A Sorte do Agora, de Matthew Quick|Resenha

Review of: A Sorte do Agora
book:
Matthew Quick

Reviewed by:
Rating:
3
On 28/10/2015
Last modified:03/11/2015

Summary:

Com leveza e bom humor, Matthew Quick explora novamente a capacidade de superação pessoal do ser humano

‘A Sorte do Agora’: Matthew Quick sabe lidar com as incertezas e inseguranças humanas

Ao procurar mais informações sobre o livro e o autor para esta resenha, acabei em um vídeo de Matthew Quick, no canal da própria editora Intrínseca. Engraçado como, algumas vezes, a aparência física e os trejeitos condizem com a personalidade de alguém: Matthew é um careca simpático de seus quase ou recém-completos 40 anos (não parece ter muito mais nem muito menos), cujos olhos têm um quê de doçura. A fala dele é levemente cadenciada e gentil. Bem o tipo de pessoa que poderia escrever livros em que personagens atormentados encontram um jeito de superar o bode e dar a volta por cima – sempre embalados por valores como bondade, ingenuidade e fé. Assistindo a um pouco mais do vídeo, entendi o porquê: ele mesmo já se viu às voltas com a depressão e a ansiedade. Em sua vizinhança, o assunto não era discutido. Matthew, então, começou a ler e escrever para tentar lidar com isso de sua própria maneira – botando o caos em sua mente e em seu coração para fora.

sorte do agora

A sinopse do livro A Sorte do Agora é a seguinte: Bartholomew Neil, que sempre morou e cuidou de sua mãe, se vê órfão aos 40 anos. De uma hora para outra, não sabe o que fazer com todas as horas de seu dia. A paróquia de sua cidade consegue que ele seja acompanhado por uma conselheira de luto, que o orienta a fazer novos amigos. Em paralelo, Bartholomew, ao arrumar as coisas da mãe, descobre uma carta de “Liberdade ao Tibete”, assinada por Richard Gere, em sua gaveta de calcinhas e deduz que este era o motivo pelo qual, em seus últimos dias e já sofrendo de demência senil, ela o chamava de Richard. O quarentão, então, passa a dividir seus pensamentos e experiências em cartas para o ator. Nessa empreitada de autoconhecimento e abertura para o mundo, ele conta com a preciosa ajuda do padre McNamee, velho conhecido de sua mãe e que nutre por Barth (apelidei e pronto) um enorme carinho. McNamee toma para si a missão de cuidar do amigo e acaba se mudando para a casa dele.

matthew300Os diálogos entre os dois são ótimos e cheios de temas sobre os quais o leitor pode se pegar refletindo, sem querer. Ao frequentar um grupo de luto, Barth faz amizade com Max, um cara bem diferente dele. Como vemos no livro, nosso protagonista traz dentro de si uma angústia reprimida, até mesmo alguma agressividade (ele tem trabalho para controlar o que chama de “ homenzinho que vive em seu estômago”) e nutre uma paixão platônica pela assistente da biblioteca da cidade, que carinhosamente chama para si mesmo de “Meninatecária”. Já Max é o oposto: sua agressividade exala dos poros em forma de palavrões (mas muito menos em atitudes). O desenrolar deste núcleo “Meninatecária” (que descobrimos se chamar Elizabeth) – Max – Barth é bem bacana.

Confesso que li A sorte do agora com a expectativa de algo semelhante a O lado bom da vida (eu não li os outros livros dele). Notei algumas características de Mathew Quick nele. Para começar, o personagem está em meio a uma crise existencial (coisa que o autor trabalha maravilhosamente sempre). É difícil a gente não criar empatia, afinal, todo mundo já passou por um momento de “ok, e agora? Para onde vou, quem sou, por que estou nesse planeta?”. Porém, Barth é, por vezes, muito pueril, o que me incomodou um pouco. Em termos de protagonista, sou bem mais Pat Peoples, com seu jeito falso-controlado-nervoso-explosivo-analisado-medicado. Ainda assim, palmas para o autor, que traduz em suas palavras exatamente a vibe do personagem. A trama não é complexa e intensa, mas satisfaz. Algumas “surpresas” já estavam bem claras para mim, lá pelo quarto capítulo, então, não considero dos mais surpreendentes. E, não sei bem porquê, me lembrou Cidades de Papel, de John Green (também publicado pela Intrínseca). Minha palavra final é: esquenta o coração um pouco, passa o tempo e é engraçadinho.

Com leveza e bom humor, Matthew Quick explora novamente a capacidade de superação pessoal do ser humano

Mabi

Leitora que se tornou produtora editorial para poder ler também durante o expediente (e ainda ser paga para isso). Mãe do Pedrinho, que já está viciado em Turma da Mônica.

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