Affonso Solano, Eduardo Spohr e André Vianco criam um mundo fantástico na Bienal do Livro Rio 2017

Autores referências da literatura fantástica nacional, eles falaram sobre inspiração, construção de narrativas fantásticas e a relação com os leitores

Auditório lotado, completamente lotado. Tanto que algumas pessoas tiveram que ficar em pé. Mas nada que desanimasse os seguidores da trindade suprema da literatura fantástica nacional: Eduardo Spohr (A Batalha do Apocalipse, Filhos do Éden – editora Verus), Affonso Solano (O Espadachim de Carvão, editora LeYa) e André Vianco (Os Sete, Sétimo, editora Aleph). Sim, os três se reuniram para um bate papo divertido, inspirador e emocionante na Bienal do Livro Rio 2017.


Com direito a um brainstorm coletivo entre autores e plateia para a criação de um mundo fantástico, o papo com o trio foi regado a declarações de admiração e muita participação dos leitores (teve até pedido de casamento!), que aproveitaram a oportunidade única de estar frente a frente com três dos principais nomes do gênero para tirar várias dúvidas sobre o processo criativo e a narrativa fantástica.

“Uma coisa importante é você encontrar a linha tênue entre o que pode ser bacana e ficar muito tosco”, explicou Spohr. “Algumas coisas você até poderia colocar, faria sentido, mas ficaria estranho. Ainda mais quando você insere um personagem no Brasil, no Rio. Achei que não fossem gostar, mas foi isso que acabou atraindo as pessoas. A gente tem que pensar nisso, como a gente vai fazer de uma maneira que fique verossímil, para as pessoas acabarem em algo que é uma fantasia, uma ficção. Quando você coloca esse mundo fantástico dentro do contexto do mundo real, a linha entre virar a famosa galhofa é tênue. São coisas que precisam estar na cabeça quando misturamos o real e o fantasioso. Até onde vai a verossimilhança”.

Já Solano defendeu as limitações como fonte de inspiração e como ponto de partida da construção da narrativa.

“Uma das supostas regras da magia diz que limitações são sempre mais interessantes que os poderes”, declarou. “O personagem movido à criatividade do autor vai ter que se esforçar para contornar as dificuldades e fazer com que a solução seja mais inteligente e surpreenda o leitor. Se você apresenta essas ferramentas para o leitor, ele entra no jogo com você. Você tem que estar sempre um passinho à frente. No caso dos meus livros, eu tinha o problema da não-referência. Tanto em termos de narrativa e familiaridade quanto na descrição de coisas que para nós são mundanas. Você tem que dar uma trapaceada para apresentar aquele universo. Eu sempre fui atraído por histórias que são conduzidas pelo personagem. Eu sempre soube que no caso do Espadachim queria contar a história de um jovem que saísse de uma posição que achava que sabia de alguma coisa e fosse exposto a um mundo que não sabia que era assim. Então, eu comecei a lapidar todas as regras do universo gerado. Depois que criei todo o sistema de regras, peguei a ideia do personagem e vi onde ele se encaixava. Fiz essa estrutura funcionar assim”.

Vianco, por sua vez, defendeu o foco no personagem e afirmou que é necessário estabelecer limites dentro da história para não perder a conexão com os leitores.

“A criação do sistema de regra que você coloca dentro do seu universo, quando você chega num ponto crítico, na verdade, é uma coisa boa porque você está construindo algo sólido e consegue ver o que não está em sintonia com o que criou. Se você ainda não publicou, tem que rever as regras da sua história. Você está contando, criando um vínculo com o seu leitor que vai comprar a sua história até um lugar. Se você começar a descartar coisas que apresentou, você tira o patrimônio que deu ao leitor e perde ele. É importante estabelecer limites dentro da sua história. A criação é caótica. Escritores são como antenas parabólicas. A gente tem contato com coisas o tempo todo e, de repente, a inspiração vem, cria alguma coisa. Existe a inspiração, você precisa ter intuição, precisa estar inspirado. Tem uma ordem, uma progressão para você organizar a história. Eu começo descobrindo quem é o personagem. Quem vai contar a história. A personagem comanda o show. Personagem é caráter. Uma boa história tem um bom caráter. Se você coloca um desejo num personagem que você inventa, as pessoas vão querer saber até onde isso vai levá-lo”.

Mas como transformar todo esse talento e criatividade em um livro e, mais do que isso, criar novos mundos, realidades totalmente diferentes? Na literatura fantástica, especialmente, há também a dificuldade de se trabalhar com questões e criaturas um tanto quanto diferentes, sendo algumas bastante conhecidas pelas mãos de outros escritores.

“Eu gosto da mistura”, declarou Solano. “Boto os pontos principais, sei qual é a transformação, onde ele vai estar no final, e gosto de deixar os personagens reagirem àquela situação, de acordo com a personalidade que demos a eles previamente. Não sabemos tudo que eles vão falar. Isso vem ao longo da escrita. É bacana você misturar para deixar a criatividade fluir. Inclusive, para encontrar coisas novas em outras batidas. Eu costumo mencionar o Drácula e Anne Rice (autora de Entrevista com o Vampiro). Há maneiras de você escrever. Por mais que seu mundo seja completamente louco, tem sempre algo com que você se identifica enquanto ser humano”.

Spohr também defendeu a liberdade criativa e a recriação e ressaltou a importância de saber o conceito da história que deseja contar.

“Uma coisa excelente é poder recriar”, indicou. “Não existe plágio sobre ideia. Você pode escrever uma história com uma mesma ideia, mas de forma diferente. No fundo, é um pouco isso. Escrever é meio que a maneira como você conta e não o que você conta.

