Raphael Montes: ‘eu não escrevo pensando se o público vai gostar’

Em Encontro de Escritores, Raphael Montes, autor de ‘O Vilarejo’, falou sobre o processo de criação e publicação de um livro, dividiu suas experiências e promoveu um debate sobre o mercado editorial

Uma troca de experiências e muito debate sobre a situação do mercado editorial e as perspectivas para os autores nacionais. Assim foi o bate papo com o escritor Raphael Montes, durante o Encontro de Escritores promovido pela agência literária Oasys Cultural, na última quarta-feira (19), na livraria Sabor Literário, no Leblon, Zona Sul do Rio.

Encontro de escritores com a presença de Raphael Montes/Foto: Vai Lendo
Encontro de escritores com a presença de Raphael Montes/Foto: Vai Lendo

Com um público variado e a presença de profissionais de diversas áreas literárias, Raphael, autor de Suicidas e O Vilarejo, seu novo livro que será lançado na próxima terça, dia 25, em São Paulo, e na Bienal do Livro de 2015, pela Suma de Letras, contou a sua trajetória, mostrou seus desafios e conquistas e opinou sobre alguns pontos centrais do mercado, entre eles o processo de publicação de uma obra e a tendência, cada vez maior, de se lançar um livro visando apenas o lucro.

“Eu não escrevo um livro pensando se o público vai gostar ou não”, afirmou ele. “Eu faço o que eu gosto, para me agradar. E eu acho que tem que ser assim com todo mundo. É muito pretensioso dizer que vai escrever o que o povo gosta, porque a gente não sabe, de fato, do que o povo gosta. Eu faço o que eu gosto e, talvez, o meu gosto seja comum a muitos leitores. Eu dei essa sorte”.

Raphael, de 24 anos, disse ainda que ouviu muitos “não”, até estar no lugar certo, na hora certa. Ao participar de um concurso literário, sua obra chegou ao conhecimento de um grande editor, que, logo, se interessou pelo material apresentado, no caso, seu livro Suicidas, que acabou sendo lançado pelo selo Benvirá, da Editora Saraiva. A partir daí, o sucesso virou uma consequência da sua boa e envolvente escrita. Ele ressaltou, contudo, que é fundamental o escritor ter paciência, pois o caminho até a publicação de um livro é longo e árduo. Por isso mesmo, ele enfatizou ainda que não se pode antecipar o processo e aceitar qualquer tipo de oferta que aparecer na frente e destacou a importância de o autor se envolver diretamente nesse trabalho.

Raphael Montes dividiu suas experiências e debateu sobre o mercado editorial/Foto: Vai Lendo
Raphael Montes dividiu suas experiências e debateu sobre o mercado editorial/Foto: Vai Lendo

“Quando você manda o seu livro para uma editora, ele vira um produto”, explicou. “A capa do livro é o que vai vender, mas você não pode ter pressa para publicar, aceitar qualquer coisa que lhe oferecerem.  Eu participei de todo o processo de edição de Suicidas. Em alguns pontos eu concordei com o meu editor, outras eu questionei e bati o pé, mas tem que ter esse tempero. A partir do momento em que eu escrevo, depois, eu também edito o meu próprio livro e vou aprendendo”.

Autor (e leitor) do gênero policial, Raphael debateu sobre a presença desse tipo de leitura no Brasil, que, para ele, “ainda não é popular”, e criticou a ideia da “literatura de entretenimento”, uma vez que o termo, em sua opinião, gerou uma divisão da literatura, estigmatizando as escritas e a essência dos livros. Para o escritor, que se colocou “no meio termo entre essas categorias”, é possível fazer uma literatura mais consistente, trabalhada, que, ao mesmo tempo, é capaz de entreter.

“Me incomoda a ideia de literatura do entretenimento”, declarou. “Para mim, só existem a boa e a má literatura. O que se criou no Brasil, erroneamente, é essa noção de que, ou você faz uma dessas literaturas para vender, ou você faz aquela mais estudada, quase hermética, que tem caráter mais acadêmico e disputa prêmios. Eu estou no meio termo, porque não concordo com o fato de se fazer apenas uma dessas coisas. É possível juntar os dois lados. É, inclusive, bom escrever nas mais variadas camadas porque você atingir um público maior e diversificado”.

Por falar em público, Raphael faz questão de manter um contato próximo com seus leitores, principalmente nas redes sociais. Sua relação com os blogs é estreita e ele disse fazer questão de disponibilizar suas obras aos internautas, pois é assim que, de fato, é possível a um novo autor se fazer conhecido.

“A divulgação de Suicidas se deu basicamente no boca a boca”, ressaltou. “Eu conversa com as pessoas que haviam lido o meu livro e me procuravam nas redes sociais, porque ainda não era conhecido e elas queriam saber quem eu era. O fato de eu fazer isso (nas redes sociais) não torna a minha literatura melhor, tão pouco pior. Isso não tem diz respeito à qualidade do livro. As pessoas não vão ler o seu livro porque ouviram falar dele. Elas vão comprar pelo nome, mas é preciso fazer esse nome, criar um nome”.

 

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada "literariamente". Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de "A Bela e a Fera".

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