V.E. Schwab defende a liberdade criativa na Bienal do Livro Rio 2017

Em conversa com os leitores, a autora de literatura fantástica falou sobre o preconceito no mercado e a importância da escrita para a sua vida

A magia para fugir do mundo real. Para se encontrar e principalmente encontrar a própria voz. É assim que Victoria Schwab ou V.E. Schwab, como também é conhecida, define o conceito de suas obras. Autora dos sucessos Um Tom Mais Escuro de Magia (editora Record), A Guardiã de Histórias (Bertrand Brasil) e Melodia Feroz (Editora Seguinte), ela levantou o público na Arena #SemFiltro, na Bienal do Livro Rio 2017. Entre outros assuntos, ela adiantou detalhes de seus próximos livros e debateu sobre o preconceito com autoras de fantasia e representatividade.

Conhecida por explorar o sobrenatural e pelas tramas sombrias e repletas de conflitos existenciais, Victoria explicou que o principal objetivo de seus livros é abordar a busca pelo pelo seu lugar no mundo. Ajudar os leitores a se identificarem e reconhecerem.

“Eu escrevo livros sobre entrelinhas entre coisas: vida e morte, bom e mau, heróis e vilões, humanos e monstros”, explicou Victoria. “A maioria dos meus livros explora o sobrenatural, a magia. Em todos os livros há a luta de saber qual é o seu lugar no mundo e como conseguir mais poder. Mesmo que você esteja lendo fantasia ou realidade, você tenta entender o mundo por meio da escrita. Você olha para tudo acontecendo no mundo que você não entende e não controla e começa a pensar ‘e se?’. E se uma coisa fosse diferente e estivesse no seu controle? Se eu mudasse um elemento no mundo para tornar esse mundo um pouco mais mágico? Em Melodia Feroz, eu falo sobre a violência e, no meu país, os EUA, a violência acontece o tempo todo e ninguém faz nada e nada muda. Ai, você começa a pensar como tem tanta escuridão e nada acontece com isso. Então, imaginei que alguma coisa, de fato, poderia acontecer e se transformar em algo complexo. Os monstros são nascidos de atos de maldade, crimes, nesse livro. O mal tem uma cara que você pode enfrentar.  É uma série sobre monstros e maldade, mas também sobre você entender o seu lugar no seu ambiente, no mundo”.

Politizada, Victoria fez questão de abordar, de alguma forma, as questões que, para ela, são importantes na sociedade. E isso, ela ressaltou, é um papel que a literatura cumpre de uma maneira única.

“Quando você escreve sobre mágicos, fantasmas e monstros, como escritor, você está explorando o seu mundo e, como leitor, está escapando dele”, declarou. “Depois das eleições, eu fiz uma tatuagem que fala ‘levante-se’, ‘erga-se’, no pulso esquerdo, que é a mão que eu escrevo. É um lembrete de que, mesmo que você ache não tem o poder, você tem. Você só precisa achá-lo. O meu poder é a escrita. Meu trabalho é criar mundos onde os leitores podem escapar, mas também possam ver que nós temos poder, que estamos em posição de poder”.

Com tanta força e atitude, Victoria ressaltou, no entanto, que o início, como para muita gente, não foi fácil. Ela, inclusive, chegou a duvidar de si mesma. Até o momento em que parou para pensar no que realmente queria e não no que os outros iriam pensar sobre ela.

“Eu bati de frente na parede no início da carreira porque a série que estava escrevendo foi cancelada no meio”, explicou. “E foi um ponto de virada para mim porque, até aquele momento, eu me perguntava o que as pessoas queriam  ler e o que as editoras queriam. Depois disso, eu comecei a me perguntar o que eu queria ler, o que eu queria colocar nas páginas. Aprender a escrever para si mesmo antes é a coisa mais importante que você vai aprender nessa indústria porque você nunca vai se desapontar. Você não pode controlar o que acontece no mercado, mas você pode controlar se você vai aproveitar o processo e vai gostar do que está criando. Eu sou muito estranha, mórbida e sombria (risos) e achei que, se começasse a escrever o que queria ler, não iria encontrar leitores.E foi o oposto. Encontrei muitos leitores iguais a mim. Isso me ensinou que, não importa o que aconteça, eu devo me perguntar, eu preciso estar sempre feliz com o que vou escrever. Nem todos os meus livros são igualmente um sucesso, mas eu estou muito feliz com tudo o que escrevi até hoje”.

Apesar de ter fechado recentemente um contrato de um milhão de dólares para uma nova trilogia e ser um dos principais nomes da literatura fantástica mundial, Victoria ainda enfrenta o preconceito por ser mulher e escrever para o gênero. E foi esse preconceito, aliás, que a levou a assinar seus livros de duas formas, tanto como Victoria quanto como V.E. Schwab.

“Há duas razões para eu escrever com dois nomes”, disse. “Eu gosto de ter a separação dos meus livros para os jovens e para os adultos. Mas, nos EUA e no Reino Unido, a fantasia adulta é muito sexista. Pessoas assumem que mulheres não podem escrever fantasia. Eu tenho leitores que já viraram para mim e disseram que adoram os meus livros e que bom que não sabiam que era uma mulher escrevendo, caso contrário, nunca teriam comprado. Meu editor queria que eu mantivesse meu nome inteiro, de uma forma que mostrasse que isso não importa, mas a minha filosofia é que eu não quero que nada seja um obstáculo para as pessoas lerem meus livros. Eu quero converter as pessoas nesse sentido. Quero que as pessoas peguem o livro, gostem, entendam que sou uma mulher e parem de pensar assim. Eu mentiria se não dissesse que não sinto uma certa liberdade criativa quando escrevo como V.E., porque eu sei que não serei tão julgada por ser uma mulher”.

Justamente por viver esse preconceito na pele, Victoria, que faz parte da comunidade LGBT, faz questão de trazer representatividade para as suas obras.

“Minha filosofia como autora de fantasia é que, se você cria um mundo novo e o faz exatamente como esse,  em termos masculino, branco, hétero, de poder, é um problema. Você tem a oportunidade de reescrever a dinâmica do nosso mundo, de fazer as pessoas serem vistas de maneiras como não são e dar poder a elas como elas não têm. É muito importante para mim, como mulher e membro da comunidade LGBT, é o que eu quero ver como leitora e fazer como escritora. Em Tons Mais Escuros de Magia eu quis desenvolver um mundo em que o sexo e o gênero não são a fonte de poder, mas a magia. A pessoa que você escolhe amar não é importante, mas, sim, se você não tem magia. Existe uma hierarquia, mas não é a mesma do nosso mundo”.

Pottermaníaca, Victoria assumiu que Tons Mais Escuros de Magia é praticamente uma carta de amor a Harry Potter, pois ela sentia falta de um “lugar para ir na ficção” e, depois da obra de J.K. Rowling, desejou ir para Hogwarts (a escola de magia e bruxaria de Harry Potter) durante sete anos consecutivos. E sobre o carinho dos leitores brasileiras, a autora disse que a experiência não poderia ter sido melhor.

“Essa é a minha primeira vez no Rio, na América do Sul, no Brasil, e tem sido extraordinário”, concluiu. “Uma experiência incrível. Este é um lugar lindo, mas as pessoas definitivamente são a melhor parte”.

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada “literariamente”. Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de “A Bela e a Fera”.

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