Entrevista: Sofia Silva

A escritora portuguesa falou da importância de se debater a violência doméstica, do carinho dos brasileiros e da surpresa de ser publicada primeiro no Brasil, antes de Portugal

Violência doméstica. Duas palavras tão fortes. Um assunto extremamente delicado e polêmico que precisa ser debatido, apesar de todas as incertezas, inseguranças, receios e principalmente de todo o preconceito. E intolerância. Ainda hoje, não sabemos como agir, o que falar e/ou fazer. Geralmente, culpa-se a vítima. Na maioria dos casos, as mulheres. Quebra-se todo o encanto do casamento. Tem início o pesadelo. Mas a literatura pode e deve ajudar. Os livros são alguns dos principais meios de se levantar os debates e fazer com que as pessoas comecem a refletir, a pensar, a questionar. A portuguesa Sofia Silva usou de sua narrativa poética para falar sobre este assunto em Sorriso Quebrados, sucesso no Wattpad que arrebatou o coração dos leitores brasileiros, fazendo com que a autora fosse publicada aqui, pela editora Valentina, antes mesmo de ter a chance de lançar o seu livro em formato físico no seu país de origem.

“É surreal porque eu fiz o caminho inverso”, afirmou Sofia em entrevista exclusiva ao Vai Lendo na Bienal do Livro Rio 2017. “Só depois de publicar aqui no Brasil é que eu vou publicar em Portugal. Fechei contrato com a Presença, que é uma das melhores editoras de Portugal. Não consigo mensurar essa situação porque a ficha ainda não caiu direito. É muito estranho, mas, por outro lado, é muito bom porque eu venho do Wattpad, que ainda sofre muito preconceito, principalmente aqui, no Brasil. Então, para mim, são duas conquistas. Primeiro, a conquista por eu ter vindo do Wattpad. Foi a valorização de um escritor do Wattpad e, depois, da autopublicação, que é um risco. Quando publicamos algo na Amazon, pode ter sucesso, mas pode não ter. E saber que minhas leitoras que me acompanham no Watppad que compraram o livro e me fizeram estar no top de vendas foi maravilhoso. Se eu tivesse que tirar uma ideia geral é que o leitor brasileiro é fiel ao autor. Meu leitor é fiel desde 2014. Me segue e não me abandonou. E acho que isso é fundamental”.

Além de trazer o assunto sobre a violência doméstica à tona de uma maneira quase lúdica, Sofia teve a preocupação de abordar um outro ponto de vista da situação: o que acontece após a agressão. A autora explicou que seu principal objetivo, além de trazer a questão de uma maneira mais leve, na medida do possível, era principalmente fazer com que as pessoas pensassem nas consequências de tudo isso.

“Eu  não queria que o leitor lesse uma historia pesada”, indicou. “A poesia foi toda com esse objetivo de trazer uma leveza, uma sensibilidade, mas a poesia também pode ser cruel. Algumas cenas no livro são escritas de forma poética, mas elas são cruéis. Eu narro de forma poética, mas, em alguns momentos, é muito triste. Mas eu acho que, se eu escrevesse de outra forma mais cruel, o livro seria cruel ao extremo e o tema já é pesado. Eu não quis falar sobre a violência doméstica propriamente dita, apesar de ser o tema do livro, mas falar das consequências, de como fica a marca, como as pessoas têm dificuldade de seguir em frente. Todos nós sabemos, já ouvimos casos de violência doméstica infelizmente, mas poucos imaginam, se preocupam com o que vai acontecer com aquela mulher, aquela pessoa depois. Ninguém quer saber. As  notícias não abordam isso. Nunca vemos noticias sobre o depois, não interessa. Então, eu quis mostrar esse lado. Acho que ajudou muitas pessoas a olharem para as amigas, para as mães que passaram por isso. Uma leitora disse que o livro a ajudou a não julgar tanto a mãe, porque ela havia julgado antes. Mas disse que, agora, consegue entender a mãe e que sabe que a culpa não foi dela. O livro ajudou ela a ter uma visão diferente sobre isso”.

Para Sofia, hoje, as pessoas já conseguem ter uma percepção um pouco diferente do que acontece e de quem, de fato, é a vítima. Mas a autora também ressaltou que ainda falta muito para que essa isso seja, de fato, absorvido pela sociedade. Principalmente para evitar que as mulheres agredidas sintam-se culpadas, responsáveis pelas agressões que sofreram, uma vez que geralmente as pessoas tendem a julgá-las não apenas pelo o que aconteceu, mas também pelas decisões que acabam tomando posteriormente, ainda sob pressão e medo.

