O Fundo é Apenas o Começo, de Neal Shusterman | Resenha

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neal shusterman

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4
On 15/05/2018
Last modified:21/05/2018

Summary:

Denso, duro, real, humano.

‘O Fundo é Apenas o Começo’: uma viagem densa à mente humana

A mente humana permanece um mistério. Daqueles que todos tentam desvendar, mas praticamente ninguém consegue ter a real noção de como funciona. A nossa mente, por vezes, nos prega peças, é capaz de nos levar aos lugares mais sombrios e aterrorizantes do subconsciente. E cada um de nós lida com isso à sua maneira. Para alguns, é mais fácil. Para outros, um verdadeiro pesadelo. Neal Shusterman nos leva a uma viagem pesada e alucinante (literalmente) em O Fundo é Apenas o Começo, publicado pela editora Valentina.

No livro, conhecemos Caden Bosch, um jovem de 15 anos, aluno brilhante do ensino médio que começa a apresentar um comportamento estranho. Ao mesmo tempo, ele também está a bordo de um navio rumo a Challenger Deep, o ponto mais remoto da Terra, e fica responsável por documentar a viagem através de seus desenhos. Ele diz para os pais que entrou para a equipe de corrida da escola, mas, na verdade, fica apenas vagando, perdido em seus próprios pensamentos. Caden Bosch está perdido, dilacerado.

Essa pode até parecer uma sinopse um tanto quanto incomum ou, até mesmo, confusa. Mas não é nada disso. A sinopse está tão dividida quanto a mente de Caden. Quanto os leitores ficam ao acompanhá-lo nessa luta diária entre o que é ou não realidade. O Fundo é Apenas o Começo é um livro denso, às vezes pesado, duro e difícil de acompanhar. Mas não porque a história é ruim. Longe disso. Mas por sermos tragados para a mente de Caden através da escrita forte, fluida e objetiva de Neal. Com ele não tem rodeios. O autor faz questão de representar o turbilhão de sentimentos, ideias e alucinações que atormentam a vida de Caden.

Por isso mesmo, a leitura, em muitos momentos, foi difícil para mim. Só quem já passou por isso ou ainda passa sabe exatamente como Caden está se sentindo. Eu tenho problemas de ansiedade (nada no nível de Caden) e faço terapia. Em determinados pontos do livro, a descrição de Neal é tão real, tão vívida e visceral que foi impossível não me identificar e relembrar os momentos em que os fantasmas que assombram Caden também resolvem me visitar. É angústia, medo, pavor. Impotência.

Com O Fundo é Apenas o Começo, Neal cumpre um papel tão importante, tão necessário. Porque isso não é frescura. Isso não é proposital. Ninguém quer passar por isso. Ninguém quer ficar preso em sua própria mente ou deixá-la controlar a sua vida. O livro é extremamente humano. É vida real. Os conceitos de realidade e ficção se misturam e se complementam. É interessante – e incômodo – ver tudo isso a partir da mente de Caden. Navegar com ele e desbravar o navio juntamente com papagaios e marinheiros. Assim como é doloroso acompanhar o sofrimento de sua família, que tenta entender tudo e, ao mesmo tempo, não entende nada. É tenso, brutal e sensível. Praticamente uma terapia.

Denso, duro, real, humano.

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada "literariamente". Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de "A Bela e a Fera".

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