LER 2018: a voz importante e necessária dos Young Adults

O último dia da LER – Salão Carioca do Livro teve mesa debatendo representatividade, identificação e preconceito literário em torno da literária jovem adulto

“Alta” literatura. Literatura “intelectualizada”. “Baixa” literatura. Literatura de “entretenimento”. Quem já está cansado(a) de escutar esses termos ou não aguenta mais essas tentativas de rótulos e definições levanta a mão! Literatura é literatura, e pronto. Para todos os gostos e para todas as idades. E toda literatura importa. Importa para quem vai ler e se identificar. Importa para aqueles que se sentem representados. Importa para quem percebe, através de um livro, de uma frase, de uma página, que não está – e não precisa estar – sozinho(a). Importa porque um(a) leitor(a) não é definido por raça, credo, orientação sexual. E, acima de tudo, um(a) leitor(a) não precisa se restringir a um gênero literário. O(a) leitor(a) é livre para ler o que quiser. Foram essas ideias que nortearam o bate papo inspirador sobre literatura Young Adult neste domingo, último dia da LER – Salão Carioca do Livro, na Biblioteca Parque Estadual.

A mesa, mediada por Thaís Cavalcante, do canal Pronome Interrogativo, contou com a presença de três mulheres que, hoje, são referência no mercado editorial e principalmente na literatura Young Adult: a escritora Frini Georgakopoulos (Sou Fã! E agora?Editora Seguinte), Priscilla Sigwalt (uma das criadoras do clube de assinatura de livros Turista Literário) e Taissa Reis (agente literária e uma das sócias da Agência Página 7). Todas rechaçaram o que consideram uma categorização equivocada e segregadora, capaz, inclusive, de afastar as pessoas dos livros.

“Pior que dividir a literatura é dividir quem lê essa literatura”, atestou Frini. “Não tem que definir o leitor pelo que ele lê. Mais importante é que você tem que ter oferta para todo mundo. Todo livro ajuda em momentos diferentes para pessoas diferentes, e querer segmentar isso é fazer o oposto do que a literatura faz, que é agregar. Ser adolescente não é fácil. Às vezes, a gente esquece isso. E ler ajuda muito. O adolescente busca entender que ele não está sozinho. Você quer se destacar dentro daquele grupo. Quer pertencer. A literatura, ao mostrar que ele não está sozinho não apenas nos traumas, na parte difícil de lidar, mas também na parte bacana, de que você pode ajudar os amigos, ser quem você é, dá um alento. Porque, às vezes, o adulto esquece. E o adolescente esquece que os pais também não são só pais, mas adultos que cometem erros. Então, a literatura ajuda. Eu tenho ouvido falar ‘nossa, estão escrevendo tanto sobre gay’. Gente, essa frase está toda errada. Não é moda, é realidade.  Você não precisa ler sobre tudo, mas tudo tem que estar exposto para você escolher se quer ler ou não. Porque você pode não se sentir representado, mas outros, sim”.

Da esquerda para a direita: Thaís Cavalcante, Frini Georgakopoulos, Priscilla Sigwalt e Taissa Reis/ Foto: Vai Lendo

Taissa endossou a palavra de Frini e exaltou o caráter revolucionário da literatura Young Adult, no sentido de ter a liberdade para abordar os mais variados temas e as questões mais complexas e, mais do que isso, buscar entender as necessidades e os conflitos dos leitores.

“A questão da alta e baixa literatura supostamente indica que uma é intelectual e a outra comercial”, declarou. “Só que não existe isso para mim. Temos o John Green, por exemplo. O jeito como ele retrata transtornos mentais. Quem fala isso não tem contato com esse tipo de literatura. E isso também para a ficção científica, fantasia, autoajuda. É tudo literatura, é tudo importante. E, se não for importante para você, não é por isso que precisa falar mal, considerar inferior. Vivemos num país que tem tanta dificuldade para fazer as pessoas lerem. Queremos literatura para todo mundo. Isso que é importante nessa discussão. E não classificar, rotular essa literatura, porque isso é não querer que ela seja de acesso para todos. Por isso a importância dos Young Adults, hoje. É um dos espaços mais revolucionários da literatura. A gama de assuntos que podemos abordar justamente por esse desprezo, de ser tratado como menor, temos liberdade com questões que não estão sendo discutidas na chamada ‘alta literatura’. Há muita história para ser contada, e o YA está contando essas histórias.  Você nunca é uma coisa só. As pessoas são plurais e a literatura juvenil, YA, entende isso. Os autores se preocupam em ver isso, em não colocar as pessoas com uma etiqueta só”.

