Entrevista: Eric Novello

Em entrevista ao Vai Lendo, o escritor Eric Novello fala sobre o seu novo livro, ‘Ninguém Nasce Herói’, publicado pela editora Seguinte, a mistura entre a realidade e a ficção e os rótulos na literatura

Uma realidade fantasiosa. Uma fantasia bastante real. Essa linha tênue entre aquilo que vemos e imaginamos é justamente a fonte de inspiração do escritor carioca Eric Novello ao desenvolver as suas tramas, cheias de referências mágicas, sobrenaturais, mas com aquele pé na realidade. Essa mistura muito bem elaborada – aliada ao talento e à criatividade do escritor – já conquistou centenas de leitores. Agora, com seu novo livro, Ninguém Nasce Herói, publicado pela editora Seguinte, Eric nos apresenta um cenário que, pensando bem, já não parece tão fictício assim.

Se, nessa nova obra, distribuir livros na rua – num Brasil futurista – é considerado um ato de rebeldia, para Eric, a literatura é justamente a libertação. O escritor ressaltou que os livros são a sua forma de se expressar e de entender o mundo, portanto, não se omite ao abordar temas e levantar questões que lhe parecem pertinentes.

Arte do site do autor Eric Novello realizada por Jéssica Lang / Reprodução site oficial

“Depois de participar da 1ª Flipop (o Festival de Literatura Pop criado pela editora Seguinte), só consigo pensar em uma coisa: livros salvam vidas”, declarou Eric em entrevista ao Vai Lendo. “Pelas histórias que vivemos através deles e pelos amigos que fazemos graças a eles. A experiência do fim de semana na Flipop mostrou isso aos participantes de mais de uma forma. Livros criam pontes; pontes para parte de nós mesmos que tínhamos medo de olhar de frente, pontes entre nós e outras pessoas. E isso faz do livro um instrumento de libertação antes mesmo de a gente pensar sobre um conteúdo específico. A literatura é minha forma de entender o mundo, e meu processo de reflexão constante acaba se refletindo nos meus livros, e isso vai de política a amizade, de preconceito a sexo, de corações partidos a governos autoritários. Tudo tem o seu espaço numa boa história”.

Para levantar esses debates com os leitores e gerar uma emoção, um questionamento, contudo, Eric afirmou que é fundamental que o público consiga se relacionar, se identificar com a história e seus personagens. Por isso mesmo, ele indicou, ainda que escreva fantasia, a realidade é sempre a origem de tudo

‘Ninguém Nasce Herói”, de Eric Novello / Divulgação

“Gosto bastante de brincar com essa mistura (realidade e fantasia), e, em cada livro, a percentagem dos ingredientes varia”, explicou. “Mas tem uma coisa que eu gosto de manter constante: a realidade é sempre a base de criação dos meus personagens. Para que eles sejam pessoas de verdade, próximas da gente. Pode ser um garoto que grava vídeos para o Youtube ou uma menina necromante com um gato de fumaça de estimação, sempre busco esse grau de identificação para o leitor. Não considero que exista um ponto de equilíbrio ideal. Isso vai da proposta de cada autor para o seu texto e do talento dele para executar o que se propôs. A verdade é que você pode ler um livro super realista e não se identificar com ninguém, não conseguir se conectar com nenhum personagem, e pode ler uma ficção científica passada no espaço e entender a motivação de cada personagem envolvido na história e se sentir parte dela”.

Tamanha consciência a respeito do seu papel como escritor e da importância dessa conexão com os leitores vem também do olhar aguçado desenvolvido através da tradução. Se dividindo entre as duas funções, Eric exaltou a experiência de ter que estudar minuciosamente outros textos ao traduzi-los e, com isso, se aprimorar também como autor.

