ABERST: uma mudança de cenário para os gêneros policial, suspense e terror

Associação tem como principal objetivo formar rede de apoio para escritores dos gêneros, capacitação e reafirma a importância da literatura de nicho

Gêneros, até então, pouco reconhecidos. Grandes nomes da literatura nacional e outros tão promissores praticamente ignorados pelo mercado do próprio país, que prefere se garantir com obras estrangeiras. Mas isso está mudando. Atualmente, os romances policial, de suspense e de terror felizmente vislumbram novos cenários e passam a ocupar um espaço cada vez maior nas estantes, nas editoras e livrarias. Contudo, ainda há um longo caminho a ser percorrido para que essas obras possam se firmar e ganharem o destaque que merecem. Para isso, um grande passo foi dado recentemente com a criação da Associação Brasileira de Escritores de Romance Policial, Suspense e Terror (ABERST).

Fundada pela escritora Claudia Lemes, a ABERST quer unir e fortalecer esses escritores no cenário atual, bem como promover a interação entre os autores, profissionais do setor e leitores, divulgar obras e lançamentos e ainda realizar uma premiação anual dos gêneros. Para Claudia, o principal intuito da associação é ajudar a criar uma rede de apoio para escritores.

Claudia Lemes, fundadora  da ABERST e escritora / Reprodução Facebook

“Já sabemos que divulgação é fundamental para que um escritor consiga ser lido por grandes editoras e eventualmente escolhido para publicação”, declarou ela em entrevista ao Vai Lendo. “Como o investimento na publicação de um livro novo, por parte de uma editora, é alto, é natural que elas procurem o investimento mais seguro possível, ou seja, um escritor que vai dar retorno. Por isso, cada vez mais procuram escritores que já têm uma boa base de leitores, algumas obras publicadas e uma carreira que se mostra sólida e persistente. O maior desafio do escritor iniciante é conseguir que os leitores leiam seus livros, justamente para criar essa base de leitores. Uma das principais metas da ABERST é oferecer formas de fazer isso, sem custo. Como? Divulgando o autor nas nossas redes sociais e internamente, para que colegas conheçam seus trabalhos e os divulguem, assim como possibilitando que o autor possa enviar seus livros para nossos blogs parceiros (são 25, escolhidos entre mais de 70), para que sejam resenhados e que essas resenhas atinjam seu público alvo. Nossos autores também participam dos eventos organizados pela ABERST ou os que a ABERST apoia ou patrocina. Quando os escritores crescem, os gêneros que representam também crescem. Para outros profissionais do mercado, é a chance de se envolver em projetos literários, ser divulgado entre autores, participar de eventos, etc”.

Um dos Associados Honorários da ABERST, o editor Pedro Almeida, da Faro Editorial, destacou ainda o caráter capacitador da associação, que também irá oferecer cursos e ferramentas voltados à escrita, numa tentativa de quebrar o preconceito de leitores em relação à literatura nacional.

Pedro Almeida, editor da Faro Editorial / Reprodução Facebook

“Desde a década de 1960, por conta do regime militar, uma grande parcela dos intelectuais e da imprensa fechou um tipo de acordo tácito, de considerar importante apenas a literatura engajada, com viés político”, apontou Pedro ao Vai Lendo. Assim, livros não engajados politicamente, como boa parte dos romances de gênero, não eram publicados. Na melhor das hipóteses eles poderiam ser encontrados pelos trabalhos em quadrinhos e edições populares nas bancas de jornais. Quem entende do mercado editorial sabe que havia, até a década passada, uma distinção muito específica. Livros de banca eram os muito populares, voltados às massas menos letradas. Então, o preconceito era claro. Veja, grandes editoras poderiam apostar em livros de terror clássicos, como FrankensteinO Médico e o Monstro, ou até autores contemporâneos estrangeiros, como Clive Baker ou Anne Rice, mas não tinham em seu catálogo autores nacionais de romances de gênero. Mas não era culpa das editoras. Como divulgar, fazer chegar aos leitores livros que nenhum órgão de imprensa daria uma nota, faria uma entrevista ou matéria? E, se isso não acontecia, as livrarias também não apostavam nos nomes nacionais para expor em suas lojas. Esse cenário mudou com o advento dos blogs e redes sociais, que substituem os cadernos culturais de jornais e revistas com competência.  O motivo de não termos muitos autores estabelecidos está aí. Se não se publicava em formato de livro, não se incentivava a formação de autores e, assim, tivemos um atraso grande nesse processo, de formação de autores de livros de entretenimento. Os que temos foram construídos a partir da última década.  O único autor brasileiro que quebrou a barreira foi Paulo Coelho. E, mesmo desrespeitado no Brasil, levou a nossa bandeira. Tempos atrás eu assistia novamente a um programa de TV de entrevistas, realizado em 2006, em que grandes figuras da nossa literatura citaram o seu nome. E a conversa se deu em tom de galhofa, ridicularizando o autor mais famoso do país no exterior.  Aí, pensei: eram figuras que não percebiam que, num país de pouca leitura, o que eles estavam fazendo era um desserviço. Ridicularizar o autor mais lido era como ridicularizar as pessoas que liam aqueles autores. Pouca gente percebe disso”.

