Livro no Ponto e no coração dos leitores

Projeto de incentivo à leitura instala bibliotecas voltadas para o empréstimo gratuito de livros

Livro no Ponto/Foto:Divulgação
Livro no Ponto/Foto:Divulgação

Às vezes, uma simples ideia pode mudar a vida de várias pessoas. E um livro, nós sabemos, é capaz de apresentar todo um mundo novo de possibilidades, através de páginas e personagens inspiradores. O incentivo à leitura é fundamental para que possamos ter uma sociedade livre e capaz de formar as suas próprias opiniões. Porém, infelizmente, os livros ainda não estão acessíveis a todos. Mas, graças à boa vontade de alguns, ler se torna uma possibilidade real para quem achava que os títulos eram algo apenas a se imaginar ou vislumbrar ao longe. Agora, eles também têm a oportunidade de adquirir um hábito prazeroso e transformador. Pensando nisso, Renato Ceschini deu início ao projeto Livro no Ponto, em Petrópolis, na Região Serrana do Rio, que consiste no empréstimo gratuito de livros para os moradores locais. A iniciativa tem apoio da Fundação de Cultura e Turismo da cidade e já possui mais de 300 cadastros, que realizaram, até o momento, quase 390 empréstimos.

Vencedor do Prêmio Rio Sociocultural, o projeto já teve, inclusive, o reconhecimento de grandes nomes da literatura nacional, como Ziraldo (assista ao vídeo abaixo). As instalações contam atualmente com um acervo de 750 livros, que passam a ficar automaticamente disponível ao cidadão, a partir do momento em que é realizado o cadastro. A retirada dos livros é livre e gratuita, desde que os títulos sejam devolvidos em perfeito estado para o empréstimo de outro. O Vai Lendo teve o prazer de bater um papo com Ceschini, que ressaltou o diferencial desta iniciativa e falou sobre os planos para a expansão do projeto.

 

Vai Lendo – Qual é o diferencial do Livro no Ponto em relação às outras bibliotecas itinerantes?

Renato Ceschini: O diferencial deste projeto está na inovação. Parti de uma ideia bastante simples e que foi aprimorada para que tivéssemos um modelo de biblioteca de fácil instalação a um custo baixo. No processo de criação deste projeto, trabalhei ao contrário. Primeiro, identifiquei nas pessoas interessadas em leitura quais eram as maiores dificuldades no acesso ao livro. Vi algumas que poderiam ser resolvidas, como custo alto, pouca ou nenhuma oferta de bibliotecas nas proximidades, dificuldades no deslocamento para pegar um livro. Com esses e outros dados na mão, com muito trabalho e com um pouco de criatividade, o resultado foi este. O Projeto Livro no Ponto. Uma pequena biblioteca que comporta um acervo em torno de 1.000 (mil) livros, um computador que gerencia o acervo e o cadastro dos sócios, através de um programa desenvolvido pela Fundação Biblioteca Nacional, e que pode ser instalada em qualquer lugar, seja em uma praça, parque, posto de gasolina, hospital, terminal de ônibus ou em qualquer lugar que não fosse possível construir uma biblioteca. Ou seja, é possível instalar uma pequena biblioteca com uma boa estrutura de funcionamento, sem a necessidade de nenhum tipo de construção. Esse me parece ser o grande diferencial do projeto. O objetivo principal foi alcançado. Colocar o livro no caminho do cidadão de maneira bastante abrangente e democrática. É importante ressaltar também, que ela não tem o caráter itinerante, a ideia é que cada unidade fique de forma permanente. Ou seja, o leitor sabe que naquele ponto tem e sempre terá uma biblioteca à sua disposição.

Vai Lendo – Quantas cidades participam atualmente da iniciativa?

R.C.: Hoje, Petrópolis é a principal. A cidade conta com cinco unidades, duas em comunidades carentes, duas em dois grandes terminais de ônibus (Corrêas e Itaipava) e uma em um hospital público, as três últimas com o apoio da Prefeitura. Três Rios também participa com uma unidade em um terminal de ônibus, também com o apoio da Prefeitura local. Já colocamos uma na cidade do Rio de Janeiro e outra, em Niterói, mas tivemos que retirar por falta de apoio e patrocínio.

Livro no Ponto/Foto:Divulgação
Livro no Ponto/Foto:Divulgação

Vai Lendo – Como as cidades interessadas podem participar, como é feito esse processo e a aquisição dos livros para o projeto?

R.C.: O poder público é o principal responsável por levar educação e cultura ao cidadão. Isso todos sabemos, mas também é importante termos consciência de que a sociedade civil tem o seu papel a cumprir. Acreditamos que com esse projeto estamos contribuindo e fazendo nossa parte. Sendo assim, disponibilizamos cada unidade no formato de um kit. Ao adquiri-lo, a Prefeitura passa a ter essa biblioteca como seu patrimônio, com liberdade e autonomia para administrá-lo, seguindo algumas pequenas regras para manter a unidade do projeto. A biblioteca é instalada no local previamente definido e, em uma hora, já está pronta para o funcionamento. Damos também um treinamento ao funcionário do atendimento para a utilização do programa do computador. Quanto ao acervo, é bastante variado. Não definimos um tipo de leitura. Por termos um público tão variado, inclusive infantil, temos um acervo para atender a todos.

Vai Lendo – No site, vocês afirmam que os livros do projeto são todos novos e comprados. A aquisição é feita por patrocinadores?

