Gayle Forman critica o sexismo na Literatura e em Hollywood na Bienal do Livro Rio 2017

Autora de sucessos como ‘Se Eu Ficar’ e ‘O Que Há de Estranho em Mim’ falou também sobre polêmicas envolvendo seu novo livro e a generalização do público

A força feminina na vida real e nas páginas. A escritora norte-americana Gayle Forman, mediada por Paula Pimenta e Rosane Svartman, debateu o sexismo em Hollywood, falou sobre o seu processo criativo e os temas delicados – alguns considerados ainda um tabu – abordados em suas obras, como Se Eu Ficar (editora Novo Conceito), O Que Há de Estranho em Mim (Editora Arqueiro) e o recém-lançado Quando Eu Parti (editora Record), durante o papo na Arena #SemFiltro, da Bienal do Livro Rio 2017.

Livros ‘Se Eu Ficar’, ‘O Que Há de Estranho em Mim’ e ‘Quando Eu Parti’, de Gayle Forman / Divulgação

Com uma criação um pouco mais simples e voltada para a natureza – seus pais eram um pouco hippies, como explicou -, Gayle afirmou que a escrita surgiu como uma forma de entreter a si mesma, uma espécie de salvação.

“Mesmo agora, escrevendo para vocês, leitores, a primeira leitora sou sempre eu”, afirmou Gayle. “Comecei a escrever romance porque precisava de dinheiro. Eu era jornalista e estava com filho pequeno. Eu viajava muito e não queria mais. Eu escrevia sobre viagens. Estava sem dinheiro e não sabia o que fazer. Alguém falou para eu escrever um livro. Não recomendo isso para todo mundo, mas funcionou para mim. Foi ótimo passar boa parte da minha vida viajando, mas tive filho e não pude mais viajar. Então, comecei a escrever ficção e eu podia ir para qualquer lugar na minha cabeça. Foi uma forma de continuar viajando”.

Opinião praticamente unânime entre os leitores que participaram dos debates foi  a capacidade da autora de criar personagens tão reais e tão humanos, com os quais todo mundo consegue se identificar. Para Gayle, é praticamente impossível não se envolver com o personagem na hora da escrita e, talvez por isso, torne a história tão verdadeira.

“Quando escrevo, eu sintonizo, me conecto muito com o meu personagem”, declarou. “Eu quase fico com o mesmo humor que esse personagem e talvez isso acabe passando para o que eu escrevo. No fim, os personagens sempre acabam tendo um pedaço seu. Você vai pegando pequenas coisas dos lugares e pessoas e, depois, você realiza que está dentro dos personagens. Quando você termina o livro, você entende sobre o que ele é. A gente tem a ilusão de que os autores sabem onde querem chegar, mas geralmente a gente só sabe no fim. É como terapia, só que um pouquinho mais barato”.

Por falar em terapia, Gayle também não se omitiu ao comentar sobre as questões levantadas por seu novo livro, Quando Eu Parti, que fala sobre uma mãe que, após ter um problema de saúde, resolve fugir. Literalmente. Apesar de já ter abordado suicídio, sexo, entre outros assuntos – e, na maioria das vezes, voltados para os jovens -, a escritora disse ter se surpreendido ao enfrentar problemas justamente com este livro.

“Eu nunca me preocupei de escrever sobre suicídio e esses assuntos, mas também nunca pensei que teria tanto problema ao escrever sobre uma mãe que abandona a família”, disse. “Escrevi sobre jovens fazendo sexo, escolhas erradas e sempre pensei que teria problemas por isso. Mas não tive, até escrever sobre uma mãe que foge de casa. Gosto de dizer que os personagens desse livro são adultos. Não gosto de definir um público, mas os personagens desse livro são adultos. É uma mãe ocupada que tem dois filhos pequenos, trabalha e, um dia, tem um ataque do coração. Ela precisa fazer uma cirurgia de emergência e, quando volta para casa, a família continua como se nada tivesse acontecido. E, aí, ela foge. Não foi um problema escrevendo o livro, mas quando o livro saiu. Eu ouvi que a protagonista era como eu e que eu fantasiava fugir de casa (risos). E também que a protagonista era a pior pessoa já escrita na história porque que tipo de mãe gostaria de fugir de casa? Eu acho que tem dois tipos de mulher no mundo: aquelas que fantasiam sobre fugir e as que mentem (risos).

