Dia Nacional do Livro Infantil: o legado de Monteiro Lobato

No Dia Nacional do Livro Infantil, conversamos com o editor-assistente da Globo Livros sobre as novas edições da obra de Lobato, que misturam o passado com o presente

Monteiro Lobato / Divulgação

Com o perdão do clichê, o dia é dele, mas o presente é todo nosso. Ou melhor, seu legado. Legado de alguém que marcou o seu nome nas páginas e no coração de gerações e revolucionou o mercado editorial, especialmente no que diz respeito à literatura infantojuvenil. É claro que estamos falando de Monteiro Lobato, criador da turma do Sítio do Picapau Amarelo, cujo aniversário foi escolhido para celebrarmos também O Dia Nacional do Livro Infantil.

Criador de histórias encantadas que trazem representações do folclore brasileiro, Lobato ajudou a formar milhares de leitores, implementando o que chamamos de leitura paradidática, com a qual ele transformava o hábito de ler também num aprendizado. Muito se deve à sua mente brilhante, criativa e empreendedora, que o transformou não apenas num escritor, mas num dos primeiros editores de livros.

“Como se não bastasse ser conhecido como criador de uma literatura infantil genuinamente brasileira, Lobato também modernizou a indústria editorial no país”, explicou Lucas De Sena Lima, editor-assistente da Globo Livros, que publica as obras do autor no Brasil, ao Vai Lendo. “Ele tratou o livro como um produto de apelo aos sentidos e criou um moderno sistema de distribuição. Portanto, é possível dizer que Lobato viabilizou as formas de comercialização que fazem dele, até hoje, um autor de sucesso, iniciativa à qual somos todos muito gratos, leitores e editores”.

Com a responsabilidade de publicar a obra de um nome tão importante para a literatura brasileira, é dura e desafiadora a tarefa de modernizar a obra de Lobato para as novas gerações. No entanto, através de seus selos Globinho e Biblioteca Azul, a Globo Livros apostou no passado para conquistar o presente – e não apenas os pequenos leitores. Cada qual à sua maneira, os selos apresentam propostas distintas para o trabalho do escritor, porém, mantendo aquela essência nostálgica e sentimental que remete aos personagens que tanto conhecemos e amamos. De um lado, a Biblioteca Azul trouxe as versões para colecionadores, voltando às origens de Lobato, trazendo sua primeiras ilustrações. Já a Globinho tenta interagir com seu novo público infantil, a partir de ilustrações mais contemporâneas. Para Lucas, as ilustrações na obra de Lobato possuem uma importância além da estética. Elas, de acordo com ele, têm uma certa simbologia, um caráter agregador.

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“Sabe-se que Monteiro Lobato considerava a ilustração parte fundamental da edição de um livro infantil, e seus artistas sempre foram escolhidos com muito rigor”, indicou. “Este cuidado também quisemos tomar na publicação de suas obras, sobretudo como uma forma de homenageá-lo. Curioso observar que ambas as edições, embora confeccionadas para seus públicos específicos, acabam atingindo toda sorte de leitores. Assim, as edições da Biblioteca Azul, feitas pensando no reencontro do leitor adulto com as ilustrações clássicas, acabam encantando as crianças de hoje. Da mesma forma, as novas ilustrações, mais próximas dos traços de animação digital, feitos por um dos grandes ilustradores brasileiros de hoje, surpreendem e encantam também os adultos”.

Por falar nas ilustrações, os traços da coleção publicada pelo selo Globinho, inclusive, dão um toque quase cinematográfico à obra de Lobato. O que, para Lucas, não chega a ser uma surpresa, uma vez que o próprio escritor já fazia inúmeras referências ao audiovisual – mais um ponto em sua personalidade visionária.

“É interessante ouvir que as ilustrações dão um tom cinematográfico porque, de fato, o ilustrador, premiado e reconhecido por sua produção na literatura infantil, ilustra também para curtas-metragens de animação”, afirmou. “Vários elementos do Sítio – o pó-de-pirlimpimpim, o faz-de-conta, o Reino das Águas Claras, a viagem ao céu – compõem um projeto fantasioso que poderia muito bem se transformar – por que não? – num desenho animado de sucesso. Escritor do início do século XX, ou seja, já contemporâneo do cinema, é certo que Lobato já pensava no recurso visual para escrever seus cenários. Em Memórias da Emília, vale citar, a turma vai a Hollywood e visita os estúdios da Paramount Pictures. As escolhas feitas num projeto editorial são, por vezes, acompanhadas de alguns receios e, para isso, precisam de boas doses de coragem. Neste sentido, Lobato, em sua época, foi muito corajoso e arrojado”.

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Lucas também comentou sobre o processo de curadoria para as novas edições da obra de Lobato, de forma que fosse possível aproximar o escritor da geração atual. Para isso, a Globo Livros trouxe outros grandes nomes do gênero que ajudaram a atualizar as narrativas.

“Nas nossas edições infantis, contamos com textos de apresentação feitos por escritores renomados da literatura feita para crianças”, ressaltou. “Esses textos comentam e atualizam a obra, introduzem a leitura do clássico e despertam o interesse do novo leitor. Assim, contamos com nomes consagrados como Ziraldo, Ruth Rocha e Pedro Bandeira, além de outros mais recentes (e já fundamentais para a literatura infantil), como Ilan Brenman, Claudio Fragata e Stella Maris Rezende. Nas edições da Biblioteca Azul, contamos com uma curadoria de ilustrações e uma cuidadosa confecção de pós-textuais que situam o leitor no panorama histórico daquela edição. Estas foram as formas que escolhemos para aproximar Lobato do leitor de hoje”.

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O editor também exaltou o trabalho de Lobato em prol do folclore brasileiro, destacando a sua influência na literatura infantil contemporânea.

“O folclore para Lobato era um grande tema, e estava presente em vários de seus livros”, concluiu. “Ao mesmo tempo que caçava sacis, as personagens do sítio iam à Grécia Antiga, ouviam histórias sobre fábulas europeias, participavam dos grandes clássicos literários… Isso quando ele não misturava vários elementos desses numa só trama. Na produção infantil nacional de hoje, percebe-se uma presença muito marcante de todos esses temas – inclusive o folclore – e isto certamente se deve à trilha aberta por Monteiro Lobato”.

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada "literariamente". Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de "A Bela e a Fera".

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