Harry Potter: o bruxo que me mostrou a magia da leitura

jk rowling e harry potter
JK Rowling / Divulgação

31 de julho. Aniversário do bruxo mais famoso de todos os tempos e, também, da autora que criou todo um mundo de magia e encantamento: J.K. Rowling. Difícil não ser conquistado pelo garoto órfão que morava embaixo da escada, na Rua dos Alfeneiros nº 4, e descobriu que, além de de poderes mágicos, existia um novo universo a ser explorado com os amigos extraordinários, encantos, algumas criaturas terríveis, perigos, enigmas e tudo que uma boa aventura pede. Como não amar?

Porém, para conhecer esta história, era necessário abrir as páginas de um livro, objeto ainda pouco explorado por mim, no auge dos meus 13 anos. Confesso que tinha certa aversão a eles. Ainda mais aqueles que, como Harry Potter e a Pedra Filosofal, tinham palavras escritas do topo da página até o rodapé.

Estudei em uma escola dita “preparada”, equipada com biblioteca e professores qualificados, mas nada, nem ninguém, me fazia gostar de ler. Não conseguia associar os livros a algo prazeroso. Ou eles eram temas de prova (que eu geralmente me dava mal, porque não lia) ou faziam parte de alguma atividade chata que não me interessava.

Até que, em uma manhã do ano 2000, durante uma feira do livro – realizada anualmente pela escola -, me deparei com o primeiro volume de Harry Potter. Como qualquer criança (ou pré-adolescente, como gostava de ser chamado), fiquei fascinado pelo acabamento do livro e pelo caldeirão que estava exposto (o marketing, sem dúvida, foi fundamental para chamar a minha atenção, mas na época não sabia o que era isso). Assim, peguei um exemplar, folheei e fui embora. Nos dias seguintes, como a feira se espalhava pelos corredores da escola, acabei “esbarrando” na história deste bruxo diversas outras vezes. Até que, um dia, uma colega de classe me viu analisando um exemplar na mão, falou “esse livro é muito bom” e me contou, com suas palavras, o começo da trama. Pronto, fui convencido! Afinal, nada melhor do que a opinião de uma pessoa com a mesma idade que você para dizer que aquilo poderia ser uma atividade divertida.

Ilustração Harry Potter e Hagrid no Beco Diagonal / Mary GrandPré : Art Insights Gallery : Via artinsights.com
Ilustração Harry Potter e Hagrid no Beco Diagonal / Mary GrandPré : Art Insights Gallery : Via artinsights.com

Lembro que comprei o livro numa sexta-feira, no final de abril, cheguei em casa e li um ou dois capítulos (uma vitória, tratando-se do meu caso perdido). Apesar de ter amado todo aquele universo, logo de cara, foi difícil manter uma rotina de leitura. Havia a TV, o video game, brincadeiras, sem contar uma festinha que fui naquela mesma sexta-feira. Só não incluo internet porque, naquela época, não tinha em casa, mas hoje ela seria a principal concorrência. Enfim, não preciso dizer que a missão foi difícil. Leitura exige silêncio e concentração, algo difícil para um jovem de 13 anos. E, para piorar, eu ainda perdi o livro durante uma mudança de apartamento. Assim, Harry Potter e a Pedra Filosofal ostenta, até hoje, o posto da publicação que eu mais demorei a ler.

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‘Harry Potter e a Câmara Secreta’, de J.K. Rowling, com marcador de livro / Foto: Vai Lendo

Não consigo saber ao certo quando encontrei o livro, nem quando retomei a leitura. Recordo-me apenas que, do meio para o final, eu engatei a história do bruxo em velocidade máxima  (naquele tempo, isso significava uns dois ou três capítulos, por dia). No fim, estava completamente apaixonado e desesperado pelo segundo volume da série, Harry Potter e a Câmera Secreta. Era dezembro quando corri com a minha irmã para uma pequena livraria de bairro (algo raro hoje em dia), cujo dono era um velhinho simpático que abriu um sorriso ao ver dois jovens entrando pela porta, e garanti meu exemplar: o meu favorito da saga.

Li o segundo livro em uma semana, algo realmente veloz para um leitor iniciante tardio. Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban tinha recém- chegado às lojas. Nem preciso dizer que voltei rapidamente para a livraria daquele senhor e garanti também o terceiro volume. Este eu li em um mês. Do quarto em diante, foi aquela agonia de fã: quando um livro novo era lançado, lá estava eu na porta da livraria (desta vez, não era daquela velhinho, que já havia sido fechada). Nunca cheguei a ser um pottermaníaco, desses que sabe de cor todos os feitiços ou andam de cachecol da Grifinória, mas durante a minha juventude me deliciei com este universo e sou muito grato a J.K. Rowling por me mostrar que os livros podem, efetivamente, ser divertidos.

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Coleção ‘Harry Potter’ na estante / Foto: Vai Lendo

Durante o período que frequentei a escola, não li muita coisa, além da saga do bruxo. Ainda assim, expandi um pouco os meus horizontes e fui algumas vezes, por espontânea vontade, à biblioteca. Até li sugestões da professora, como contos do Machado de Assis e uns livros da época do romantismo. É claro que alguns eu realmente detestei, como Um Certo Capitão Rodrigo e outro de mitologias (que só confirmou meu total desinteresse pelo assunto). Porém, no ensino médio, uma das aulas de literatura me incomodou profundamente. Fizeram uma “demonização” dos livros de Harry Potter. O principal argumento da professora era que os jovens se restringiam muito àquela leitura. Por mais que o posicionamento fosse plausível – até pelo meu caso, que não tinha virado um leitor assíduo -, aquilo me irritou, afinal, aquele livro foi “o” responsável por me apresentar ao mundo das páginas escritas. Não poderia ser uma coisa tão menosprezada.

