Entrevista: Felipe Castilho

Primeiro autor de fantasia nacional da editora Intrínseca, Felipe Castilho fala sobre o livro ‘Ordem Vermelha: Filhos da Degradação’, lançado em parceria com a CCXP, e do novo cenário para o gênero no Brasil

A paixão pelos livros que veio desde cedo, literalmente, deu asas a uma imaginação fértil e despertou a criatividade e um talento único. Habilidades essas capazes de desenvolver novos mundos, criaturas e histórias surpreendentes e levar Felipe Castilho a um lugar muito especial na literatura de fantasia nacional. Com o recém-lançado Ordem Vermelha: Filhos da Degradação – cocriação de Rodrigo Bastos Didier e Victor Hugo Sousa -, o escritor paulista é o primeiro autor brasileiro do gênero a ser publicado pela editora Intrínseca com uma obra lançada em uma parceria inédita com a CCXP (Comic Con Experience), o maior evento de cutura pop do país.

Divulgação: Intrínseca

“É incrivel estar na casa de tantos livros que amo e ser tão bem cuidado por eles (Intrínseca)”, declarou Felipe em entrevista ao Vai Lendo. “Sinto que esse passo foi muito importante para o cenário. A Ordem Vermelha teve uma origem bem impressionante, já que começou a ser criada ainda antes de eu chegar ao projeto, com ilustrações e montagens do Rodrigo e do Victor. A partir do momento em que já estávamos todos entrosados, o universo começou a se expandir para todos os lados, de maneira bem rápida. Uma arte influenciava a aparência de um personagem, uma passagem do livro gerava uma ilustração e, assim, fomos avançando”.

Felipe definiu Ordem Vermelha como “um épico sobre resistir à opressão, sobre lutar contra o status quo e construir bravamente o próprio destino”. Para ele, não existe um limite definido entre ficção e realidade, mas ressaltou que prefere deixar a cargo do leitor fazer essa associação ou não. Como autor de fantasia, Felipe também ratificou a preocupação com os detalhes na hora de criar um novo universo, processo esse que envolve inúmeras pesquisas e muita imersão em sua própria trama e personagens.

“Para mim não há linha alguma (entre ficção e realidade), mas acredito que quem define isso é o leitor”, declarou. “Gosto de escrever na sombra da realidade, mas coloco isso em camadas na história. Aí, cabe à experiência do leitor para que ele tenha acesso às camadas, e gosto de acreditar que ele sairá da leitura no mínimo entretido. Criar um mundo novo é libertador e desafiador, e ainda acrescentaria assustador. Um trabalho desse envolve língua, estética, geologia, sistema monetário, e muitas dessas questões foram resolvidas em conversas que se tornaram marcos na nossa ‘bíblia de criação’ de Untherak. Lembro quando conversava com o Rodrigo sobre o visual dos anões e falava sobre o sistema de servidão da cidade. Ele comentou sobre execrar heróis e vilões com físico de halterofilista, pois personagens que trabalham 13 horas por dia não teriam tempo ou recursos para ‘malharem direitinho’. Pequenas grandes questões como essa enriquecem esse universo. Sem contar que isso nos leva a outras questões, como a liberdade de expressão em Untherak, que é tolhida pela governante. Como é a relação do membro dessa sociedade oprimida com o próprio corpo e o corpo do próximo? Tudo isso é pensado, mesmo que não seja o foco da história, pois um mundo criado tem que ter background, ele tem que ditar as regras da sua escrita”.

Divulgação: Intrínseca

Sucesso entre os leitores que visitaram a CCXP 2017 (realizada em dezembro) e fizeram longas filas para conseguir um autógrafo em seus exemplares, a Ordem Vermelha, ressaltou Felipe, representa uma nova fase da literatura fantástica nacional no mercado editorial brasileiro. Antes um gênero rejeitado pelas editoras, atualmente a fantasia vem aumentando e renovando o seu público.

“Creio que, se um dos eventos mais bem-sucedidos dos últimos tempos vê todo esse potencial numa fantasia produzida por brasileiros, as editoras podem passar a repensar o que havia se tornado um senso comum com o estilo: o pensamento de que fantasia não vende”, afirmou. “Temos autores incríveis dentro desse estilo e que muitas vezes são encorajados a escrever ‘outras coisas’, já que o mercado não sabe trabalhar com fantasia. Então, espero de coração que isso faça pessoas de cargos decisivos repensarem e que mantenha a chama acesa nos escritores – se tratados com toda a importância que é dispensada aos internacionais, o autor dedicado também pode chamar a devida atenção. Acho que, quando é bem feito, todo mundo ganha. De minha parte, tenho como desafio pessoal continuar fazendo a roda girar e não morrer engasgado com tantas ideias que ainda gostaria de ver prontas e continuar avançando dentro do estilo. Sinto que comecei bem lidando com o folclore brasileiro, mesmo sendo desencorajado por muitos, e espero continuar com essa linha de raciocínio ‘transgressora'”.

Por falar nessa mistura de folclore nacional e fantasia, Felipe – que também é autor da série O Legado Folclórico, na qual reúne o universo geek e os mitos brasileiros – apontou que ainda falta muito conhecimento por parte dos leitores do país, no que diz respeito às nossas próprias lendas, devido principalmente à falta de divulgação.

Divulgação: Intrínseca

“Talvez role o velho estigma de Monteiro Lobato, onde as pessoas pensam que o folclore se resume a uma aventura infantil completamente avessa às mitologias ‘ricas’ e assustadoras dos outros países”, indicou. “Se elas tivessem noção do tamanho das nossas lendas, pensariam duas vezes. Hoje, temos muitos escritores escrevendo com esse Brasil fantástico em mente, e acho que o que deve mudar é a divulgação e o espaço cedido para essas histórias. Se as pessoas dessem chance à própria história, às próprias origens, seriamos mais conectados e preparados para lidar com o próximo”.

Como um ávido leitor que descobriu os livros muito cedo, Felipe não esconde as suas referências e exaltou a capacidade da literatura atual, principalmente aquela voltada para os jovens, de falar mais abertamente sobre os mais variados temas e, acima de tudo, de se comunicar com o seu público, ajudando a fomentar o hábito da leitura e na formação de novos leitores.

“Cada um desses livros que li foi importante para a minha formação como escritor e como pessoa”, concluiu. “Se hoje sou uma pessoa sarcástica, devo muito ao Mário Prata e ao Terry Pratchett, e isso é algo que não fazemos de caso pensado. Cada livro lido deixa sementes, algumas vingam, outras não, e outras crescem sorrateiras com o que as alimentamos no dia a dia. Acho que a literatura de hoje que chega aos jovens já vem sem medo de dizer a que veio e isso ajuda a criança e o adolescente a descortinarem o mundo com mais esperança do que medo”.

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada "literariamente". Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de "A Bela e a Fera".

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