Karin Slaughter surpreende o público na Bienal do Livro Rio 2017

Um dos maiores nomes do gênero policial da atualidade, a autora falou sobre o seu processo criativo e seus limites ao escrever um thriller

Fala serena, meio tímida, porém bastante clara e direta. E muito segura. Aquela propriedade de quem é capaz de pensar e desenvolver uma série de assassinatos e, em seguida, pensar nas mais surpreendentes soluções para os crimes. Essa foi a impressão passada pela ótima Karin Slaughter, um dos maiores nomes de thrillers da atualidade, autora dos sucessos Flores Partidas e Esposa Perfeita – ambos publicados pela HarperCollins Brasil -, na Bienal do Livro Rio 2017.

Referência dos romances policiais, Karin exaltou as autoras do gênero, ainda que, para ela, é preciso reconhecer o trabalho dessas escritoras agora e não apenas de maneira póstuma, uma vez que as mulheres sempre marcaram presença na literatura policial, embora o destaque maior seja dado aos homens. Outra preocupação de Karin também é trazer mulheres fortes em seus livros e mostrar que elas podem contar umas com as outras, em qualquer situação, principalmente nas adversidades.

“Se você olhar para a história, as mulheres escrevem thrillers há muito tempo, mas não foram celebradas em vida”, declarou ela. “Temos Agatha Christie, por exemplo, e muitos outras autoras bem sucedidas. Que foram escolhidas por escolas. Acho ótimo as autoras de hoje aproveitarem isso agora. Fico um pouco nervosa de isso não durar muito, mas vamos ver. Nos meus livros, eu tento mostrar para as mulheres que elas podem se apoiar. É horrível quando elas não fazem. Por isso que eu decidi escrever esse tipo de história”.

Com uma escrita ágil e envolvente, Karin despertou a curiosidade dos leitores durante o bate papo sobre o seu processo criativo. Para a escritora, o mais importante da história é mostrar para o leitor como chegar à conclusão. E, claro, conseguir manter o suspense até o fim e estimular a curiosidade do leitor.

“Eu tenho uma ideia geral de onde a história vai, mas eu não gosto de saber todos os detalhes, gosto de manter um pouco mistério”, afirmou. “É uma coisa muito difícil manter o suspense. Eu achava que nunca conseguiria escrever um thriller, achava que seria muita coisa. Mas acho também que acaba vindo naturalmente quando você gosta. O mais importante, quando você escreve um thriller, é uma pergunta feita no começo que é respondida no final. Para o leitor não achar que está perdendo tempo. Eu sou muito sortuda por muitos leitores gostarem da historia. E quero ter certeza de que todos os elementos estarão ali. Eu preciso pensar muito na história até saber onde vou chegar”.

Um dos diferenciais dos romances de Karin são exatamente seus personagens tão bem construídos e desenvolvidos, ao longo da narrativa. Ela indicou que é fundamental trabalhar na essência, na personalidade dos personagens e apresentá-los plenamente aos leitores. Suas motivações. Porque, segundo a escritora, o leitor precisa se envolver, entender a história do personagem para conseguir se conectar com o resto da trama.

“Se você olhar para os thrillers anteriores, eles tinham uma projeção mais masculina do personagem, em vez da história”, informou. “Stephen King é um dos maiores mestres mestres em personagens. Hoje em dia, muitos autores  até têm feito isso, se preocupado com essa questão, mas não é o forte do gênero, o que eu acho que deveria ser. Nós não nos furtamos dos detalhes. Muitas pessoas me perguntam por que eu matei aqueles personagens tão incríveis. Eu respondo que, se eles não fossem tão incríveis, vocês se importariam com eles? Essa é a parte mais importante do livro. Porque é onde a maioria dos thrillers pode dar errado. Não faz sentido, para mim, as pessoas fazerem as coisas apenas porque são malucas. Na minha opinião, a história deles é sempre o mais interessante. Porque é um comprometimento quando você começa um livro, e é o mais legal imaginar tudo isso. O final do livro é igualmente importante como o começo. É quase uma traição quando o livro é muito bom até o final e depois cai. Saber o porquê de alguém fazer alguma coisa é a razão de lermos esses livros. O que em suas vidas fez com que eles se transformassem em foras da lei”.

Interessada por “qualquer um que saiba contar uma boa história”, Karin destacou também as obras de Neil Gaiman e Liane Moriarty como presenças constantes em sua lista de leituras. No entanto, apontou que suas maiores inspirações vêm, de fato, da vida real. Observadora nata, ela sabe como utilizar esse hábito para criar suas tramas.

