Entrevista: Will Conrad

Ilustrador mineiro de alguns dos principais personagens da Marvel e da DC Comics fala sobre os desafios do início da carreira nos Estados Unidos, a emoção de trabalhar com Stan Lee e do novo cenário para os quadrinhos no mercado nacional

Traços precisos e um talento de super-herói. Habilidades especiais para trazer alguns dos principais personagens dos maiores estúdios do mundo, como Marvel e DC Comics, para as páginas e ganhar destaque no concorrido mercado de quadrinhos norte-americano. E o melhor de tudo? Sendo brasileiro. O Vai Lendo teve a honra e o prazer de entrevistar o quadrinista Vilmar Conrado, mais conhecido como Will Conrad, durante a Bienal do Livro Rio 2017.

Responsável por emprestar seus traços a Buffy, A Caça Vampiros, Wolverine, Homem-Aranha, Batman, Capitão América, Guardiões da Galáxia e Os Vingadores, o trabalho de Will pode ser visto aqui no Brasil através da editora Novo Século, que comprou os direitos autorais da Marvel. Apesar de, hoje, ser um nome mundialmente conhecido no mercado internacional de quadrinhos e de já ter trabalhado com ninguém menos do que o próprio Stan Lee, Will ressaltou que o início da carreira foi complicado, principalmente por já ter que começar fazendo o mais difícil, uma vez que não havia ainda um mercado de quadrinhos no Brasil: buscar uma oportunidade em outro país.

“Eu e o pessoal daquela geração tivemos que migrar para os EUA porque praticamente não tinha mercado aqui”, explicou Will em entrevista exclusiva ao Vai Lendo. “Principalmente o mercado que nós gostávamos de desenhar, que era o de super-herói. Então, acabamos tendo que sair do país para sermos conhecidos lá fora para, depois, sermos reconhecidos aqui dentro. Hoje, o mercado melhorou muito aqui por vários motivos. Primeiro, pela própria internet que ajudou muito no sentido de divulgar os artistas brasileiros que estão fazendo sucesso fora porque você tem acesso a revistas e publicações e aos autores no exterior. E temos também, por exemplo, os crowdfunding, sites que estão ajudando muito o pessoal que quer publicar aqui. Porque, ainda hoje, é difícil você publicar através de editoras, no Brasil. Então, muita gente está buscando a publicação independente. Temos também vários eventos surgindo em vários lugares do país. Eventos grandes, a nível internacional, como a CCXP. E tem todos esses filmes que estão sendo lançados baseados em quadrinhos. De certa forma, eles ajudam a divulgar e a difundir essa cultura geek, de quadrinhos, e a gerar interesse num pessoal que normalmente não tinha muito acesso ou interesse em quadrinhos. Ainda há um caminho muito longo a se percorrer no mercado nacional para que se chegue, pelo menos, próximo ao que você tem na Europa, nos EUA ou Japão. Mas eu acho que a passos lentos a coisa está andando”.

Will ainda rechaçou o preconceito em relação à cultura geek e destacou a importância dos quadrinhos também para a indústria cinematográfica.

“Eu acho que essa comunidade geek sempre foi muito subterrânea, de certa forma”, explicou. “Nunca quis muito aparecer. Aí, começaram a perceber que muita gente fazia parte dessa cultura, mais do que se imaginava. E, se você pegar quem são os geeks de hoje, vai ver que são os caras bem-sucedidos de amanhã, de alguma maneira. São os caras que gostam de tecnologia, que são ligados em leitura, em inovações, que são o motor do futuro. Então, eu acho que meio que eles começaram a aparecer, se revelar. E a cultura geek deixou de ser uma coisa que as pessoas tinham um certo preconceito e passou a ser uma coisa chique, a ser cult. Hoje, ser geek é ser cult, está na moda. O fato de ter tido essa explosão do movimento geek no mundo inteiro ajudou muito porque, antes, isso era considerado coisa de pessoas ‘estranhas’. Agora, passaram a ver isso como algo interessante e que esse preconceito que existia é meio infundado. Isso é bom porque você tem uma abertura tanto na área dos quadrinhos quanto na área de literatura geek, quanto na área de videogame e tecnologia. É bom pra gente. Antigamente, se fazia muito a comparação entre quadrinhos e cinema. Mas as pessoas diziam que o cinema é que era legal de fazer e os quadrinhos ficavam à margem. Se você olhar para o mercado cinematográfico hoje, quais são os filmes que estão praticamente sustentando a indústria? São os filmes de super-heróis. Aliás, não só os de super-heróis, mas os filmes ligados aos quadrinhos. Porque tem filmes que não são de super-heróis, as pessoas, às vezes, nem sabem, mas são baseados em histórias em quadrinhos”.

Assim como no mercado editorial nacional, Will também apontou a autopublicação no mercado de quadrinhos como uma alternativa de os grandes estúdios descobrirem novos talentos.

“As pessoas começaram a notar que, nos EUA, os quadrinhos estão servindo de laboratório”, afirmou. “Porque, quando você pega um grande estúdio, eles ficam de olho nas publicações que são lançadas lá fora, principalmente as independentes. Porque elas servem de laboratório para o cara ver se aquilo ali vai ter um público. Às vezes, eles compram um roteiro que já tem um público ali, já vendeu, fez um sucesso dentro de um determinado nicho. A publicação deles já serviu de laboratório, de campo, para saber se a coisa vai ter uma aceitação ou não. Já temos muitas obras independentes nessa área, inclusive, não só impressas. Tem as webcomics por aí, que algumas editoras compram os direitos. Às vezes, eles nem usam, nem chegam a fazer o filme, mas compram o direito e começam a fazer o estudo para saber se é viável. Eles já tentam garantir a possibilidade de fazer, de ter a preferência para fazer o filme”.