Eu começo pensando sobre o que a história vai falar. A história tem que ter um conceito. Cada um vai interpretar da maneira que quiser. Eu sempre penso no começo o motivo, o conceito da trama. Depois, o cenário. O mais importante para a história dar certo é ter personagens cativantes e uma trama interessante. O resto é um tempero a mais”.

Já Vianco reiterou a necessidade de um conceito, no entanto, a partir da jornada do próprio personagem.

“Tento saber o que vai acontecer porque tem vários níveis de organização de uma história”, apontou. “Eu busco saber para onde estou indo para ter uma consequência dentro da história. As crises que seu personagem enfrenta ocorrem frente ao caráter dele. O que ele vai escolher fazer. Cada personagem vai viver o seu mito dentro da história. Você precisa ter uma consciência da sua narrativa para saber se aquilo vai fazer bem ou destruir a sua história. Aí pode surgir a dificuldade. Tem que estar com o coração aberto. Para vir a inspiração para você ter tesão de contar a história”.

Vianco também exaltou o momento da literatura fantástica nacional e o fato de os autores brasileiros começarem a inserir elementos da nossa própria cultura nas histórias, em vez de usarem referências estrangeiras.

“Quando os autores trazem suas histórias para o cenário nacional, eu fico sempre muito contente”, afirmou. “Porque tem aquela coisa de síndrome de vira lata. Nós somos educados pela cultura narrativa dos EUA porque tudo o que entrava na década de 80, mesmo antes,era de lá. As prateleiras das livrarias cobertas de fantasia e terror norte-americanos e da Inglaterra. Isso era o que a gente comprava, via e aprendia com esses personagens. E você acha aquele way of life bacana. Eu ficava muito chateado com autores nacionais escrevendo coisas com referências americanas. É muito bacana ver os autores se emancipando um pouco. Se você vai destruir uma cidade com vampiros que congelam, queimam tudo, não precisa ser Manhattan. Escreva sobre o lugar que você conhece, as pessoas que você conhece, o jeito que você conhece.  Ache esse brasileiro dentro da sua história. Traga os mitos nacionais para dentro do texto. Para escrever fantasia você não é obrigado a nada. Você inventa tudo o que quiser. É muito democrático narrar, contar história. Mas coloque essa gente brasileira aí. Vai ser bacana”.

Por falar em escrever, uma curiosidade unânime no bate papo foram os próximos trabalhos dos três. E, se depender de ideias, livro é o que não vai faltar para deleite de todos.

“Eu tenho ideia para tudo o que você possa imaginar”, disse Spohr. “Romance histórico, realistas, ficção, drama, terror. Escrever também é a arte de você cortar e definir qual será o próximo projeto. Escritor está sempre imaginando. Minha gaveta está cheia de histórias, mas pegar e ir adiante é outra coisa. Lançamos o universo expandido e não queremos parar porque é uma maneira de nos comunicarmos com vocês. Às vezes, vocês só leem os livros, mas também temos outras formas de falar sobre esses universos”.

Para quem é considerado um mestre dos vampiros, Vianco surpreendeu ao declarar a vontade de se aventurar por um gênero completamente diferente.

“A última vez que parei para contar, eu tinha 73 ideias de plot para escrever”, afirmou. “Por incrível que pareça, tenho uma história que já tem até título, que é um caboclo sertanejo. Sou louco para escrever isso. Nunca escrevi nada de sertanejo. Escrever é algo que evolui. Hoje, você quer escrever algo, depois, quer escrever outra coisa”.

Outra novidade também veio da parte de Solano, que planeja lançar uma obra em uma parceria muito especial.

“Eu cresci mito influenciado por horror”, concluiu. “Eu tenho um planejamento de, depois do terceiro livro do Espadachim, que é uma série e vai continuar porque eu preciso pagar o o aluguel (risos), lançar um livro de contos de terror que eu estou desenvolvendo com meu irmão caçula. É um tema com o qual eu quero brincar. E também quero fazer algo de ficção científica”.

Com tanto reconhecimento num mercado fechado e tendo que enfrentar constantemente a concorrência estrangeira, Solano, Spohr e Vianco têm consciência da importância de suas obras para a indústria livreira nacional e principalmente do apoio dos fãs, que estão ajudando a mudar esse cenário para os autores de literatura fantástica.

“A Bienal é bem isso”, atestou Solano. “Hoje, nós conseguimos estar aqui diante de todos vocês. E eu tive o prazer de fazer a curadoria do espaço Geek & Quadrinhos e fiz questão também de trazer autores iniciantes para podermos trocar ideias e experiências com a galera, porque escrever é algo muito solitário”.

“A gente fica só na internet, e essas são oportunidades raras”, completou Spohr. “Queria agradecer a todos por terem vindo e ficado na fila para as senhas de autógrafos e do bate papo. É realmente muito importante vocês estarem aqui para gente e para o cenário de literatura no geral, para as editoras observarem isso. E elas já estão observando e possibilitanto a entrada de mais gente no mercado. Essa participação é importante. E isso também é proporcionado por vocês, vocês fazem parte disso. A gente escreve, mas, se vocês não lessem, não estivessem aqui, não funcionaria. Isso é importante de ser reconhecido”.

“É uma honra porque, lá atrás, quando tentava publicar o primeiro livro, a editora disse que brasileiro não queria ler terror, fantasia escrita por brasileiros”, concluiu Vianco. “E, hoje, nós estamos aqui”.

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada "literariamente". Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de "A Bela e a Fera".

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