Eu fiquei ainda mais irritado quando, pouco tempo depois desta aula, a mesma menina que me indicou o livro do Harry Potter (que já dava indícios de se tornar uma daquelas pessoas que renegam tudo que vira “moda”) condenou o pobre bruxo em uma conversa de grupo. Ela disse que a obra não tinha valor algum. Era simplesmente ruim. “Como assim?”, pensei irritado, sem me manifestar, até porque não participava do papo.

Tenho uma ressalva com este tipo de comportamento que acredita que as coisas comerciais devem ser banalizadas, ainda mais no caso da leitura, área em que o Brasil é tão carente. Acredito também que ninguém irá se iniciar no universo literário com um livro complexo e filosófico, ou de um autor clássico renomado. Cada etapa da vida tem o seu estilo, começando pelas figuras e texturas, passando por historinhas (figura e frase) e os juvenis até tramas mais elaboradas e reflexivas. Todas elas têm o seu valor.

Nós, brasileiros, temos uma péssima herança que nos acompanha por gerações. O descaso com a leitura vem de berço. É difícil encontrar culpados, já que os nossos ancestrais não foram educados para tal hábito. Assim, é impossível passar um conhecimento que não se tem. A família é a responsável por apresentar este universo literário, e a escola por mostrar as diversas facetas do livro (sem, é claro, impor uma leitura ou fazer “provas de livro”). Ela deve sugerir escolhas e solidificar o conhecimento.

Voltando ao fenômeno “Harry Potter”, vejo que, pela primeira vez, uma geração deficiente de incentivo literário pode adquirir, mesmo que tardiamente – como eu -, o hábito da leitura e, assim, passar adiante. Se prestarmos atenção, as crianças e os adolescentes de hoje estão lendo mais. Em 2014, por exemplo, fiquei surpreso, na Bienal do Livro de SP, com a quantidade de fãs enlouquecidos com a visita da autora Cassandra Clare ou com a passagem de John Green, mês passado, aqui pelo Brasil. Analisando o trabalho das editoras brasileiras nas redes sociais, principalmente os selos jovens, é nítido o engajamento deste público. Eles certamente estão lendo mais do que os seus próprios pais, e a tendência é só ampliar.

Cassandra Clare (Divulgação) / John Green e Nat Wolff no Brasil (Reprodução / Instagram)
Cassandra Clare (Divulgação) / John Green e Nat Wolff no Brasil (Reprodução Instagram)

Em relação ao autores nacionais, o mercado engatinha mais lentamente. Mesmo assim, evolui. O que dizer dos fenômenos literários Thalita Rebouças, Paula Pimenta e Eduardo Spohr? Sem contar nos autores independentes que pipocam na internet. Já vi alguns trabalhos muito bons e tenho certeza de que, daqui a pouco, eles despontam por aí.

Porém, falar de sucesso significa voltar aos nomes mais famosos e no preconceito que isso gera por parte de alguns que menosprezam o trabalho da literatura mais comercial. Muita vezes, eles se esquecem de que são essas publicações que sustentam as grandes editoras e que, inclusive, publicam os títulos considerados “intelectualmente superiores”. Além disso, hoje, temos um mercado variado, que explora diferentes nichos; tem até terror (um dos meus gêneros preferidos)!

A literatura é muito ampla. Tem espaço para todos os estilos e gostos. É claro que, na infância e na adolescência, somos movidos por modismos e tal, mas nada impõe que você estará fadado a ler apenas uma coisa ou que aquilo é ruim. Pelo contrário, eu e meus amigos (da geração Harry Potter) somos provas vivas da diversidade da leitura quando atingimos a idade adulta. E, vendo a quantidade de histórias, sagas e mundos que tem surgido por aí, tenho certeza também de que a geração futura será ainda mais leitora.

O Brasil está longe de ser um país de leitura literária. Estamos caminhando, sim, no entanto, o ritmo ainda é lento. Mais do que apontar problemas, é preciso tomar uma atitude. A educação precisa melhorar (e está longe do ideal), mas ela não é a única responsável. O incentivo à leitura depende de todos nós e tem que vir de todos os lados. Veja o meu exemplo, acasos me aproximaram do livro, porém, isso só foi possível porque as opções estavam lá. Seja em uma estratégia de marketing de lançamento, feira de livro, salas de aula, conversa de amigos e famílias ou visitas a blogs/sites, qualquer estratégia é bem-vinda para difundir o hábito de ler. O conjunto destes fatores é o que forma o leitor.

Desculpe pelo longo desabafo, mas não tem como falar de Harry Potter sem associá-lo à minha iniciação à leitura. Para mim, os livros da série foram as portas da literatura e de um mundo mágico.

Obrigado J.K. Rowling! Parabéns pelos seus 50 anos.

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Coleção ‘Harry Potter’, de J.K. Rowling / Foto: Vai Lendo

Daniel Lanhas

Apaixonado por histórias, tramas e personagens. É o tipo de leitor que fica obsessivamente tentando adivinhar o que vai acontecer, porém gosta de ser surpreendido. Independente do gênero, dispensando apenas os romances melosos, prefere os livros digitais aos impressos, pois, assim, ele pode carregar para qualquer lugar.

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