Pedro Bandeira inspira e emociona na Bienal do Livro Rio 2017

Autor de ‘A Droga da Obediência’, Pedro Bandeira falou sobre a paixão pela escrita para crianças e jovens e a estreia na literatura adulta no bate papo com os leitores

Olhos vidrados e marejados. Muita expectativa e uma emoção impossível de ser contida por crianças, jovens e adultos. Nesta quinta (7), Pedro Bandeira hipnotizou suas mais variadas gerações de leitores no Auditório Madureira, da Bienal do Livro Rio 2017. Extremamente simpático, acessível e carismático, o criador dos Karas falou, divertiu e inspirou. Muito além da literatura, Pedro debateu a vida, sua relação tão próxima, praticamente fraternal, com o público e, até mesmo, a situação do Brasil.

Ele, que também é autor de sucessos como A Marca de Uma Lágrima e O Fantástico Mistério de Feiurinha, estudou inicialmente Ciências Sociais. A escrita, contudo, sempre fez parte de sua vida, tanto que Pedro começou a carreira, de fato, no Jornalismo. Até se descobrir no universo literário infantil.

“Comecei a escrever para crianças na Abril, onde trabalhava, e comecei a gostar”, declarou Pedro Bandeira no Encontro com Autores. “E, aí, começaram a me dar muitas histórias para escrever. Então, experimentei fazer um livro e deu certo. As pessoas gostaram. Principalmente do segundo, que foi A Droga da Obediência (da série dos Karas, lançada pela editora Moderna). Foi a partir daí que passei a me dedicar profundamente à profissão. E a entender o que era uma criança, um adolescente, de modo que os meus livros pudessem ser dirigidos ao emocional daquele tipo de leitor. Eu devo tudo a vocês porque, se vocês não tivessem gostado, eu não existia”.

Divulgação/Editora Moderna

Profundamente apaixonado pelo que faz, Pedro Bandeira se mostrou tão encantador em sua fala quanto na escrita. E reafirmou sua devoção aos leitores, que, segundo ele, são a sua maior inspiração, especialmente naquela fase de transição, cheia de dúvidas e transformações. O carinho com que se dirigiu ao público é o mesmo que o autor apresenta em seus livros. Isso porque, para ele, escrever é algo intrínseco à sua personalidade.

“O trabalho da gente é insano, e o gostoso é que escritor não se aposenta”, afirmou. “Pode virar um escritor fantasma. A gente trabalha sem parar e o tempo todo. Eu não posso parar de produzir. A única coisa que eu faço são as duas únicas coisa que eu aprendi: ler e escrever. Eu também recebo encomendas. A minha encomenda é quando eu olho para vocês. Para o cara que passa despercebido. Eu fico olhando e pensando o que tem dentro dele, quem é ele. O que fará. É uma provocação para um livro. Talvez, seja isso que chamam de inspiração. Quem me da inspiração é o ser para o qual eu escrevo. O meu leitor me manda. Quando eu fiz A Droga da Obediência, recebia muitas cartas e me pediam outra história para os Karas. Isso foi uma encomenda. Mas teve uma hora que precisei parar porque, quando escrevi a série, estávamos na década de 80. Não tinha nem celular.  Não dá para fazer outro livro com eles porque não dá para fazer, no século 21, uma história de personagens que não possuam essas modernidades. Ao mesmo tempo, se eu fizesse os Karas usarem esses aparelhos, não seriam mais aqueles Karas. Mas a pressão continuava. Eu tentei algumas vezes, mas era impossível. Atá que resolvi fazê-los adultos. Essas pessoas que estão se formando, se alimentando dos sonhos dos livros, é para eles que eu escrevo. Eu sou seu humilde empregado”.

Referência para várias gerações, Pedro Bandeira destacou o que seria o ponto fundamental dos seus livros, que geralmente representam a fase mais importante e, claro, complicada das nossas vidas: a temida e, às vezes, incompreendida adolescência. Com um jeito singular, leve e sensível de abordar as questões que permeiam a mente dos pequenos e jovens leitores, ele destacou que o principal é justamente o sentimento, a emoção.

