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Limbo, de Thiago d’Evecque | Resenha

‘Limbo’: humor inteligente e beleza poética, mostrando que ainda há grandes tesouros na literatura nacional

'Limbo', de Thiago d'Evecque / DivulgaA�A?o
‘Limbo’, de Thiago d’Evecque / Divulgação

O assunto do momento é o livro Limbo, do escritor e jornalista carioca, Thiago d’Evecque, uma obra do gênero fantástico, nacional e, enfaticamente, digna de nota.

Antes de qualquer coisa, quero agradecer, e muito, as duas pessoas – não vou citar nomes, por não saber se os citados gostariam – que me indicaram o livro e me pediram para lê-lo. Amigos, vocês pediram a minha opinião. Então, aqui vai ela.

Na matéria publicada pelo Vai Lendo, sobre esse mesmo livro do Thiago, em dado momento, ele disse que Limbo era “uma carta de amor”, que homenageava as influências que o marcaram. E, na introdução do livro, ele colocou sobre o falecido autor, Terry Pratchett: “Tenho certeza de que Limbo não existiria se eu não conhecesse as obras de Pratchett. E eu também não existiria do jeito que sou hoje”.

Bom, eu nunca tive dirigida a mim uma dedicatória como essa, em um livro como Limbo. Mas, com certeza, se fosse o caso, estaria muito orgulhosa.

O livro Limbo é uma ficção fantástica – em todos os sentidos da palavra -, que se passa onde o título, por si só, já indica. Fala muito da morte, mas igualmente da vida. Seu protagonista não possui nome, memórias, ou identidade, sabe-se apenas que ele é um agente do além e seu trabalho, ao longo da obra, é escolher e recrutar sete almas, de acordo com os valores que procura para cumprir a demanda da missão que a eles será dada, quando forem reencarnados, na Terra, enquanto busca reconhecer a si mesmo.

Achei essa obra diferente da grande maioria que vemos pelo mercado editorial. Ela apresenta uma problemática, mas não o desespero por encontrar uma solução. Senti que toda a narração seguiu uma reta. Como quando seguimos um caminho, cujo final não sabemos medir a distância, mas tudo bem, porque sabemos que vai chegar.

Foi assim que li Limbo.

Algo que deve ser notado é a narrativa escolhida. Thiago d’Evecque optou, em minha opinião, pelo caminho mais difícil: o de ter um narrador-personagem. Normalmente, o fardo de narrar uma história, quando sobre os ombros de um personagem veramente presente na trama, torna-a limitada em informações. Não é o caso em Limbo, pois o narrador é também aquele que conhece tudo e todos, no universo em que se passa a história. O único que ele não conhece é a si mesmo, e sua tranquila busca pela sua identidade é tão encantadora, que nos faz especular sobre sua origem, mas é também tão sutil, que sua ignorância não chega a nos perturbar.

Se o autor tinha a intenção de se aproximar de Terry Prachett em excelência. Então, lhe dou meus parabéns, pois ele conseguiu. A fluidez e a beleza com que escreve fazem com que Limbo seja uma das prosas mais poéticas que já li. Me passou a impressão de que, para cada palavra usada, sua calculada, porém romântica escolha foi posta em uma balança.

Não me entendam mal, pois não estou comparando as obras ou os autores. Não acho que se deve fazer isso. Nunca, nunca compare uma obra de um autor com outra de outro autor. O que quero dizer é que foram raras as vezes em que vi um autor jovem aprender genuinamente com uma figura de maior experiência. Isso sim é aprendizado, isso é riqueza.

O trabalho de pesquisa apresentado em Limbo também não pode ser questionado. Vemos elementos diferentes, de tempos, histórias e culturas diversas. O que só deixa essa bela trama ainda mais rica. Temos um pouco da história dos anjos, histórias japonesas, europeia, mitologia grega, árabe, romana, irlandesa, chinesa, nórdica, africana, saxônica e uma vastidão de outros grandes tesouros literários e históricos. Em poucas páginas, o autor conseguiu enriquecer sua obra de maneira absoluta e inegável, dando uma volta ao mundo e passeando pela História e lendas de todos os cantos. Tal característica “acadêmica”, digamos assim, emprestou à obra um tom de veracidade realmente difícil de ser questionado.

Porque você até sabe que se trata de uma ficção. Mas não poderia ser verdade?

Não sei se o que digo tem algum valor, mas, ainda assim, ouso dizer que Thiago d’Evecque poderia ser um jovem e brilhante gênio da literatura fantástica brasileira, junto com um seleto grupo de nomes e títulos que já li.

Porque ser bom é difícil, mas possível. Mas ser brilhante já é outra história.

Ele só precisa ser descoberto. E, para isso, precisa ser lido.

Algo que eu recomendo, fervorosamente.

Assim como recomendo a quem ler Limbo, que o leia inteiramente. Desde a dedicatória até as notas no final. Acho quase impossível que consiga fazê-lo sem aprender alguma coisa.

Quanto à obra em si, nada tenho a reclamar. As únicas coisas que, para mim, pareceram fora do lugar foram:

Primeiramente, a capa, que eu sinceramente não considero muito representativa da história em questão. A ideia que a capa me passou inicialmente foi de que Limbo era uma história de terror. E não é esse o caso – se bem que até o título passa uma ideia um pouco sombria, à primeira vista.

E, em segundo lugar, ficou o fato de que não há um volume físico do livro – pelo menos, não que eu saiba. Uma grande pena, pois seria uma honra ter esse volume na minha estante.

Perdoem-me, mas admito que sou uma leitora com fetiche por livros físicos.

Mas, enfim, fazendo uso de um humor inteligente e irônico, Thiago d’Evecque usa histórias ambientadas em um mundo imaginado para trazer até nós incoerências e filosofias, tanto as que não se aplicam, mas também que deveriam ser aplicadas no mundo real. E ele consegue fazer isso sem prejudicar as mais caras marcas de sua obra: o humor inteligente, o entretenimento fluido e a beleza poética de suas palavras tão bem escolhidas.

A beleza fluida e leve de Limbo conseguiram me fazer sentir orgulho dos tesouros que nossa literatura guarda.

Como eu disse, eles apenas precisam ser descobertos e lidos.

O que, volto a dizer, eu recomendo com fervor.

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