“Hoje em dia, nós protegemos a mulher que sofreu isso e culpamos o homem, mas, há 10 anos, culpávamos a  mulher e protegíamos o homem”, apontou. “Então, hoje, estamos mais atentos a isso. Quando escrevi o livro, pensei que precisava saber o que acontece não na hora da violência doméstica, mas depois. Tenho uma amiga que trabalha numa instituição de ajuda a vítimas, e eu perguntei quais são os sintomas pós-violência. Como elas viviam. E ela disse que a maioria se responsabilizada e acabava por voltar para o cara, porque achava que a culpa era dela. É um ciclo vicioso. E eu não queria isso. Queria alguém que se libertou mesmo, mas, mesmo assim, ainda vive com essa culpa para mostrar que a sociedade também tem culpa. Que responsabiliza a vítima e fica julgando. Queria que as pessoas lessem e parassem de julgar. Muitas dessas mulheres seguem nessa situação pelos filhos e sabemos que uma mãe faz qualquer coisa pelos filhos. Não podemos julgar. É um tema muito complexo. Esse foi só um exemplo, mas infelizmente temos milhares de outros exemplos no mundo”.

Sofia, que fez a tão sonhada transição de muitos escritores independentes para uma editora, exaltou a oportunidade que o Wattpad oferece aos novos autores e reiterou que a plataforma tem ajudado também a mudar o cenário do mercado editorial, apesar de, em Portugal, o livro digital ainda não ter a menor chance contra os livros físicos.

“Não existe preconceito em Portugal com o Wattpad porque não existe o conhecimento”, declarou. “Nós somos leitores muito tradicionais. É muito livro físico. O ebook tem pouca saída. O Wattpad é mais conhecido entre os jovens, por causa das fanfics, que ainda fazem muito sucesso. Mas não entre a minha faixa etárea. Poucas pessoas da minha idade leem pelo Wattpad em Portugal, mas eu acho uma plataforma excelente. Tem os seus defeitos, como qualquer plataforma, porque, a partir do momento em que qualquer pessoa pode publicar, você vai ter coisas boas e ruins. É o leitor que faz essa fiscalização. Mas oferece uma variedade grande, e as editoras perceberam o que os leitores gostam. Elas estão mais atentas. Os autores também estão mais atentos, então, é uma plataforma que ajuda autores, editoras leitores. Elas já sabem o que vai render no Wattpad e, no fim do dia, o dinheiro conta. O Wattpad ajuda muito o autor a ser conhecido, mas também ajuda a editora a saber que vai publicar algo que terá lucro”.

E, por falar nessa transição, a autora não poderia estar mais satisfeita pela parceria com a editora Valentina. Para ela, poder olhar e segurar o seu próprio livro que, até então, só existia através dos cliques e downloads, é o reconhecimento e a valorização de todo o trabalho.

“É um tratamento diferente com a editora”, disse. “A gente sempre esteve em contato durante a produção do livro. Eles tiveram muito cuidado, me perguntavam se estava bom, o que eu gostava, o que eu não gostava. A Valentina tem um tratamento diferente comigo e sei que muitos autores não têm essa sorte. Ainda mais por eu estar longe. Mas, ainda assim, tivemos muito contato. É uma delícia pegar o livro físico, sentir as folhas, a capa. Mas, ao mesmo tempo, é saber que o trabalho valeu a pena, porque é um orgulho, não vou mentir. É saber que aquelas horas de estudo sobre o tema valeram a pena. Quando a gente pega o livro, é fantástico”.

Se Sofia está encantada com o Brasil e com os leitores daqui, a recíproca é mais do que verdadeira. Depois de lotarem o bate papo com a autora na Bienal, a portuguesa não poderia sair do país com uma impressão melhor. Para ela, a recepção dos brasileiros foi uma verdadeira prova de amor.

“Eu estou fascinada (com o carinho dos leitores)”, concluiu. “Nunca fui tão abraçada como aqui. É muito abraço, choro, beijo. Nós portugueses também gostamos muito de tocar, de abraçar, mas brasileiro ganha disparado. Eu acho que o leitor brasileiro é o mais amigo do autor. Ele não abraca e não beija se não gostar. Isso é prova de amor. Não há prova de amor maior do que o abraço e o beijo”.

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada “literariamente”. Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de “A Bela e a Fera”.

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