R.C.: Sim. O acervo faz parte da aquisição quando feita pela prefeitura ou um eventual patrocinador, e o acervo é absolutamente novo. Todos os exemplares são adquiridos pelo projeto diretamente das editoras. Esse é um ponto do qual não abrimos mão, por fazer parte da filosofia do projeto. Valorizar o leitor! Ele tem que se sentir valorizado pelo projeto. Com relação ao patrocínio, desenvolvemos também algumas maneiras de exposição de marca como retorno para o patrocinador.

Vai Lendo – Como eles (os patrocinadores) estão envolvidos na iniciativa?

R.C.: O patrocinador pode entrar ou não em parceria com o poder público, utilizando, inclusive, Leis de Incentivo. Em Petrópolis, tivemos um caso assim.

Livro no Ponto/Foto:Divulgação
Livro no Ponto/Foto:Divulgação

Vai Lendo – Você consegue perceber, de fato, um aumento no interesse pela leitura com o projeto?

R.C.: Muito! Essa foi a grande surpresa que tivemos. Inclusive, com muitos casos relatados pelos próprios usuários. Mas cito um caso que ocorria em uma de nossas unidades. A funcionária fazia uma espécie de “delivery”. Seus vizinhos ligavam e pediam para que ela levasse livros na volta para casa. Assim ela fazia. Eram cinco a seis livros por dia, ou seja, mais de 100 livros por mês só com essa iniciativa dela! O detalhe dessa história é que era uma comunidade carente, não tinha e não tem biblioteca, até hoje. Essas pessoas passaram a ler por causa do projeto, ou seja, pela facilidade de acesso ao livro. Este foi só um exemplo, entre tantos outros casos, que mostra que com criatividade e vontade, podemos, sim, aumentar o hábito da leitura no brasileiro.

Vai Lendo – Em sua opinião, qual é a importância da implementação desse tipo de projeto literário para a formação de novos leitores?

R.C.: Este e tantos outros projetos, existentes Brasil a fora, são muito importantes, diria fundamentais. Por ser um país tão grande e com tantas regiões tão distintas, cada uma tem suas próprias características, e a maioria dos projetos é criada e desenvolvida para atendê-las. Não adianta criar um modelo único de formação de novos leitores para o país sem entender e respeitar suas diferenças. Conheço um caso na cidade de Paty do Alferes, interior do Estado do Rio, que uma pessoa criativa criou uma biblioteca em uma charrete! Percorria os sítios da zona rural emprestando livros. Isso é criatividade. Respeito às características locais. Não adianta distribuir ali tablets com acesso à internet para que as pessoas baixem livros! Voltamos à já antiga discussão sobre se o livro digital substitui o livro impresso. A pergunta é: para quem? Falta ao poder público um olhar mais atento às novas propostas para a formação de novos leitores.

Vai Lendo – Existe algum critério na escolha das cidades participantes do projeto?

R.C.: Não. Toda cidade é bem-vinda. Uma das características do projeto é essa. A versatilidade e a facilidade de adaptação. Portanto, toda cidade, grande ou pequena, rica ou pobre, pode receber o projeto; o critério fica por conta do administrador público implantar ou não um projeto de incentivo à leitura e levar cultura à sua população.

Crianças e adolescentes são os principais usuários do projeto/Foto: Divulgação
Crianças e adolescentes são os principais usuários do projeto/Foto: Divulgação

Vai Lendo – Nós vimos que a maioria dos usuários do Livro no Ponto é composta por crianças. O projeto é especificamente voltado para esse público?

R.C.: Na verdade, nosso acervo é composto para atender a todo o público, sem distinção de faixa etária e classe socioeconômica. Percebemos, no entanto, um interesse muito grande por parte do público infantil e adolescente, este ainda maior. A cada unidade implantada, sempre procuramos atender a esta demanda, contudo, sem deixar de atender ao público mais adulto, é claro.

Vai Lendo – E como é o retorno, a reação deles a partir do momento em que uma unidade é instalada?

R.C.: O retorno é positivo em 100% dos casos e, em alguns, supera as expectativas. Cada unidade empresta, em média, 25 livros por dia. Parece pouco, mas não é. Tem que se considerar que são 500 empréstimos por mês em uma biblioteca que tem um acervo de 1.000 volumes. Considerando todas as unidades, são 3.000 empréstimos por mês. Todos em locais onde não existiam bibliotecas. Quanto à reação do público no momento da instalação é sempre de surpresa. O assédio é intenso e as reações são sempre positivas. Em algumas vezes, até de incredulidade. “É para emprestar mesmo? Não é pra vender? ”. Dá para ver no rosto das pessoas o encantamento pela novidade e pelo inusitado. É gratificante.

Vai Lendo – Quais são os planos do projeto para o futuro?

R.C.: É a expansão. Sempre foi. O Projeto Livro no Ponto foi criado para colocar o livro no caminho, na rotina do cidadão, a todo cidadão. É para isso que ele foi criado. Hoje, ele pertence ao leitor e, com certeza, muitos gostariam de tê-lo. Estampei na capa do nosso “livrão”, como é chamado por muitos, a seguinte frase do escritor Ziraldo: “Vamos fazer do Brasil um país de leitores”. Este passou a ser o nosso lema, na verdade, não são mais apenas planos, já foram um dia. Hoje, pessoalmente, encaro esses planos e objetivos como uma verdadeira missão. Para finalizar, gostaria de repetir a frase do Ziraldo, mas em forma de convite. Vamos fazer do Brasil um país de leitores?

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada "literariamente". Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de "A Bela e a Fera".

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