Entrevista: Julio Azevedo

Em entrevista ao Vai Lendo, criador da página ‘Moletom’ fala do seu livro de estreia e da importância da representatividade na literatura

A difícil realidade daqueles que são rejeitados por uma sociedade preconceituosa e conservadora, que cisma em ditar um certo padrão e, assim, excluir as chamadas minorias. O dia-a-dia até mesmo cruel e pesado de quem precisa ser aceito – e também, muitas vezes, se aceitar -, mesmo sendo igual a todo mundo. Em Moletom, livro de estreia de Julio Azevedo, publicado pela Globo Alt, o escritor, poeta e ilustrador de 18 anos e morador de Natal, no Rio Grande do Norte, traz uma trama importante e necessária, abordando a temática LGBT de maneira bastante verdadeira, dolorosa, porém, ao mesmo tempo lúdica e sensível.

Foto: página do autor/Arquivo pessoal

No livro, Julio nos apresenta a história de Pedro, um menino que resolve fugir de casa para se redescobrir e recomeçar. Com a coragem e o talento de quem usa a arte para se expressar, o escritor não se omitiu ao falar das dificuldades enfrentadas pela comunidade LGBT, tanto internamente quanto externamente. Para ele, Moletom não é apenas importante para ajudar os leitores a se identificarem e a lidarem com os seus dilemas e realidades, mas também o ajudou a lidar com a sua própria experiência e compartilhá-la.

“Eu considero esse livro como 50% autobiográfico, e acho que por isso ele fica mais real e fácil de as pessoas se identificarem com ambos os personagens”, explicou Julio em entrevista ao Vai Lendo. “Ver que esse objetivo está sendo alcançado com as mensagens que recebo através das redes sociais me deixa muito satisfeito, já que decidi retratar um lado mais pesado da vivência LGBT, que é a não aceitação que vem tanto de fora como de dentro. Acho que mostrar para as pessoas a ideia de ‘olha, eu também passei por isso!’ dá um conforto maior para essa parcela que ainda luta para entender seu lugar no mundo”.

Hoje, felizmente a literatura – especialmente a literatura voltada para os jovens – está mais aberta a um catálogo diversificado e preocupada com as questões da representatividade. Julio ressaltou a importância dos livros voltados para as minorias, no sentido de aprendizado, amadurecimento, conhecimento e aceitação.

“Acho que é uma troca de experiências, sabe? É muito gratificante e reconfortante a sensação de ver alguém passando por situações que remetem à sua realidade”, declarou. “É você pensar: “poxa, existe alguém em algum lugar do mundo passando por esse turbilhão de sentimentos, então talvez haja, sim, uma luz no fim disso tudo’. Então, a cada mensagem agradecendo por essa história e dizendo como essa pessoa se sentiu representada pela narrativa que eu contei, sinto que meu dever foi cumprido. Quando precisei desse apoio e companhia, senti que poucos livros/filmes falavam o que eu precisava ouvir no momento. Ter a chance de abordar esse tema é muito gratificante. A importância desses livros voltados para minorias e a existência desses personagens é bem maior do que muita gente imagina. Representar os dilemas de dois personagens gays no meu livro foi quase uma viagem de autoconhecimento, pois já passei por muitos momentos ‘pesados’ por ser gay e extrair aprendizados de cada um deles me fez amadurecer e abrir meus olhos para as outras pessoas que precisam de uma mão, assim como eu precisei. Espero muito que livros como o meu as ajudem nesse processo”.

Reprodução/Globo Alt

Misturando narrativa com poesia e ilustrações, Moletom mostra a sensibilidade e a criatividade de Julio, cujo trabalho começou a ser divulgado através das redes sociais. O livro, inclusive, foi uma novidade para ele também, que precisou adaptar a sua arte. Apesar do desafio durante o processo, o escritor exaltou a possibilidade de aprendizado e garantiu que, mesmo num formato um pouco mais diferente ao qual está acostumado, a essência das suas ideias e emoções foi mantida.

“Para ser sincero, após o crescimento da Moletom, planejava que meu primeiro livro seria uma coletânea de poemas e quadrinhos da página”, afirmou. “Então, quando recebi a proposta de escrever uma narrativa, tive que reorganizar todos os planos na minha cabeça, mas, mesmo assim, foi muito interessante explorar essa área e sair da minha zona de conforto, e acho que ficou bem nítida a fusão da história com os poemas e ilustrações da página. O processo de escrita foi bem nebuloso: meu primeiro protótipo do livro era fazer uma história em quadrinhos e, no meio disso tudo, tive que recomeçar e fazê-lo em forma escrita, pois estava sentindo que daquela forma a história não fluía e expressava tudo da forma como deveria ser. Mas acho que no resultado final consegui complementar e equilibrar as duas partes”.

Reprodução/Globo Alt

Embora Moletom aborde a temática LGBT, Julio destacou a importância de livros como o dele desmistificarem os tabus e inserirem as minorias com naturalidade à sociedade, como deveria ser, e atingirem todos os leitores. E, acima de tudo, estimularem o debate.

“Esses livros também são importantes para quebrar tabus na literatura, como no meu caso, o da homossexualidade”, concluiu. “É importante as pessoas verem que existem pessoas e personagens gays, lésbicas, trans etc. E que livros com esses personagens não precisam ser voltados apenas para o público LGBT. Afinal, um romance LGBT, por exemplo, tem uma história de amor entre duas pessoas, assim como num livro sobre um casal heterossexual. Antigamente, muitas pessoas deixavam de ler essas literaturas por preconceito, perdendo a chance de conhecer ótimas histórias. A presença cada vez maior de livros que fogem desse ‘padrão ‘ajuda na desconstrução e na inserção de minorias nas histórias. Quais as chances de um livro sobre personagens gays se tornar popular há anos atrás? Praticamente nenhuma. Já hoje em dia, quando vejo várias pessoas que não fazem parte da comunidade LGBT compartilhando minhas ilustrações, marcando namorados(as), comprando livros que abordam essas temáticas e se sentindo tocadas pelas histórias, vejo que, pouco a pouco, nossa voz está sendo ouvida e tratada com equidade. Desejo que isso motive cada vez mais jovens escritores a abordarem temas que devem ser discutidos”.

Para conhecer melhor o trabalho de Julio Azevedo acesse a página: https://www.facebook.com/moletomm/

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada "literariamente". Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de "A Bela e a Fera".

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