Raphael Draccon e Carolinha Munhóz encantam os leitores na Bienal do Livro Rio 2017

O casal fantástico da literatura nacional falou sobre a mudança para os EUA, os novos projetos e abriu o coração para os fãs

Emoção e muito carinho entre autores e leitores marcaram o bate papo com Raphael Draccon e Carolina Munhóz na Bienal do Livro Rio 2017. No Auditório Madureira, o casal fantástico quase fez explodir o fofurômetro com a sua simplicidade, cumplicidade e amor, notáveis a olhos vistos. E não faltaram lágrimas também, com depoimentos bastante sinceros do público e principalmente no momento em que Draccon surpreendeu até mesmo Carol e, pela primeira vez, divulgou o rap que compôs sobre a própria vida, para delírio de todos.

Morando em Los Angeles, o casal fez valer cada segundo com o público e também se emocionou com as declarações de seus leitores. Praticamente uma fada da vida real, Carol ainda abriu o coração ao falar sobre a sua inspiração e ligação com os próprios personagens e do bullying que sofreu.

“Eu decidi colocar um pouco nos meus livros o que eu passei, todo o bullying, a depressão”, explicou Carol. “Porque eu sentia que os personagens não eram tão parecidos comigo quando eu era jovem. Eu pensava ‘será que sou tão diferente?’. Quando eu comecei a colocar um pouquinho da minha história, senti que estavam se identificando, e isso é a maior vitória que eu tive na carreira. A Carol de 16 anos estaria orgulhosa pensando que tem alguém parecido com ela na literatura”.

Destaques da literatura fantástica nacional com as bem-sucedidas séries Legado Ranger (selo Fantástica Rocco, da editora Rocco), Dragões de Éter (editora LeYa) – de Draccon – e Trindade Leprechaun (selo Fantástica Rocco) – de Carol -, Draccon e Munhóz destacaram a mudança de cenário em relação ao gênero no mercado nacional e comentaram as diferenças com a indústria literária norte-americana.

“O mercado daqui teve um boom em 2012″, afirmou Draccon. “Foi o ápice da literatura fantástica, e eu e Carol fomos capa da Folha num sábado de bienal, que é o dia em que a Folha decide o que vai ser mais quente e geralmente eles dão porrada (risos). Então, nós estávamos preparados para a porrada, e eles deram o título ‘Eles têm a força’ na matéria, falando que a literatura fantástica tinha chegado para arrebentar. E isso foi muito importante porque foi um trabalho desenvolvido também por outros autores para reconstruir o gênero. Outras editoras descobriram e o mar abriu, mas, agora, o mar começou a encher um pouco também. Para começar a ser publicado aqui tem que entender o seu diferencial. Se você souber o porquê de ter um diferencial, já está na frente dos concorrentes. Uma curiosidade é que, no mercado de fora, eles estavam na época da distopia e tal, mas, agora não, a literatura fantástica caiu um pouco. A diferença é que, aqui no Brasil, a maioria dos autores é homem e, lá, as autoras comandam. Essas são as principais diferenças que eu vejo nos dois mercados atualmente”.

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Por falar em girl power, Carol, umas das pioneiras da literatura fantástica feminina no Brasil – com obras como A Fada , O Inverno das Fadas, Feérica (os três pelo selo Fantasy, da Casa da Palavra) e O Reino das Vozes Que Não Se Calam (Fantástica Rocco) -,  comemorou a posição das autores norte-americanas no gênero e explicou a importância das escritores para esse mercado.

“É incrível enxergar esse movimento porque eu tive o prazer de abrir um pouco mais a literatura fantástica feminina aqui no Brasil e foi um privilégio”, declarou ela. “Eu sentia que, quando me chamavam para um bate papo, era sempre a Carol e o ‘Clube do Bolinha’. Nunca tinha outra mulher para trocar essa ideia. No começo, era muito raro e, quando eu comecei a ver o público do exterior e a frequentar os eventos de lá, fiquei maravilhada. Há várias mulheres escrevendo fantasia. Elas dominam os painéis. Tem painel de literatura fantástica com até cinco mulheres. Às vezes, as pessoas pensam que é só um romance com fadas, mas, não, é fantasia. E, assim como na literatura escrita por homens, também tem um romance. É muito bom ver que isso está acontecendo lá fora, e espero que se reflita aqui”.

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Por falar na vida lá fora, nos Estados Unidos, Carol e Draccon também deram detalhes dos motivos que os levaram a sair do Brasil: levantar novos voos. Especialmente no audiovisual. Sim, para a ansiedade geral dos presentes no bate papo, eles confirmaram que estão batalhando – e muito – para levarem suas obras além das páginas e adaptá-las para o cinema ou TV. O problema, no entanto, de acordo com eles, é a burocracia do processo. Mas eles garantiram que todos os esforços estão sendo feitos para que esse sonho possa acontecer.

