Entrevista: Vitor Martins

Em entrevista ao Vai Lendo, o youtuber e ilustrador Vitor Martins fala sobre o seu primeiro livro, ‘Quinze Dias’, representatividade e diversidade na literatura Young Adult

Representatividade e diversidade. A capacidade de se comunicar diretamente com os jovens e mostrar a sua realidade. Aquela para qual muitas pessoas preferem fechar os olhos. Mas Vitor Martins não apenas falou, como falou bonito. Ou melhor, escreveu. E com seu livro de estreia, Quinze Dias, publicado pela Globo Alt, o selo jovem da Globo Livros, o ilustrador, youtuber e, agora, escritor deu voz a milhares de leitores que se sentiram representados e viram a história de Felipe e Caio como uma possibilidade de abertura de debates importantes (e esquecidos) e de conscientização.

Em Quinze Dias, Vitor traz à tona as temáticas LGBT e gordofobia de uma maneira bastante leve, divertida e sensível. Logo, o livro caiu no gosto do público e vem acumulando críticas positivas. Para ele, a importância dos livros Young Adults está justamente no fato de eles explorarem as questões e os conflitos dos jovens, que, até então, eram pouco trabalhados na literatura. Vitor rechaçou o preconceito a respeito desse gênero e exaltou a diversidade apresentada nos títulos, o que, segundo ele, ajuda e muito na formação de novos leitores.

“Escrever para o público jovem é um desafio muito grande, mas é uma coisa pela qual eu sou apaixonado”, declarou Vitor em entrevista ao Vai Lendo. “Esse público está em fase de formação de caráter e de identidade, e é muito gratificante poder fazer parte direta ou indiretamente da formação desses leitores. Cada vez mais a literatura YA está se enchendo de diversidade, e eu acho isso maravilhoso! Adolescentes que hoje têm a oportunidade de se enxergar em um livro e ver que está tudo bem ser LGBT, ser fora dos padrões, ser você mesmo. Muitos livros que eu li agora, na minha vida adulta, eu gostaria de viajar no tempo e entregar nas mãos do Vitor de 15 anos. Histórias assim mudam a vida do jovem leitor de maneiras muito inesperadas. Fico profundamente triste quando vejo pessoas diminuindo um livro por ser YA, mas prefiro focar meus pensamentos nos jovens que estão aí lendo e escrevendo suas próprias histórias. Esse público é incrível. Sobre os cuidados e desafios dessa escrita, volto na primeira questão que eu abordei: esses livros são destinados para pessoas que estão se formando. Qualquer ideia errada sobre um tema mais sério, seja ele suicídio, depressão, estupro etc, precisa ser feito com extrema responsabilidade. Quinze Dias fala sobre gordofobia, e esse tema é complicado porque na sociedade muita gente ainda mascara a gordofobia com preocupações sobre a saúde. Um comentário preconceituoso pode vir de uma pessoa que você ama e respeita e ela nem sabe que está sendo maldosa com você. Acredito que meu livro foi escrito para as pessoas gordas se identificarem e para as pessoas gordofóbicas se educarem. Espero estar cumprindo meu desafio. 

Se Vitor passou a ser conhecido, seguido e se tornou uma referência por suas opiniões sobre livros e assuntos relacionados à cultura pop, chegou a vez de ele mesmo ouvir as opiniões de seus leitores sobre as suas próprias obras. E isso, ele afirmou, o ajuda em seu crescimento profissional. E foi esse talento para contar histórias, falar sobre livros que o levou à sua estreia como escritor, algo que mudou, de fato, a sua vida. Quinze Dias, Vitor ressaltou, o ajudou a lidar com as próprias inseguranças.

“Essa coisa de ter o meu livro analisado por outras pessoas é um processo longo e complicado, e cada dia que passa eu aprendo mais um pouco”, declarou. “Logo de cara, nas primeiras semanas de lançamento, o feedback dos leitores foi muito positivo. Quem comprou na pré-venda e leu assim que saiu foram as pessoas que já me seguiam e, por conta disso, meio que gostam de mim. Acho que isso influenciou muito nas suas avaliações porque o livro tem uma linguagem muito minha, e quem já me segue e gosta de tudo que eu compartilho tem mais chance de curtir o livro. Agora que o livro está chegando no seu segundo mês de vida, as resenhas estão mais pé no chão, sabe? Eu geralmente não fico caçando resenhas, mas, sempre que alguém me marca, eu vou lá e leio com todo o carinho. Essa semana li uma resenha negativa pela primeira vez e foi bem interessante para o meu crescimento como autor. Nenhum livro é perfeito, então eu tenho total consciência de que, para muitos leitores, minha história pode não ser boa. Mas tenho a cabeça bem aberta para receber críticas e melhorar esses pontos nos próximos livros. Críticas bem embasadas são sempre boas, porque me tiram da bolha de escritor e fazem eu enxergar a história como leitor. Quem acompanha meu canal sabe que eu sou bem exigente com as minhas leituras, mas também sou muito justo. E o que tenho visto sobre Quinze Dias, até agora, tem sido muito satisfatório.  A minha presença no meio literário como booktuber foi um fator muito importante na minha publicação. O contato com a Globo Alt começou por causa de um evento para parceiros onde eu falei um pouco sobre a trilogia Red Rising (LEIAM!!!!) e o editorial da Alt achou que seria uma boa ideia apostar em mim como escritor. Sou muito grato por isso. Muitas coisas mudaram na minha vida após Quinze Dias! O livro mudou diretamente a minha relação com a minha mãe, por exemplo (ela já leu e deu cinco estrelas, risos). O processo de escrita me fez colocar para fora muitas inseguranças pessoais, e o contato com os leitores me faz perceber diariamente como a história do Felipe precisava ser contada. Descobrir que existem pessoas no Brasil que se enxergaram no meu livro e se emocionaram com a história faz meus dias serem muito mais leves e felizes”.

