Entrevista: Maurício Gomyde

Em entrevista com o Vai Lendo, Maurício Gomyde, autor de ‘A Máquina de Contar Histórias’, falou sobre o lançamento de seu novo livro, ‘Surpreendente!’, pela Intrínseca, na Bienal do Livro 2015, e do seu prazer em compartilhar experiências com os leitores

Maurício Gomyde, autor de 'Surpreendente!'/Foto: Divulgação/Intrínseca
Maurício Gomyde, autor de ‘Surpreendente!’/Foto: Divulgação/Intrínseca

Fazer aquilo que gosta e, mais do que isso, ser capaz de compartilhar a sua paixão, os seus interesses e experiências com os outros, de maneira inspiradora e enriquecedora, é mais do que uma vocação. É a prova da capacidade solidária do ser humano de se comunicar e influenciar o próximo positivamente, muitas vezes, ajudando o outro (ainda que inconscientemente) a superar desafios e a enxergar novos caminhos e soluções. A maioria dos escritores tem esse dom. Eles arrebatam os leitores com suas histórias que parecem ter sido escritas pensando em nós mesmos. E, em alguns momentos, chegamos a nos surpreender com suas opiniões e pontos de vistas de determinadas situações tão semelhantes à nossa realidade que nos obrigam a refletir e auxiliam na busca por uma compreensão que, nem sempre, conseguimos obter. Maurício Gomyde é uma dessas pessoas que exercem esse “papel”, digamos assim. E, em Surpreendente!, título de seu novo livro – que é uma grande homenagem ao cinema e estará nas livrarias de todo o país a partir do dia 1º de setembro -, ele mostra exatamente como é preciso batalhar por aquilo em que acreditamos e queremos, sem deixar que os obstáculos nos impeçam de perseguir os nossos sonhos.

Em conversa com o Vai Lendo, o autor, que se prepara para lançar a obra na Bienal do Livro 2015, pela editora Íntrinseca, falou sobre o processo de criação dessas histórias de caráter tão pessoal, da expectativa para o maior evento literário do país e principalmente do que ele espera e pretende oferecer ao seu público com Surpreendente!. Aliás, a relação estreita de Gomyde com  seus leitores também afeta o trabalho do escritor, uma vez que, além de se identificarem com as tramas, eles participam de algumas delas. Isso mesmo. Por vezes, o autor escolhe um de seus leitores para virar personagem de algum livro, como em Surpreendente!.

“No Surpreendente!, há uma leitora que virou personagem, sim”, explicou. “Fiz um sorteio no ano passado e foram mais de 15 mil participações. Eu já havia feito isso em Ainda Não Te Disse Nada e Dias Melhores Pra Sempre. Acho uma ideia bacana, pois é uma forma de homenagear as pessoas que acompanham o meu trabalho. Mesmo aquelas que não ganham se sentem representadas. Dessa vez, a menina se chama Bruna Mayla, e a personagem, no livro, ficou como Mayla. Ela ainda não leu, não sabe praticamente de nada, mas acho que vai gostar. Foi um prazer inseri-la na história”.

Com seus primeiros livros lançados de maneira independente, Gomyde analisou a situação para aqueles que desejam entrar no mercado editorial, seja através da autopublicação ou a partir de uma editora. Para ele, tudo vai depender de o autor descobrir qual é o caminho que pretende seguir e, consequentemente, batalhar por ele. Gomyde ressalta ainda que é preciso, acima de tudo, não ficar parado, ou seja, o profissional tem que correr atrás, em qualquer situação.

“Trilhei o caminho independente e ele serviu para mim”, afirmou. “Isso não quer dizer que sirva para todo mundo. Cada um faz a sua trajetória. Há pessoas que não têm a vibe de militar no independente e nem por isso são piores ou melhores. São apenas diferentes. Há muita gente que entrou em grandes editoras enviando originais; outros escritores vieram da internet; outros batalharam prêmios de literatura. Enfim, os caminhos são muitos, e o escritor deve sentir qual é a sua e apostar nela. Um conselho que eu sempre dou é: viva intensamente o livro que você está escrevendo. Escreva o melhor livro que conseguir e não se dê por satisfeito até achar que ele realmente está muito bom. Deve-se lembrar que o mercado (para quem quer entrar no mercado) é um funil com a boca enorme e a saída minúscula. Ou seja, deve-se tentar ter algum diferencial, na escrita e na forma de divulgação. E mãos à obra. O que não pode é ficar parado, porque nenhuma editora e nenhum contrato caem do céu”.

Gomyde apontou também as principais diferenças entre os escritores independentes e aqueles que saem por uma editora, destacando a liberdade de criação na autopublicação e a especialização no processo de desenvolvimento do livro, no caso das editoras.

“O independente dá liberdade total de criação”, disse ele. “É meio que o esquema de você escrever tudo o que está a fim de escrever e deixar ‘o pau quebrar’. A divulgação é sua, o book trailer é você quem decide se e como vai fazer. A hora de lançar é definida por você e a estratégia de divulgação também. Por outro lado, na editora há toda uma gama de profissionais, cada um em uma área, aptos a cuidar daqueles passos. Então, o autor passa a ter de ouvir mais outras pessoas, entender a coisa como um negócio de alguém que está investindo e também vai opinar. Do texto, à capa, da diagramação à divulgação. São duas formas de trabalhar muito intensas. O maior problema do independente é a distribuição, mas com a internet também há como minimizar isso. E também não adianta você estar em uma editora (grande ou pequena) que não dá atenção ao seu trabalho. Enfim, são muitas coisas a ponderar. O importante, mais uma vez, é não ficar parado”.