“As duas opções apresentam desafios e são prazerosas de maneiras diferentes”, apontou. “Ser tradutor me fez ter mais contato com literatura Young Adult. Talvez o Ninguém Nasce Herói não fosse um YA se não fosse por isso. Mas acho que a influência da tradução está mais para o seguinte: toda leitura é um aprendizado, e na tradução fazemos uma leitura minuciosa, observando sutilezas, aprendemos a decompor e a recompor o texto de outro autor, então, é um estudo valioso quando o livro é bom”.

Eric Novello / Reprodução Facebook

Eric também fez um balanço do mercado nacional para novos autores e para o gênero de fantasia e atestou que é necessário um bom texto para começar e principalmente se firmar na área. Ainda que, para ele, falte investimento do governo em ensino de qualidade e fomento à leitura – o que consequentemente se reflete num consumo de livros muito baixo para o que poderia ser – o espaço para a literatura fantástica, no caso, e escritores iniciantes está, sim, se abrindo.

“É um mercado difícil, sem dúvida”, disse. “Então, o segredo para mim foi sempre entregar o melhor texto que eu podia escrever naquele momento, ser exigente com meu próprio trabalho, independente de estar escrevendo para adultos ou para jovens, independente de ser um livro contemporâneo ou uma fantasia. Se você tem um bom texto, se você tem um livro consistente, e arruma um jeito de ser visto – de preferência que não seja enchendo a paciência dos outros em todas as redes sociais – as portas acabam se abrindo. Para quem está começando, hoje existem plataformas como Wattpad e Sweek, publicação independente, on demand, Catarse, Medium, publicação pela Amazon, concursos de contos. É só não cair na armadilha de ter pressa para publicar e garantir que o seu texto tenha qualidade antes de espalhá-lo por aí. Quando publiquei o meu primeiro livro, no final de 2004/começo de 2005, esse espaço para fantasia realmente inexistia. Até autores estrangeiros – exceto Anne Rice e Stephen King – eram raros nas livrarias. Mas atualmente a situação do mercado é completamente diferente. Várias editoras foram compradas, se transformaram em selos de grupos maiores, houve a entrada de grupos estrangeiros fortes no Brasil, grupos esses que não torcem o nariz para a fantasia, então, o cenário está em processo de mudança. Olhando de fora pode parecer que há uma resistência à fantasia como um todo, mas não é bem assim. Tive a oportunidade de conversar com editores de diversos selos e editoras ao longo dos anos, e o que vejo é que as opiniões são bastante diversas. Às vezes, é a opinião de um editor e parece que é a opinião de todo o mercado. Editoras independentes geralmente estão abertas a novos autores, inclusive os de fantasia, e nas grandes editoras, aí é uma questão de esquecer esse debate sobre gêneros e apresentar a sua história como um bom livro, que é o que importa no final”.

Bastante seguro, Eric rechaçou rótulos e ratificou que o mais importante é o escritor passar a história da maneira que imaginou, sem se preocupar em classificá-la. A prova disso é uma brincadeira que ele mesmo incluiu em seu site pessoal, ao afirmar que escreve “livros contemporâneos para jovens e fantasias para adultos”.

“Coloquei essa frase no meu site mais para ser implicante”, concluiu. “Porque, apesar dos livros de George R.R. Martin, por exemplo, muita gente ainda diz que fantasia é um gênero só para crianças, o que não faz o menor sentido. Sendo sincero, nos meus livros eu venho tentando apagar cada vez mais essas fronteiras entre um gênero e outro. O Ninguém Nasce Herói, por exemplo, pode ser lido como uma distopia ou como um contemporâneo. Mesmo quanto à idade do público, gosto de pensar que escrevo livros para todas as idades. Vamos deixar as etiquetas para o mercado e escrever as histórias do jeito mais fiel possível à nossa imaginação. E, se essa for uma questão muito agoniante para um autor, deixo um conselho: procure um agente literário de confiança, marque um café e tenha uma conversa produtiva”.

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada “literariamente”. Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de “A Bela e a Fera”.

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