O Guia do Mochileiro das Galáxias: a formação de um nerd

Somos todos ridículos, mas tudo bem

Por Gerhard Brêda*

Versão britânica do livro 'O Guia do Mochileiro das Galáxias' / Foto: Maria Melo
Versão britânica do livro ‘O Guia do Mochileiro das Galáxias’ / Foto: Maria Melo

Douglas Adams surgiu em minha vida em um momento importante. Lá, em meados dos anos 2000, em idade formativa para um nerd de cidade pequena, aquela voz britânica, ácida e genial falou comigo, apontando aparentemente sem esforço os aspectos mais ridículos da sociedade humana, ali pelo final do século XX. Adams pintou tudo com cores de ficção científica, naves, alienígenas e tudo mais, mas ele nunca esteve interessado na ciência, na mecânica das coisas. Com “O Guia do Mochileiro das Galáxias” e suas sequências, “O Restaurante no Fim do Universo”, “A Vida, O Universo e Tudo Mais”, “Até Mais e Obrigado pelos Peixes” e “Praticamente Inofensiva”, Adams me ensinou a ver o mundo pelos detalhes, desconstruindo todo o tipo de comportamento, sem manter nada como sagrado. Tudo pode ser meio engraçado, se você parar para analisar de verdade, por outro ângulo.

Esse é um dos livros que leio de vez em quando, às vezes, nem completo a releitura. Li o primeiro mais vezes, ainda acho que é o melhor. A série se perde ali pelo terceiro, eu acho, mas acaba ganhando novamente rumo no quarto, que insere um ousado e charmoso romance na trama, e no quinto que, apesar de dividir a opinião dos fãs, fecha a história com impacto, melancolia e humor negro de uma forma magistral. Hoje em dia, tenho edições nacionais (dá para encontrar baratinho em qualquer loja) e uma em inglês, comprada pela minha namorada em um sebo em Camden Town, Londres, que compila os quatro primeiros livros em apenas uma edição gigantesca. Ainda não li essa, no original, que tem até uma aura de relíquia, mas, pelo menos, “O Guia” é biblioteca básica de quem gosta de comédia e ficção científica. Nem precisa ser nerd.

Se engana quem acha que “O Guia” é sobre, bom, o Guia do Mochileiro das Galáxias, um travel book virtual barato e abarrotado de informações questionáveis, citado diversas vezes durante os livros. Usando todo o tipo de pseudociência para justificar seu universo, Adams segura um gigantesco espelho para a humanidade e joga sal nas feridas. Zoa os burocratas, as corporações, os políticos. Faz aquilo que todo bom inglês sabe fazer, uma espécie de “esculhambação” elogiosa dos maneirismos britânicos. Nunca li um autor que define melhor o incômodo extremo que você sente ao lidar com sistemas e indivíduos que parecem especialmente determinados a atrasar sua vida.

A trama é alucinante: Arthur Dent, a definição de homem médio britânico, é um dos últimos sobreviventes da Terra, destruída pelos burocratas espaciais vogons para dar espaço a uma rodovia intergaláctica. Ao lado de Ford Prefect, um alienígena infiltrado na Terra para coletar informações; Trillian, outra humana que havia saído do planeta anos antes de sua destruição; Zaphod Beeblebrox, o Presidente da Galáxia, um Han Solo com toda a pompa, mas sem nada da competência; e Marvin, um robô depressivo; Dent explora a vastidão da galáxia a bordo da nave experimental “Coração de Ouro”, capaz de viajar utilizando um Gerador de Improbabilidade Infinita.

No meio desse agito, a trama respira, dando margem a alguns questionamentos interessantes sobre quem somos, para onde vamos e por que iríamos querer ir para lá. O humor sarcástico de Douglas Adams permeia toda a narrativa, que utiliza com maestria o absurdo, o nonsense e o fantástico para espetar alguma ideia muito verdadeira nessa Terra que ainda não explodiu. Ao dizer que os humanos são a terceira raça mais inteligente (atrás dos golfinhos e dos ratos), Adams já deixa claro que não somos tão importantes como achamos (um conceito que permeia a obra de muitos pensadores científicos do século XX, de Isaac Asimov a Carl Sagan), mas que isso não nos impede de simplesmente tentar levar uma vida boa sem incomodar terceiros. Esse, talvez, seja o grande legado de Adams, subvalorizado até por seus leitores, que se prendem mais em divertidos detalhes, como os mil e um usos de uma toalha ou a pergunta para a vida, o universo e tudo mais. Alguns autores canalizam as grandes ideias, as questões imortais. Machado de Assis, Saramago, Tolstoi, entre outros gênios gabaritados pela banca, todos parecem tratar de temas maiores que a vida, concentrados em narrativas definidoras de suas respectivas culturas e épocas. Douglas Adams foi menos idealizador, foi mais baixo. Pegou um tema raso, mas real, muito humano, moderno, contemporâneo de um século marcado pela massificação do consumo, mas a pluralização do indivíduo. É britânico, mas no mesmo sentido que os Beatles, ou o idioma que eles falam, vá lá, é universal. Douglas Adams grita, a plenos pulmões, mas mantendo o decoro britânico: “vai lá, faz aí o que você precisa, mas, por favor, se possível, não me encha o saco”. Fala com maestria, com genialidade. E eu não sei vocês, mas eu assino embaixo.

 

Gerhard Brêda

Jornalista, leitor da DC, um dinossauro analógico se fossilizando na era digital. Fora isso, praticamente inofensivo.

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