'Surpreendente!', de Maurício Gomyde/Foto: Divulgação/Intrínseca
‘Surpreendente!’, de Maurício Gomyde/Foto: Divulgação/Intrínseca

Falando nessa relação entre autor e editora, Gomyde mostrou bastante expectativa em relação ao seu primeiro trabalho com a Intrínseca e ao lançamento de Surpreendente! na Bienal. O escritor se mostrou bastante satisfeito e orgulhoso com o resultado da obra e disse esperar que o público também sinta nas páginas todo o carinho e dedicação impostos no projeto, pois a sua maior preocupação é fazer com que a trama possa tocar os leitores.

“A expectativa (do lançamento) é muito boa, pois a Intrínseca é uma editora que aposta de verdade no autor e tem um trabalho de altíssima qualidade”, garantiu. “Estou empolgado e acho que vamos fazer bonito. O importante, no fim das contas, é a turma gostar da história, da capa, e sentir que valeu a pena sentar e dedicar seu tempo ao livro. O trabalho ficou muito bom, a capa é bonita, a diagramação está bem de acordo com a trama. Agora é aguardar para esperar a opinião dos leitores. Espero que todos gostem. Inserir paixão (em forma de lágrimas, amor, raiva, etc.) dentro de uma trama que está sempre indo em frente faz parte da habilidade do escritor em prender a atenção do leitor. Nem sempre a gente consegue, claro… rs. Mas, pelo menos no meu caso, é como se fosse meu “santo graal”. Segurar o leitor até a última página e, quando ele virá-la, ter a sensação de que saiu melhor do que entrou? Isso, sim, seria perfeito! Tenho isso como objetivo. Espero que as pessoas sintam isso também no Surpreendente!.”

Com um público já fiel e muitos admiradores, Gomyde soube conquistar os leitores a cada página, cada história trazida, inclusive, de suas próprias experiências pessoais. Não à toa, muitos chegam a procurá-lo para falar sobre questões da vida, estimulados pela escrita do autor. Mas ele frisou que “não é nada além de um contador de histórias”, uma pessoa comum com os seus próprios conflitos, e que a troca com os leitores, para ele, é mais importante do que qualquer coisa. Que o principal é fazer com que as pessoas se sintam bem ao ler os seus livros.

“Cada pessoa com quem converso acaba me ensinando muito mais do que tenho a ensinar (seria pretensão minha se eu achasse que a escrita é algum tipo de ‘missão’)”, declarou. “Tenho um zilhão de problemas e questões a resolver, assim como qualquer pessoa. A troca com os leitores é sempre rica e, por isso, não deixo de falar com ninguém (quando me procuram). Devo tudo aos meus leitores, e cada um deles, saibam ou não disso, são meus bons amigos”.

'Surpreendente!' será lançado no dia 1º de setembro, e o autor estará na Bienal do Livro 2015/ Foto: Divulgação/ Intrínseca
‘Surpreendente!’ será lançado no dia 1º de setembro, e o autor estará na Bienal do Livro 2015/ Foto: Divulgação/Intrínseca

É possível notar isso em detalhes, nos elementos inseridos na trama que representam algumas das paixões do escritor, como o cinema e a música, por exemplo, por escolha do próprio escritor, que gosta de estimular no público a sensação de “vivenciar a leitura”, como se estivesse “assistindo a um filme ou escutando uma canção”. A opinião de quem lê alguma de suas obras é praticamente unânime no que diz respeito à capacidade que Gomyde tem de nos transportar para suas páginas e compartilhar as suas próprias experiências. E justamente por essa proximidade, favorecida pela escrita pessoal de Gomyde, ele conseguiu conquistar principalmente o público feminino, ainda que despropositadamente. Muito se deve à sensibilidade do autor na hora de inserir a relação entre seus personagens.

“Eu  nunca fiz da minha escrita algo deliberadamente do tipo ‘vou conquistar o público feminino'”, falou. “Quando lancei meu primeiro livro, chamado O Mundo de Vidro, imaginava que bem mais homens iriam gostar. Isso porque o livro é engraçado, tem um monte de coisas “toscas” e piadas daquelas que só homens gostam (risos). Mas, ao contrário, percebi que as mulheres gostaram demais do romance que há na história. E acabou que os três livros subsequentes (Ainda não te disse nada, O rosto que precede o sonho e Dias melhores pra sempre) vieram com dramas com romance no meio. Daí, definitivamente, o público feminino tornou-se maior. Já em A máquina de contar histórias, há uma relação familiar e, por isso, o público masculino gostou bastante também. No Surpreendente!, o foco da narrativa é na amizade entre quatro amigos. Há um romance também, mas não é o cerne da trama. Espero que tanto o público feminino quanto o masculino se encantem pelo que vão ler”.

E, já que o autor levantou a bola, a gente também quis saber o que era surpreendente para ele, que respondeu estar positivamente surpreso com a situação atual da literatura nacional e espera que isso se reflita na bienal deste ano.

“Atualmente, acho que surpreendente é ver como a literatura nacional vem crescendo”, Gomyde afirmou. “A expectativa para os livros brasileiros nesta bienal é a melhor possível. Há alguns anos, isso não era de se imaginar. Tomara que tenhamos cada vez mais belas surpresas com o que tem sido escrito por estas bandas de cá. Os leitores não devem, na minha opinião, ter qualquer tipo de preconceito com os nacionais. Deem chance e, acho, vão se surpreender (e isso não é um trocadilho! risos)”.

Saiba mais sobre Surpreendente! no site oficial do livro.

Saiba onde comprar:
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Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada "literariamente". Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de "A Bela e a Fera".

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