Entrevista: Lu Piras

Em conversa com o Vai Lendo, Lu Piras comenta sobre a mudança de gênero em seu novo livro, a expectativa em relação à recepção do público e a ansiedade para a Bienal do Livro 2015

Lu Piras, autora de 'Além do Tempo e mais um Dia', da L&PM Editores
Lu Piras, autora de ‘Além do Tempo e mais um Dia’, da L&PM Editores

A escrita por vocação e principalmente de coração. O que a autora Lu Piras busca trazer para os leitores em suas obras é um misto de sentimentos, mas, acima de tudo, ela espera que seus livros consigam marcar as pessoas, de forma que as histórias e exemplos possam ser levados para o resto de suas vidas. Em seu novo livro, Além do Tempo e Mais Um Dia, publicado pela L&PM Editores, Lu sai das tramas recheadas de romance para o sick-lit, gênero caracterizado por histórias cujos personagens sofrem de alguma doença. Porém, mais do que um drama, ela ressalta que se trata de um exemplo de força e superação. Em conversa com o Vai Lendo, a escritora fala sobre essa transição, suas motivações e a expectativa para a Bienal do Livro 2015.

Mesmo formada em Direito, a advocacia nunca esteve em seus planos, uma vez que a vontade de escrever e o amor pelas palavras sempre a influenciaram (não à toa, criava “peças processuais mirabolantes e extensos recursos”, como ela lembrou). Assim, quando voltou ao Brasil – após sete anos morando em Portugal -, Lu resolveu correr atrás do seu sonho e mergulhar na literatura. E a tentativa deu tão certo que, hoje, ela é a realizada autora de cinco romances. Conhecida por escrever títulos com histórias de amor intensas e inspiradoras, a autora, agora, aborda uma nova temática através de um menino de 12 anos que contraiu Poliomelite (paralisia infantil), ainda pequeno, e decidiu amputar as duas pernas pelo sonho de ser um corredor olímpico. Para ela, essa mudança de gênero vem da sua própria necessidade de mudança e desafios, que, explicou, acrescenta muito ao seu trabalho.

Escrever sempre foi o meu parque de diversões, o meu playground, o meu recreio (e era mesmo! Durante a adolescência, em vez de jogar e conversar, eu passava o tempo do recreio escrevendo minhas histórias)”, declarou. “Eu precisava reciclar ideias, ampliar horizontes nesse recomeço. Decidi, então, estudar o livro. Eu queria me aproximar da literatura, conhecer o mercado e acertei na mosca no palpite de que o curso de Produção Editorial me levaria bem além dos bastidores. Minha paixão pela escrita sempre existiu, mas eu me apaixonei também pelo processo. Não fiz planos de um dia escrever sobre esse ou aquele gênero. Tenho necessidade de mudar, de me desafiar, de descobrir novas vertentes para explorar e conquistar. Para mim, o ato de pesquisa é uma parte muito importante do processo. Então, quando eu decido que vou me aventurar pelo sick-lit, por exemplo, me alimento de literatura sick-lit. Isso também acontece na ordem inversa. Se um determinado livro, de um determinado gênero, me conquistar, muito provavelmente eu sentirei necessidade de experimentar o prazer que o autor teve escrevendo”. 

Apesar de ser um assunto delicado, e ainda com pouca repercussão – pelo menos, não como deveria -, Lu não se intimidou com a nova empreitada e garantiu que, de todas, essa foi a história pensada de maneira mais natural. Contudo, ela admitiu que o processo foi mais trabalhoso, principalmente por conta da preocupação com a revisão e na questão da ordem cronológica, pois a trama se passa em momentos variados da vida do protagonista. Mas a escritora afirmou estar feliz com o resultado final da obra, inspirada em alguns personagens da vida real bastante especiais.