Para Priscilla, a literatura Young Adult não apenas oferece aos leitores novas perspectivas para suas vidas através da representatividade e da identificação, como também transcende o fator idade. Ela, inclusive, destacou como essas leituras podem ajudar a renovação o público leitor e aproximar as pessoas. Tanto que, apesar de já pensar em atualizar, em algum momento, o próprio formato do Turista Literário, ele sempre estará atrelado ao Young Adult.

“Esse movimento do Young Adult é muito importante”, afirmou. “Antes, as pessoas não tinham coragem de colocar as coisas para fora, de se assumirem. Olha a importância de elas começarem a ler um livro desses. Ela pode se identificar e mudar a sua vida. Quando se fala em jovem adulto, a gente já pensa na faixa etárea, mas o que acontece é que, dentre as pessoas que assinam o Turista Literário, tem muita gente acima dos 30 e 40 anos. Então, não quer dizer que você só pode ler essa literatura se for jovem. As pessoas acabam indicando também. Fazendo duas assinaturas. Uma para ela e outra para a filha e conversam sobre isso. Quanto ao mercado para nós, ele está em expansão, ele muda. Nós começamos o Turista com jovens adultos e continuamos assim porque são os livros que nós lemos e gostamos. O que pode acontecer é expandir. Imagina o Turista para uma criança. Vamos fazer isso em algum momento. E podemos fazer uma linha que seja de suspense e de terror. Podemos expandir, mas abandonar o jovem adulto é mto difícil”.

Foto: Vai Lendo

Elas também falaram sobre o momento em que o termo Young Adult surgiu para o mercado editorial. Apesar de, aqui no Brasil, como explicou Taissa, os selos específicos voltados para este público terem sido criados há, mais ou menos, 10 anos, essa já é uma tendência de décadas na indústria internacional, uma vez que o mercado percebeu que era preciso reconhecer este público e sua demanda, adequando os títulos nesta categoria. No entanto, Priscilla ainda ressaltou que falta um espaço específico para os Young Adults nas livrarias, que ainda são encontrados na parte infantojuvenil ou juvenil. Outro ponto destacado foi a fidelidade do leitor Young Adult, a sua maneira de se envolver não apenas com a história, mas com quem a escreve.

“O leitor de jovem adulto confia muito e se apoia muito em quem ele confia”, explicou Taissa. “Se ele gosta muito de um autor e esse autor lança o mesmo livro com três capas diferentes, ele vai juntar todo o seu dinheiro para comprar as três edições. O leitor de Young Adult é muito apaixonado. Vai mudando de geração e ficando mais apaixonado. O adolescente é muito passional. O que dá muito certo no YA é o fato de trazer tanto amor e dar a possibilidade de falar sobre tantas coisas por causa desse amor. É estar aberto a falar e conhecer coisas novas”.

Então, como acabar com todo esse preconceito em relação ao Young Adult, que chegou para revolucionar o mercado editorial e principalmente ajudar a formar uma nova geração de leitores?

“O principal é que as escolas passassem a adotar livros Young Adults”, reiterou Frini. “Com 15 anos, eu não me identifiquei com Senhora, mas, com 30, sim. Eu não me via nisso. Tem que ler os clássicos, sim. Tem que entender porque aquilo é incrível e atemporal, mas você também precisa se identificar. É preciso criar o hábito. E esse hábito a gente não faz só em casa ou só na escola, mas juntando os dois. As escolas têm que perder o preconceito literário e trazer aquilo com o que os jovens se identificam e discutir isso com eles”.

 

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada "literariamente". Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de "A Bela e a Fera".

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