Tartarugas Até Lá Embaixo, de John Green | Resenha

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john green

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5
On 10/11/2017
Last modified:18/11/2017

Summary:

John Green nos presenteia com uma história pessoal, emocionante e libertadora

‘Tartarugas Até Lá Embaixo’: John Green em sua melhor forma

Como controlar aquilo que não tem controle? A nossa mente pode ser um refúgio, mas também uma prisão. Um lugar no qual nossos maiores medos podem virar os mais sombrios e assustadores pesadelos. Os transtornos mentais precisam ser levados a sérios. Precisam ser explorados e debatidos. Eles não podem mais simplesmente excluir e limitar as pessoas. Pelo contrário. É fundamental que quem sofre com isso saiba que não está sozinho. Que não precisa passar por isso sozinho. E que não será isso que vai ditar as regras da vida para sempre. Não mais. Felizmente, temos John Green para falar sobre esse assunto de uma maneira leve e muito, muito profunda e emocionante em Tartarugas Até Lá Embaixo, seu novo livro publicado pela editora Intrínseca, cuja resenha fecha a nossa participação na Semana Especial promovida pela editora.

Na obra, acompanhamos Aza Holmes, uma jovem de 16 anos que resolve entrar numa busca, junto com a sua melhor amiga, Daisy, por um bilionário desaparecido, pai de um amigo de infância. Tudo isso por uma boa recompensa em dinheiro. O problema é que, em meio à aventura, Aza precisa lidar com o próprio transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e os dilemas da juventude.

Tartarugas Até Lá Embaixo é John Green em sua melhor forma. Depois de seis anos sem um livro novo, o autor nos presenteia com um trabalho extremamente pessoal, delicado, sério e intenso. Falando com a propriedade de quem sofre desse distúrbio, Green novamente nos cativa com sua narrativa quase despretensiosa, porém forte e reflexiva. E nos traz personagens carismáticos e verdadeiros, daqueles dos quais desejamos ser amigos, dar um abraço e dizer que vai dar tudo certo.

A mente de Aza é simplesmente inacreditável. A maneira como ela entra em conflito consigo mesma e tenta enfrentar os fantasmas que a atormentam é tão real que incomoda. Sufoca. E nos joga naquela espiral afuniladora junto com a protagonista. Aza é apenas uma adolescente, e a gente não consegue parar de pensar ao longo da leitura em como é injusto que uma jovem, ou melhor, qualquer pessoa, tenha que passar por isso. É assustador para nós que estamos lendo. Imagina para quem passa por isso. Tive um episódio de pânico forte, uma vez. Meu corpo paralisou. Literalmente. É algo que eu não gosto nem de lembrar. Quem realmente entende o que significa sofrer de algum transtorno mental consegue se conectar facilmente com Aza. É preciso ter paciência, solidariedade e principalmente empatia. E Green soube representar isso muito bem com os demais personagens do livro.

Falando neles, temos Daisy, a melhor amiga. Daisy é a personagem mais humana da história. Tanto de maneira positiva quanto negativa. Porque não é fácil para quem sofre disso, mas também não é nada fácil para quem está do lado, convive. Se a própria pessoa não consegue entender o que se passa direito em sua mente, imagine quem está de fora. É muito interessante e importante que Green tenha apresentado essa perspectiva também. Daisy e Aza são fundamentais para o amadurecimento uma da outra, e é muito bonito acompanhar o fortalecimento dessa amizade e o respeito que ambas aprendem a ter uma pela outra, por suas falhas e inseguras.

Quanto a Davis, confesso que achei a história do pai bilionário sumido um pouco superficial, principalmente o seu desfecho, mas nada que tenha incomodado ou prejudicado a leitura. De forma alguma. Porque essa trama paralela serviu para Green abordar outros aspectos da realidade de muitos jovens que também afetam – às vezes, de maneira permanente – o seu psicológico. São outros problemas, outras realidades. E Davis é muito importante ainda para Aza se redescobrir e aprender a ter força de vontade para lutar. Para tentar resistir. É linda a maneira como eles vão se abrindo um para o outro, para si mesmos. E como um ajuda o outro a ver que há mais na vida.

Gostei muito também da dinâmica entre Aza, sua mãe e a psicóloga. Tudo muito real, muito verdadeiro. A superproteção da mãe que, mesmo com todo o cuidado, carinho e atenção, não percebe que precisa dar o espaço e a chance de Aza lutar as próprias batalhas. E a racionalidade e serenidade da psicóloga que ajuda Aza a assumir aquilo que mais lhe aterroriza.

A forma como Green “traduz” os conflitos da mente de Aza é quase visceral. Esse livro me tocou profundamente. Me tocou pela angústia de Aza de querer sair da prisão de sua própria mente. Me tocou por saber o quão também não deve ter sido – e ainda deve ser – difícil para o próprio Green. Cada um de nós, algum dia, já teve que lidar com a sua própria prisão. Alguns – muitos – ainda precisam enfrentar isso diariamente. Não é fácil. É muito, muito assustador mesmo. Desesperador. Mas pessoas como Green, como Aza, nos ajudam a entender melhor, a buscar ajudar, a ter forças. Obrigada por compartilhar, Green. Obrigada por falar. Obrigada por libertar.

John Green nos presenteia com uma história pessoal, emocionante e libertadora

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada “literariamente”. Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de “A Bela e a Fera”.

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