Falando com a propriedade de quem vive diariamente essa luta literária, o escritor Victor Bonini (Colega de Quarto e O Casamento, ambos da Faro Editorial), um dos autores associados da ARBEST, exaltou o prestígio e a afirmação que a associação impõe aos profissionais.

“A ABERST definitivamente firma a ficção policial, o suspense e o terror no Brasil”, ressaltou Bonini. “Mostra que eles existem, estão nutridos, crescendo e muito bem representados. Espelha, na verdade, algo que já se observa no mercado. Há quem diga que esses são os gêneros mais promissores para os próximos anos, a exemplo da fantasia na época de Harry Potter. Tenho certeza disso só de ver o espaço que os autores nacionais têm conquistado. E acredito que criar uma associação como a ABERST neste momento é, sim, um sinal de segurança e credibilidade. Mostra que esses autores não têm nada de amadorismo. Estão cientes das mudanças de mercado e a abraçam de forma profissional”.

Ainda sobre essa mudança de mercado, Bonini salientou que, há dez anos, muito provavelmente não haveria espaço para a associação. No entanto, o escritor indicou que esse é um processo lento, que segue em transformação, uma vez que há muito o que ser feito, inclusive, pelos próprios escritores.

Victor Bonini, autor de “Colega de Quarto” e “O Casamento” / Reprodução Facebook

“A associação veio para preencher uma lacuna no mercado editorial: mostrar que há autores que entendem o que está acontecendo, que sabem da demanda por literatura desses gêneros e amam o que fazem”, completou. “São como engenheiros capazes de construir essa casa. E a ABERST é o diploma da graduação desses engenheiros. Pelo caminhar da obra, acredito que, daqui a mais dez anos, a ABERST estará muito maior. Porque nunca se publicou tantos livros dessa área, e a tendência é se publicar ainda mais, facilitando o processo para muitos que ainda hoje têm dificuldade. Com uma casa dando sinais de que virará uma mansão, é natural esperar que ela irá comportar ainda mais gente”.

Claudia ratificou essa dificuldade dos autores e apontou as questões econômicas e educacionais do Brasil como duas das áreas mais problemáticas e responsáveis por esse cenário. Para ela, o alto custo de publicação de um livro no país e o modelo de distribuição nas livrarias (que ficam com 50% do valor de venda do livro, deixando 40% para as editoras e apenas 10%, para os autores) também influencia – e muito – no baixo índice de publicações nacionais, uma vez que, devido ao custo, as editoras tendem a ser bem mais seletivas e optar pelo que consideram um “retorno certo”. A partir daí, e de uma palestra, Claudia percebeu a necessidade de criação da ABERST, que também sofreu com a burocracia do país para sair do papel.

