Coragem, de Rose McGowan | Resenha

Review of: Coragem
livro:
Rose McGowan

Reviewed by:
Rating:
4
On 10/04/2018
Last modified:10/04/2018

Summary:

Um livro forte, verdadeiro e com um propósito muito claro de inspirar mulheres a ter voz ativa, a denunciar.

‘Coragem: o mundo invertido de La La Land’

Eu fui uma típica garota dos anos 90 e 2000: sobrava esquisitice, discos do Nirvana (e do Molejo), jeans rasgados e uns filmes de terror para assistir.

Se você viveu em uma época parecida, é provável que Rose McGowan tenha feito parte da sua vida, assim como fez da minha.

Filmes como Pânico e Um crime entre Amigas ocupam lugares especiais em minha memória e ambos contam com a atriz em seu elenco. Sua vida foi inspiração para uma das minhas músicas preferidas do Marilyn Manson, chamada Coma White. “Uma pílula pra te tornar qualquer outra pessoa / Mas nenhuma droga nesse mundo/ Irá salvá-la dela mesma”, diz a letra.

Apenas isso bastaria para que o livro Coragem, escrito por Rose McGowan e lançado recentemente pela editora HarperCollins Brasil, chamasse a minha atenção.

Mas a obra vai muito além de meros momentos nostálgicos.

Apesar de ser seu livro de memórias, a obra transcende a própria trajetória da atriz.

Coragem é quase uma biografia não-autorizada de Hollywood, contada por quem viveu na pele anos de abusos cometidos por poderosos da indústria. E, acredite, mesmo que atualmente a gente tenha maior conhecimento da situação, com vários escândalos vindos a público, ainda assim o relato feito por Rose é aterrorizante, inassimilável e, infelizmente, corriqueiro no mundo em que ela vivia.

A estrutura do livro é essencial para a prevenção de análises rasteiras, tais como: por que Rose não apenas deixou Hollywood e foi seguir a sua vida? Porque Rose já cresceu em um ambiente problemático para caramba, uma seita para ser mais precisa (sim, você leu certo), e passou boa parte da vida sem poder contar com ninguém. Ela tinha um pai com problemas sérios de saúde mental, uma mãe frágil que arrumava namorados controladores e, ao tentar se livrar disso tudo, acabou indo para as ruas. Era isso ou morrer de fome.

Fugindo de seu próprio destino obscuro, acabou chegando na maior indústria do entretenimento global. O lugar que, em nosso entendimento, é feito de glamour, dinheiro e luzes por todas as partes é, na verdade, uma espécie de “Mundo Invertido” de La La Land.

Rose descreve com detalhes o momento em que foi estuprada por um poderoso produtor, Harvey Weinstein (a quem chama de “Monstro” no livro). Ela tinha feito seus primeiros filmes e foi chamada para uma reunião de trabalho; após meia hora, ele a obrigou a entrar em sua jacuzzi.

Aliás, essa é uma característica da escrita da atriz – seca, direta e brutal. Por isso, fica o alerta para pessoas verem nesse tipo de leitura alguma forma de gatilho.

Algo que me chamou muita atenção é a despersonalização progressiva que essas atrizes sofrem, que foi bem relatada no livro. Muitas vezes, Rose, que não tinha problema nenhum com uma determinada parte do seu corpo, começava a ficar obcecada se alguém comentasse qualquer defeito – e todos comentavam tudo o tempo todo.

Isso a fez recorrer a uma série de intervenções estéticas, dietas malucas e todo o tipo de maquiagem para esconder aquilo que ela de fato era e ser aquilo que os homens ao redor dela desejavam que ela fosse. Isso sem contar nas capas de revista nas quais ela não se reconhecia, depois de tantas camadas de retoques no photoshop.

Fiquei um bom tempo pensando sobre isso: nem essas mulheres, vendidas como padrão de beleza, estão no padrão de beleza. O que parece ser uma afirmação meio sem lógica mostra o quão doente é essa imposição estética.

Por isso, considero Coragem um livro forte, verdadeiro e com um propósito muito claro de inspirar mulheres a ter voz ativa, a denunciar. Infelizmente, sabemos que isso não é possível em todos os casos (e, tudo bem, existem várias formas de sermos corajosas, e tentar sobreviver é uma delas).

Apesar de todo o tema, é uma leitura muito fluida, que levanta vários questionamentos importantíssimos. Apenas achei o comecinho do livro um pouco cansativo, talvez, por uma culpabilização exagerada dos pais que, assim como ela, passaram por situações traumáticas em suas vidas. Mas nada disso faz com que a voz de Rose McGowan enfraqueça. Pelo contrário, com Coragem ela mostrou por que é, atualmente, um dos maiores nomes feministas contra abusos sexuais e machistas em Hollywood.

Um livro forte, verdadeiro e com um propósito muito claro de inspirar mulheres a ter voz ativa, a denunciar.

Carolina Santoian

Cresceu devorando os livros da Agatha Christie e esperando sua carta de Hogwarts. Sonha em tomar um café com a Patti Smith e dar um passeio no Maine com o Stephen King. É historiadora, roteirista, contista e contribui para o aumento da taxa demográfica de personagens.

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