“A melhor maneira de penetrar a mente humana não é através da razão, mas da emoção”, explicou. “Não adianta ser razoável. Tem que ser pela emoção. Por isso a literatura funciona tão bem. Porque trata de emoção. Para penetrar no emocional do leitor, o ideal não é o mistério, ou o suspense, a aventura. Isso é totalmente desimportante na história. É o veiculo pelo qual vou fazer o leitor pensar em determinado assunto. Ninguém discute os enredos dos meus livros, mas a personalidade dos meus personagens. Tem uma história policial só pra manter a tensão. Eu quero falar sobre a menina que está crescendo, querendo se conhecer. A Marca de uma Lágrima, por exemplo, é um tratado sobre a psicologia do adolescente.  O enredo, para mim, é fundamental, mas não é a ideia. Todos os meus livros juvenis são a passagem chamada adolescência, porque a adolescência só existe atualmente. Não existe a biológica. Ou você é criança ou é adulto. Você só mudou uma vez na vida. A mudança grande é a adolescência. Por isso é tão forte. Porque você vê em que vai se transformar”.

Mesmo sendo adorado pelos pequenos, Pedro também se aventurou no universo mais adulto com Melodia Mortal, escrito em parceria com o médico Guido Carlos Levi e lançado recentemente pelo selo Fábrica231, da editora Rocco. Desta vez, ele usou da liberdade criativa para reviver um de seus personagens preferidos, o detetive Sherlock Holmes. Destacando as diferenças entre a escrita para os dois tipos de público, ele reiterou que, por hora, deve permanecer no mundo dos pequenos.

‘Melodia Mortal’, de Pedro Bandeira em parceria com o médico Guido Carlos Levi, lançado pelo selo Fábrica231, da editora Rocco / Divulgação

“A diferença de um livro para criança, adolescente e adulto é que tudo o que acontece pode ser presenciado por qualquer pessoa, mas por diferentes ângulos”, apontou. “A maneira como você vê as coisas é diferente. Geralmente, meus livros não são para adultos. Até porque, se eu vou escrever uma história com muitos dados e o leitor precisa saber muita coisa, acaba sendo adulto. Tem muitas piadas que você precisa ser adulto e culto para poder achar graça. E tem outros aspectos também. Enredos mais crus ou um pouco mais violentos ou sexualmente mais ousados. Aí, é um livro adulto. Eu vou até o fim do fundamental. Nem pego o ensino médio. Até aí, você ainda não está pronto. Está quase adulto. Já passou pela puberdade. Mas não é adulto ainda. Então, não posso ir à frente. Meus livros vão até a primeira bitoquinha (risos). Se eu vou à frente, torna-se adulto. E eu adorei poder reviver um personagem que me foi muto importante na formação de leitor. Sherlock Holmes foi uma paixão. Tentei escrever como o Sir Arhut Conan Doyle (autor de Sherlock Holmes) escrevia, em primeira pessoa. Você não pode escrever como você, mas como se fosse aquela pessoa. Escrever como o Dr. Watson foi uma diversão. Eu morri de rir enquanto escrevia. Procure uma profissão que você vai se divertir na hora de trabalhar, que seja gostoso. Se você fizer algo que você não gosta, vai ser infeliz. O escritor escreve porque gosta de escrever, e nesse livro eu me diverti muito. Não sei se farei mais um livro adulto. Até porque corro um risco de alguém que me lê há 40 anos se chocar, se eu mudar muito o gênero”.

Consciente da importância que tem não só no coração, mas na mente de seus leitores, Pedro Bandeira foi bastante direto e objetivo ao falar sobre a situação do país e fez questão de mostrar outras perspectivas. Principalmente, fez questão de passar esperança.

“O novo vem para melhorar, substituir o velho”, concluiu. “Eu construí um tipo de mundo. Eu e a minha geração. E dá para ver pelo noticiário que foi mal construído (risos). Minha esperança é que esses jovens venham para melhorar. O Brasil está menos perdido do que já esteve. Eu fui um jovem durante a ditadura militar. E a censura cortou o pescoço das minhas duas habilidades. Assim eu desenvolvi a minha carreira. Abandonei o teatro (ele chegou a ser ator) e fiquei só no texto, a vida inteira me policiando. Quando a ditadura acabou, já estava velho. Toda a minha vida de jovem adulto foi passada sob censura. É a pior coisa que pode acontecer com o ser humano. Não pense, deixe que eu pense por você. Só o raciocínio libera. A obediência repete. Por isso que eu escrevi A Droga da Obediência. Todos nós lutamos para libertar as nossas palavras e pensamentos, mas principalmente para liberar o pensamento de todos vocês. Sim, o Brasil esteve pior do que está hoje. Temos liberdade de imprensa. Estamos sabendo das coisas erradas que existem. O Brasil está melhor, mas será melhor ainda quando cada um desses Karas se tornarem adultos. Quero estar vivo para ver isso”.

 

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada “literariamente”. Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de “A Bela e a Fera”.

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