“Simplesmente acontece (a inspiração)”, disse. “Eu estou sempre pensando em personagens e das mais variadas formas que as pessoas interagem. Minha avó, por exemplo, adorava levar a gente para a igreja e, no Sul dos EUA, isso é para mostrar que você tem boas maneiras. E nem podíamos sair para ir ao banheiro. No final, minha avó nos apresentava para os seus amigos. E, assim que as amigas viravam, ela contava algo delas. E ela tinha coisas horríveis para dizer dessas pessoas que pareciam boa gente. E, aí, eu comecei a pensar quais seriam os segredos das pessoas. Isso vem na minha cabeça. É como uma amizade, ela vai se desenvolvendo e evoluindo ao longo do tempo. Eu gosto de dizer que sou tão esperta que simplesmente venho com esses personagens, mas todos os autores pegam algo de momentos diferentes da vida. Eu viajo muito a trabalho. Eu vejo muitas pessoas no aeroporto e elas são muito rudes e ruins e fazem coisas por acharem que são anônimas, mas não são. Muitas vezes, são esses tipos de coisa que você observa que as outras pessoas não percebem. Então, eu fico imaginando essas pessoas como psicopatas ou algo do tipo (risos)”.

Com uma narrativa tão detalhista e surpreendentemente real, não é de se estranhar que as pessoas fiquem, no mínimo, curiosas com tamanha capacidade de imaginar crimes tão horrendos e situações um tanto quanto incômodas à nossa realidade. No entanto, Karin afirmou apenas tentar passar os fatos, a vida real. E não o que é passado na televisão, um pouco mais romantizado. E, num gênero em que se espera que o autor tome um “lado” ou “partido”, especialmente na época em que estamos vivendo – ainda mais no caso dos Estados Unidos, após as eleições -, ela disse apenas que suas obras têm como principal objetivo entreter e mostrar os dois lados para permitir ao leitor uma opção de escolha consciente.

“Pessoas me peguntam como eu escrevo isso, e eu penso que, se você está lendo ,então, é tão pior quanto eu (risos)”, atestou. “Quando eu escrevo, sei o que vai acontecer e não tenho medo.  Eu sou fascinada pelos detalhes dos crimes e sempre quero saber o que aconteceu. Adoro falar com médicos, policiais e descobrir como falar para o leitor como os crimes são investigados. Na TV, os crimes são solucionados em 40 minutos. Não funciona assim na vida real, e é sobre isso que eu tento escrever. A vida real. Daqueles momentos no livro que você não sabe em quem confiar. Eu acho que tem influência política nos thrillers. De muitas maneiras, eles refletem as épocas. Para mim, a melhor coisa de ser americana é que temos um histórico de poder tirar sarros dos políticos. É a melhor coisa de termos uma sociedade livre. Meus livros têm como objetivo entreter. Eu não quero pregar nos meus livros. Mesmo quando eu leio algo que pensa como eu, acho entendiante porque quero saber os dois lados. Isso faz você questionar as coisas. Esse é o ponto da literatura. Temos que ver os dois lados porque só um lado pode ser muito chato. Tento ver os dois lados. Eu estou aqui para entreter, não cabe a mim ensinar”.

Mesmo com tanto sangue, lágrimas e mentes assassinas, até mesmo Karin Slaughter tem um limite do que pode ou não incluir em seus livros. E o seu limite são os animais. “Eu nunca machucaria um animal”, garantiu. E, por falar em escrita, ela destacou que é fundamental para o escritor encontrar a própria voz e saber exatamente sobre o que quer escrever.

“A escrita te escolhe”, concluiu. “Escrever pode ser difícil e doloroso. Quando eu comecei a escrever, escrevia histórias de romance do Sul e ninguém queria publicar. E foi a melhor coisa que aconteceu porque a minha agente perguntou o que eu queria escrever. Eu disse que gostava de thriller, mas não sabia se conseguiria. E eu consegui e encontrei a minha voz. O gênero me escolheu.  Se você quer tentar escrever um thriller, sente e escreva porque vai ser a única maneira de saber se você vai conseguir. Se é isso mesmo. Leia os livros que você gosta e escreva o tipo de livro que gostaria de ler”.

 

 

 

 

 

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada “literariamente”. Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de “A Bela e a Fera”.

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