“Lá é tão enrolado quanto aqui no Brasil, nesse sentido (adaptação de obras)”, explicou Carol. “Foi um choque. A gente pensa que em Hollywood vai acontecer mais rápido. É reunião atrás de reunião, e o feedback da reunião é três meses depois e só vai adiando. O que aconteceu é que estávamos no Brasil e viajando para o exterior todo ano para buscar isso, mas nunca conseguíamos. Começamos a nos perguntar qual era o problema, o que nós tínhamos de diferente. A história era o fato de sermos brasileiros e morarmos no Brasil. Era isso. O fato de estarmos aqui falando uma língua que ninguém entende. Se existe uma chance de adaptação, tinha que ser lá fora. Dragões de Éter recebeu várias propostas, mas, se fizéssemos aqui, do jeito que as coisas estão sendo feitas, vocês iriam nos matar (risos). Para sair algo bacana, teríamos que nos mudar. Se queremos investir nesse futuro, temos que mudar. E, por isso, tomamos essa decisão. Com a nossa mudança, uma das coisas que decidimos como casal é que queremos desenvolver a carreira na TV e no cinema. Estamos trabalhando muito para levar Dragões de Éter e, se está demorando é porque também tem muita coisa boa vindo aí para os fãs”.

“Tudo o que podíamos fazer, já fizemos, então, dependemos de outras pessoas que dependem de outras pessoas”, reiterou Draccon. “Faz parte do processo deles mesmo”.

Com os recém-lançados Por Um Toque de Magia (terceiro volume da Trindade Leprechaun) e O Coletor de Espíritos, Carol e Draccon também anunciaram uma nova obra, prevista para 31 de outubro deste ano, que será uma antologia de terror publicada pela Galera Record. No livro, o casal se junta a Raphael Montes e Frini Georgakopoulos para trazer uma nova visão sobre quatro vilões. E Draccon também adiantou que o quarto volume da série Dragões de Éter já está em desenvolvimento, mas que ainda não há uma previsão de lançamento. Conscientes das referências que se tornaram não apenas para o mercado, mas principalmente para os leitores, eles ainda deram dicas para quem deseja seguir a carreira.

‘Por Um Toque de Magia’, de Carolinha Munhóz, e ‘O Coletor de Espíritos, de Raphael Draccon / Divulgação

“Coloque no papel o que você realmente ama, o que fala com você”, disse Draccon. “Não existe uma regra, mas eu aconselho a tratar a profissão de escritor como uma profissão, porque é algo difícil. Quando você fala para alguém que vai ser escritor, já perguntam com o que mais você vai trabalhar. Ninguém acredita nisso como profissão, mas você tem que acreditar e estudar isso como uma profissão”.

Mesmo morando fora, o carinho dos leitores com o casal é imenso. Tanto Draccon quanto Carol exaltaram a relação tão próxima com os fãs e celebraram a possibilidade de, alguma forma, seus livros poderem fazer a diferença nas vidas de outras pessoas.

“Eu fui uma ávida leitora de literatura fantástica”, declarou Carol. “Hoje, conseguir ver pessoas tão maravilhosas nos seguindo, juntando um grupo de meninas, de pessoas de todos os lugares se conectando e formando uma família é incrível. Algumas das minhas grandes amizades foram graças a essas horas em fila para ver pessoas, autores que eu amava. Levo tudo isso com muito cairnho. E, agora, proporcionar isso para vocês, essas novas amizades, é muito gratificante. Eu sempre falo que um livro salvou a minha vida e, se um livro meu faz isso, eu cumpri a minha missão. E vocês são o reflexo da minha missão. Por isso que eu sento na frente do computador para escrever, porque eu sei o quanto isso vale para vocês”.

“Quando a gente publica um livro, não é mais nosso”, concluiu Draccon. “É o que sempre se fala no mercado, e é verdade. Tanto que o próprio conceito de Dragões de Éter é sobre isso. Quando a gente vê isso, essa coisa que transcende o livro, pra gente é o que significa o conceito de literatura. União através das palavras, porque é isso o que acontece entre vocês. Quando a gente vê essas coisas tão fortes, de pessoas se inspirando na gente, eu fico aqui olhando e pensando ‘caramba, 10 anos se passaram’. Eu esperava que desse certo, mas, uau, mudou a minha vida. Passa um filme. São momentos como esse que me fazem lembrar que o livro não mudou só a minha vida, e é por isso que valeu a pena. Sempre valeu a pena. Sempre vai valer a pena”.

Assista abaixo ao rap de Raphael Draccon:

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada “literariamente”. Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de “A Bela e a Fera”.

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