“O crédito não é só meu”, explicou. “Foi a Alessandra Ruiz, da Sextante, que falou sobre essa necessidade numa palestra que eu assisti. Ela falou sobre a importância da união e da profissionalização de escritores nacionais, e naquele momento tive um ‘click’ e pensei: ‘não vou ficar esperando alguém fazer isso. Eu mesma vou criar uma associação’. Em poucos dias, já tínhamos formado um grupo enorme de pessoas querendo participar. O resto fomos descobrindo juntos: a dificuldade em abrir uma associação no Brasil, por causa da burocracia, a necessidade de cobrar uma mensalidade, mesmo pequena (hoje é R$ 20), para pagar serviços de contabilidade etc. Mas vale a pena. Eu e o conselho da ABERST (formado por Tito Prates, Fábio Fernandes, Mário Bentes, Jhefferson Passos e Vitor Abdala) trabalhamos de forma voluntária e por muitas horas semanais para estruturar a ABERST. É o trabalho de registro de associados, gerenciamento das contribuições, desenvolvimento do site, gerenciamento do grupo interno, da fanpage, do Instagram, resolver problemas e tirar dúvidas de associados, documentação…É muita coisa mesmo. Mas temos certeza de que nossos associados já estão sentindo os benefícios”.

Bonini, por sua vez, atestou a declaração de Claudia e destacou a troca de experiência entre os profissionais como uma das maiores oportunidades oferecidas pela associação.

“São vários os benefícios, a começar pela união da categoria, o que faz todo o sentido”, concluiu. “Somos muito parecidos, afinal, e a troca de experiências nesse grupo é algo que só fará a produção nacional crescer. Abrir o diálogo com os iguais é sempre positivo. Especialmente neste momento, eu diria, em que já se observa esse crescimento do gênero terror/suspense/policial no mercado editorial. Se crescemos separados, poderemos crescer ainda mais juntos, com um autor divulgando o outro, indo a lançamentos, organizando prêmios e fazendo parcerias com blogs e críticos, entre outras atividades. Isso a curto e médio prazo. A longo prazo, acredito que podemos ganhar um nome de peso que nos identificará. Na Inglaterra dos anos 30, foi criado o Detection Club, uma associação só com nomes de peso do romance policial inglês daquela época (americanos foram incluídos depois). Foi um enorme sucesso, tanto pelo reconhecimento do grupo, quanto pelas obras em conjunto que foram escritas pelos membros. Foram experiências ricas e que deixaram um belo legado para o gênero”.

Reprodução Facebook ABERST

E, se hoje a ABERST existe e todos confirmam essa mudança de cenário, muito se deve também aos leitores dos gêneros. Esse movimento, aliás, fez o mercado editorial abrir os olhos para algo que, dentro da área, também era pouco reconhecido: a literatura de nicho. É esse público específico que está conseguindo mudar os paradigmas do mercado editorial.

“Um bom exemplo disso (do público de nicho) é a editora DarkSide, que começou pequena, fazendo obras para um nicho específico, e acabou sendo gigante”, reiterou Claudia. “Hoje, já é uma editora grande em seu alcance e distribuição e muito querida pelos leitores. A Faro Editorial e a Lendari, por exemplo, também estão investindo em suspense e terror. Horror e suspense (aqui incluo os diversos tipos de thrillers: de investigação, de conspiração, políticos etc) estão em alta e só vão crescer. O legal disso é que é possível ver editoras pequenas e médias investindo nesses gêneros. A literatura no Brasil, até um tempo atrás, era restrita para um grupo mais acadêmico e intelectualizado de leitor. Agora, o brasileiro abraçou a literatura de entretenimento, procurando distração, boas histórias e fortes emoções. Os gêneros representados pela ABERST oferecem literatura de entretenimento de qualidade e estão crescendo exponencialmente no nosso mercado. Uma das maiores vantagens, na minha opinião, de trabalhar com literatura de nicho é a fidelidade dos leitores, que seguem e apoiam seus escritores preferidos”.

Para Pedro Almeida, seguindo por esse lado, a ABERST vira referência também para grupos de autores de outros gêneros.

“A ABERST é apenas a primeira que surge; logo, surgirão outras”, completou. “E isto é necessário. No Brasil, gêneros que têm sua força mais no conteúdo do que na forma sofreram, até bem pouco tempo, da falta de espaço nas editoras e para divulgação nos veículos de imprensa. Então, o caminho é criar seus próprios meios de comunicação, de premiação e promoção. Serão os escritores e os leitores que mostrarão ao mercado e à imprensa a força dos romances de gêneros”.

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada "literariamente". Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de "A Bela e a Fera".

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.