Mineiro, Will seguiu à risca uma das maiores características de seus conterrâneos e foi, com muita calma e determinação, “comendo pelas beiradas”, como ele mesmo definiu, garantindo o seu lugar. Mas não sem antes enfrentar os obstáculos não apenas da língua e de outra cultura, mas principalmente o preconceito por ser estrangeiro.

“Foi uma batalha (o começo)”, contou. “Eu descobri que havia uma agência em São Paulo que representava alguns artistas para fora. Eu trabalhava com ilustração na minha cidade, em Belo Horizonte. Fazia ilustração para publicidade, para jornal, mas eu sempre quis fazer quadrinhos. Eu comecei a mandar amostras, mas as primeiras amostras foram rejeitadas porque era um trabalho muito voltado para ilustração e eu fui adaptando o trabalho dentro dos artistas que eu admirava na época, e ainda admiro, de forma a adequar o meu trabalho para o mercado norte-americano. Ele exigia um nível de profissionalismo, um estilo que era bem típico do mercado. E tinha um outro problema também que era o preconceito com artistas sul-americanos por conta de algumas coisas que aconteceram lá com artistas que tinham se queimado e consequentemente queimaram o filme para artistas que não eram norte-americanos. O meu nome, Vilmar Conrado, por exemplo, eles adaptaram para que não houvesse esse preconceito. E acabou ficando. Não foi muito fácil, foi um caminho meio longo. O primeiro trabalho que eu consegui nem foi como desenhista foi como arte-finalista, mas a gente foi construindo aos poucos. Como bom mineiro, fui comendo pelas beiradas (risos)”.

Por falar no seu processo de trabalho, Will destacou também as principais diferenças entre ser arte-finalista e desenhista, reiterando que ambas as funções demandam bastante responsabilidade e proporcionam prazeres distintos na carreira.

“São desafios diferentes”, reiterou. “Como arte-finalista, a primeira coisa é que o seu estilo de arte-final tem que casar com o estilo do desenhista. Eu gosto de finalizar com pincel, por exemplo, e a responsabilidade é no sentido de manter a identidade do desenho do outro profissional. Ao mesmo tempo você também vai imprimir a sua própria identidade, o seu próprio traço, mas tem que tomar cuidado para não mudar as características do traço do desenhista. No fim das contas, quando a gente pega a revista e abre, o traço que a gente vê não é do desenhista, é do arte-finalista. É uma responsabilidade muito grande. Como desenhista, dá mais trabalho porque tenho que pensar em perspectiva, expressão corporal, facial, construção, luz e sombra, pensar na narrativa visual… A parte da tradução do texto para o quadro a quadro é toda feita pelo desenhista. Isso dá um trabalho danado. Como arte-finalista eu tenho que pensar em coisas tipo pesos de linha, nuances, textura. É uma série de elementos de narrativa visual que complicam o processo. São desafios diferentes. Dá um pouco mais de trabalho ser desenhista, apesar de que, para ser arte-finalista, tem que ter o domínio total das ferramentas. Mas são grandes prazeres diferentes também. No meu caso, eu faço a minha própria arte-final. Eu pego o melhor e o pior dos dois mundos”.

Tendo começado na Dark Horse e passado também pela Marvel, Will trabalha atualmente na DC Comics. Realizando o sonho de praticamente boa parte dos brasileiros que aspira uma chance de estar por perto de alguns dos maiores quadrinistas do mundo, ele falou ainda da emoção de ter sido escolhido pelo próprio Stan Lee e de receber o carinho do público em seu país.

“A maior emoção que eu tive foi o meu primeiro trabalho publicado, que foi pela Dark Horse”, concluiu. Quando você começa a trabalhar com as editoras maiores, a responsabilidade aumenta, mas a satisfação também. Trabalhar com o Stan foi um negócio absurdo. Eu não esperava. Ele me escolheu para fazer a história de um personagem novo que seria escolhido num reality show que ele criou. Eu não esperava isso. Foi muito legal porque ele ligou lá para casa, nós batemos o maior papo, conversamos várias vezes. Ele é muito atencioso e tem um coração gigantesco. Agora participar aqui da Bienal é muito bacana porque você chega lá fora e o pessoal conhece e curte o seu trabalho. E agora isso está começando aqui. Espero que aumente não só para mim, mas para outros artistas, roteiristas. Não só de quadrinhos, mas da literatura, no geral. Eu fico muito feliz quando vejo a quantidade de pessoas que tem ali para entrar no evento, crianças principalmente porque é a renovação. Já aconteceu de eu estar desenhando em alguns eventos e a criança pedir para eu ensinar. Aí, a mãe me mandou a foto agradecendo e dizendo que o filho não parava de desenhar. Porque são sementinhas pequeninhas que a gente vai plantando ali bem singelamente e acaba dando frutos. Isso é muito legal”.

 

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada “literariamente”. Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de “A Bela e a Fera”.

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