Outro problema enfrentado por Gayle após o lançamento do livro foi o preconceito de Hollywood. Com algumas de suas obras adaptadas para o cinema, Quando Eu Parti, no entanto, foi rejeitado pela indústria simplesmente por ter uma protagonista considerada “velha” e “normal”.

“Quando eu falei para o diretor de Se Eu Ficar que a personagem de Quando Eu Parti era uma mulher de meia idade, ele simplesmente disse ‘ah’, contou. “Hollywood tem um problema com as mulheres.  As mulheres geralmente são escadas, estão armadas e lindas e ficam esperando enquanto os homens batalham. E, aí, veio um filme com a Mulher-Maravilha e fez muito dinheiro e todo mundo ficou surpreso. Dá vontade de dizer: alô, somos metade do mundo! E Hollywood também tem uma fixação com o jovens. Uma mulher de meia idade é difícil de ser vendida. Quando eu estava promovendo o livro, muitas pessoas diziam que já conseguiam vê-lo como um filme. Então, meu livro que é o mais cinematográfico é o único que Hollywood não está interessado”.

Altamente produtiva, Gayle confirmou que está escrevendo cinco livros atualmente, com o próximo previsto para sair em 2018, nos Estados Unidos.  Aclamada pelos leitores, ela também explicou preferir não restringir o seu público, ainda que muitos dos seus livros tenham protagonistas mais jovens.  A autora também exaltou o apoio de seus leitores, que a acompanham há anos, independentemente do livro e da idade dos protagonistas.

“Muitos leitores meus já são adultos”, apontou. “E muitos dos meus leitores que eram adolescentes quando saiu o meu primeiro livro, hoje, são adultos. Quando eu escrevi Quando Eu Parti, pensei se não era um livro para mães e me surpreendi quando leitores mais jovens, que ainda não têm a pressão da família, me falaram como também se identificaram com a protagonista. Ás vezes, não ser apreciada pelo que você faz em casa é um sentimento universal. Eu fiquei muito agradecida. Os leitores adolescentes iam me prestigiar nos eventos e diziam que não importava a idade da protagonista, mas que estavam interessados no que eu escrevia. Eu sempre digo que as histórias que escrevo têm personagens jovens, mas não necessariamente são para os jovens. Preciso ter uma relação com o que vou escrever. Não separo os públicos, é a mesma coisa. A razão de eu escrever Quando Eu Parti não é porque eu não queria mais escrever para jovens adultos. Eu queria escrever sobre casamento, maternidade e não podia escrever isso em algo adolescente. Não vejo como se fossem diferentes, a não ser pelo fato de que os livros adultos têm menos cenas de sexo. Eles são sobre pessoas de meia idade, e eu sou realista (risos)”.

Consciente da importância dos assuntos levantados e desenvolvidos em seus livros, Gayle ressaltou que é preciso mostrar para as pessoas que sempre há esperança. Que elas só precisam entender essas mudanças para enfrenta-las. E é isso o que ela tenta mostrar em suas obras.

“Eu me interesso por todos os pontos chaves da vida”, concluiu. “Todos nós temos esses momentos em que as coisas parecem bem diferentes. De repente, vem um esclarecimento. E isso acontece por vários motivos, um namorado ou a morte de uma amiga, por exemplo. Me interesso por isso porque eu acho que a vida não muda num único dia. Há eventos que são pontos cruciais para uma grande mudança e não percebemos isso até lá na frente. Você se ver no espelho e ver que não está aonde quer, mas que tem o poder de mudar ou como reage às circunstâncias. Eu fico revisitando isso porque é esperançoso e também uma forma de empoderamento”.

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada "literariamente". Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de "A Bela e a Fera".

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