E claro que, sendo ele um ilustrador, seu primeiro livro não apenas apresentaria a sua escrita, mas também os seus traços. E nada melhor do que criar a própria capa, certo? Para Vitor, porém, a tarefa não foi das mais fáceis. E quanto às diversas referências à cultura pop inseridas na narrativa, ele contou que queria que a história conversasse com o público. Missão cumprida!

“A capa do livro foi um drama sem fim (dentro da minha cabeça, claro, risos)”, disse. “Eu não tinha ideia de como seria a capa do livro até terminar de escrever. Eu não me sentia seguro para ilustrar porque achava que estaria sobrecarregado e seria pressão demais pra mim. Ao mesmo tempo, meu lado ariano me dizia que, se eu não fizesse, não ia ficar do jeito que eu queria, risos. Meu traço normalmente é bem mais puxado para a ilustração infantil e isso foi a minha maior preocupação. Não queria que o livro fosse visto nas livrarias como um livro para crianças porque ele não é. Ao mesmo tempo, não queria uma capa séria demais porque o Felipe é tão divertido, sabe? Sou 300% suspeito para dizer, mas, no fim das contas, fiquei apaixonado por essa capa. Acho que ela retrata um momento importante na história (e na vida toda de Felipe) e as cores passam a ideia de diversão e romance que eu queria passar. E eu particularmente adoro encontrar referências às minhas coisas favoritas quando estou lendo um livro. Então, tive o cuidado de colocar referências que conversassem com o meu público e fizessem todo mundo rir e enxergar o mundo de Felipe como o nosso mundo real. A história não tem muitas “locações”. Se você parar para pensar, Quinze Dias acontece basicamente dentro de um apartamento, e colocar referências à cultura pop foi a minha forma de ampliar o mundo de Felipe e também de mostrar um pouco de quem ele é. Cada referência que ele faz revela um pouco da personalidade dele, e eu acho que isso ajuda muito a conquistar o leitor e a apresentar os personagens”.

Agora, a pergunta que todos fazem: Quinze Dias terá uma continuação?

“Desde que o livro saiu, essa é A PERGUNTA QUE EU MAIS RESPONDI, REAL OFICIAL”, garantiu. “Tem gente que já chega falando ‘TERMINEI, CADÊ A CONTINUAÇÃO????’, e eu acho isso incrível porque significa que as pessoas estão realmente dispostas a conhecer mais sobre a vida de Felipe e Caio. Mas, sinceramente, eu não sei. Eu ainda não sei o que acontece depois do décimo quinto dia. Não sei se os relacionamentos duram muito tempo ou se acabam na semana seguinte. Não sei o que acontece com os babacas da escola. Não sei se Beca e Melissa ainda estão juntas. Por enquanto, ainda não tive saudades desses personagens. Eu dei quinze dias de vida para eles e fiz eles aproveitarem ao máximo. Se um dia eu achar que Felipe tem mais alguma coisa para dizer, vou escrever uma continuação. Mas, por enquanto, estou satisfeito com como a história acaba”.

Se, por um lado, a história de Felipe e Caio, por hora, não terá novos desdobramentos, a certeza é de que, no geral, a trama ficará para sempre na mente e nos corações desses jovens que, graças a Vitor, se encontraram e se conectaram com esses personagens.

“Os jovens são leitores exigentes, inteligentes e sedentos por histórias”, concluiu. “Essa inclusão da diversidade na literatura YA começou porque os leitores tinham essa necessidade de se enxergar nos livros. Ninguém ficava mais satisfeito de ver os casais héteros e brancos em todos. os. livros. Os autores escrevem, as editoras publicam e isso tudo faz o mercado girar. Muitos jovens abandonam a leitura porque não conseguem relacionar a sua vida com o que está nas páginas. Contar histórias sobre pessoas que nunca são representadas em lugar nenhum (livros, séries, filmes, TV) é importante demais porque isso cria um ambiente seguro e aconchegante para receber esses leitores e seus respectivos traumas. A gente cresce enxergando a leitura como uma obrigação quando, na verdade, ela pode ser divertida e impactante ao mesmo tempo”.

 

 

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada "literariamente". Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de "A Bela e a Fera".

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