresentando uma qualidade que só uma editora que sabe o que está fazendo e que está aqui para ficar, pode oferecer. A capa não poderia está melhor – muito bonita e ao mesmo tempo engajada com a história. A fonte e formatação estão agradáveis à leitura. E – o que eu adorei – as ilustrações espalhadas pelas páginas. Lindas demais! A editora tem os meus mais sinceros parabéns!

Mas, antes de terminar, eu acho que vale a pena comentar sobre a opinião de outras pessoas que leram o livro. Vi que alguns acharam a história um pouco absurda demais, o trolls pareceram pouco interessantes e o inevitável spoiler que se tornou o título – afinal, já sabemos que haverá trolls e que alguém, muito provavelmente o protagonista, vai se tornar um Caçador de trolls. E, se vocês leram essa resenha desde o início, devem ter notado que a minha opinião é bem diferente. Bom, é só mais uma mostra de que gostos variam.

Só achei que seria interessante comentar sobre isso.

Enfim, Caçadores de Trolls foi concebido e desenvolvido por gênios e é um prazer que a editora Intrínseca tenha trazido tão bela obra para o público brasileiro. Com uma mistura perfeita de dois pontos de vistas – o belo e o grotesco -, esse é um livro que deve ser lido.

Recomendo com fervor.

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