As Altas Montanhas de Portugal, de Yann Martel | Resenha

‘As Altas Montanhas de Portugal’: muita sensibilidade e delicadeza

“Três jornadas, três corações partidos e uma pergunta: o que é uma vida sem histórias?”. Antes de iniciar a leitura, me deparei com esta frase na contracapa do novo livro do renomado autor Yann Martel (As Aventuras de Pi), As Altas Montanhas de Portugal, publicado pela editora Tordesilhas. Imediatamente, comecei a pensar sobre a pergunta. Esta reflexão me levou a questionar sobre as minhas próprias escolhas e como elas moldaram a minha trajetória. Todo este questionamento já me preparou emocionalmente para a obra. Com um sentimento de melancolia misturado com um pouco de esperança, eu comecei a ler as páginas escritas por Martel que retratam a vida de três personagens distintos conectados pela dor do luto, buscando um sentido para a vida.

A obra é dividida em três partes. A primeira, intitulada “Sem casa”, discorre sobre a história de Tomás após a perda de sua esposa, filho e pai em Lisboa, em 1904. A segunda parte, chamada de “Para casa”, se passa na cidade de Bragança, também em Portugal, na passagem do ano de 1938 para 1939, e acompanha o plantão do médico patologista Eusébio Lozora e sua conversa com a esposa Maria e, mais tarde, com outra mulher também chamada Maria. A terceira e última parte, “Em casa”, situada na década de 80, retrata a jornada do senador canadense Peter Tovy com seu chimpanzé Odo na aldeia portuguesa onde Tovy nasceu.

No início, foi complicado pegar o livro para ler, acredito que principalmente devido ao tema, mas a leitura é tão gostosa que você nem sente o tempo passar e as páginas avançarem. Ainda assim, não achei a narrativa tão empolgante. O que dificultou, para mim, foi o fato de o livro não possuir capítulos. Ele é dividido somente nas três partes mencionadas acima. Então, era complicado escolher um ponto para pausar a leitura.

Acredito, entretanto, que Martel tratou a questão da perda com a sensibilidade necessária, mas fugindo dos clichês e dramas exagerados. No final, eu me surpreendi positivamente com a obra. A vida é uma eterna busca por um sentido, uma razão. Por que estamos aqui? Às vezes, achamos este motivo, às vezes, não. Quando perdemos um ente querido, nós nos esquecemos desse sentido da vida. Alguns até conseguem achá-lo novamente.

Se eu tivesse que escolher uma palavra para descrever As Altas Montanhas de Portugal seria delicadeza. O texto descomplicado e despretensioso de Martel flui com uma delicadeza notável para discorrer sobre um assunto pesado, a perda. A maioria de nós sabe o que é perder uma pessoa que amamos. Não é fácil e todos temos uma forma diferente de lidar com isto e processar o luto.

Renata Bacellar

Cineasta, publicitária, marketeira que sonha em passar seus dias escrevendo! Apaixonada por storytelling, seu mundo, coração e alma estão repletos pela magia dos livros, filmes e músicas…

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