De todas, essa foi a história que nasceu mais fácil”, contou. “Eu havia acabado de escrever Um Herói Para Ela, uma comédia urbana romântica, e precisava realmente me debulhar em lágrimas com alguns romances que estavam sendo lançados na época, como Como eu era antes de você (Jojo Moyes) ou Extraordinário (R.J. Palacio). Então, eu mergulhei nesse universo de temas delicados, posso dizer, da maneira mais sutil e delicada possível: com uma história sobre um menino de 12 anos que contraiu poliomielite (paralisia infantil) aos três e decide amputar as pernas pelo sonho de se tornar corredor olímpico. Precisei ser muito cuidadosa também na lógica cronológica, até porque, a história acontece em três momentos da vida do protagonista, com uma passagem de tempo de 10 anos entre cada uma. Foi um livro trabalhoso porque foi minuciosamente revisado, mas a pesquisa não foi a fase mais demorada, pois aconteceu durante o processo de escrita. Benjamin Delamy, o protagonista, foi inspirado nos atletas paralímpicos, nos portadores da Síndrome Pós-Polio, nas vítimas de paralisia infantil, nos esportistas, especialmente o campeão de natação Daniel Dias, que assina a recomendação na quarta-capa. Inspirado também em pessoas como Pedro Pimenta, que não é atleta, mas tem uma força sobre-humana dentro dele, que o fez largar a cadeira de rodas e superar as limitações de sua quadriamputação. São muitas vidas dentro desse livro”.

além do tempo capaEm relação à presença na Bienal do Rio 2015 (no primeiro sábado, dia 5), com Além do Tempo e Mais Um Dia, Lu disse sentir a ansiedade normal, principalmente com um novo trabalho: “o escritor sabe que precisa estar preparado para as críticas, mas nunca está. A mudança de gênero, ela garantiu, serve como estimulante. Ela exaltou ainda a nova fase na carreira, juntamente com a nova editora, e afirmou que espera que a mensagem do livro seja entregue. Estreando numa temática que ganhou notoriedade após best-sellers de nomes como John Green e Nicholas Sparks, a autora não teme comparações e confirmou que a vontade de escrever um livro sobre um determinado assunto parte de sua própria leitura. Acima de tudo, Lu, explicou, é preciso entender que o Além do Tempo e Mais Um Dia traz uma história de autoconhecimento, da busca por si mesmo, abrangendo mais do que, segundo ela, o termo sick-lit pode abarcar.

“Como escritora, eu sou uma leitora inconformada”, disse. “Isso define, em parte, minha motivação para escrever. A ideia para um novo livro surge, geralmente, após uma leitura que não sai da minha cabeça; seja porque o protagonista tomou uma decisão contrária à minha vontade, seja porque eu terei desejado, em vão, ter escrito aquela história. Confesso que nem John Green nem Nicholas Sparks me inspiraram para escrever Além do Tempo e Mais Um Dia. Mas não temo, absolutamente, comparação com eles. Sou fã de ambos e posso inclusive citá-los como referências, por isso, me sentiria lisonjeada. Eu não peguei carona em nenhum escritor, mas peguei carona no gênero – erroneamente e limitativamente -, talvez. Esse novo livro é sobre superação, amor e sonhos. Não é sobre doença. A doença é o ponto de partida de onde o protagonista sai para se descobrir e descobrir qual é o seu objetivo na vida. O grande inimigo, o grande antagonista dele, será ele mesmo. E não a doença”. 

Lu também frisou que o tipo de tema abordado em seu novo livro ainda recebe pouco espaço na mídia e concluiu que o lançamento de obras voltadas para esses assuntos são fundamentais para estimular o debater, mudar conceitos e principalmente garantir um acesso maior a informações.

“A literatura que eu escrevo sempre vai buscar uma mensagem de crescimento, de realização, de autoconhecimento”, explicou. “Este último é o meu livro mais lapidado de forma e conteúdo, mais refletido, mais sério, mais realista. É uma história baseada em histórias reais, mas é uma ficção cheia de mentiras que convencem ser verdades. O livro não é simplesmente sobre um menino paralítico que quer correr; é sobre esporte, superação, primeiro amor e, principalmente, fé. É um romance que assume várias formas, dependendo do foco que o leitor der à sua leitura. Abordar temas como poliomielite, amputação, jogos paralímpicos, que pouco destaque recebem da mídia (ressaltando que nossos heróis paralímpicos tiveram o melhor desempenho da história, e isso praticamente não foi noticiado em lugar nenhum), é importante para informar, enriquecer o debate, mudar conceitos, desfazer estereótipos. Não tenho a pretensão de atribuir função social ao livro Além do Tempo e Mais Um Dia, mas espero que ele desperte bons sentimentos em quem o ler. Porém, é claro, vou ficar muito feliz se o leitor for além e entusiasmar-se e interessar-se mais sobre as histórias reais que me inspiraram a escrever esta”.

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada "literariamente". Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de "A Bela e a Fera".

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