‘Quando a Liberdade Vira Pó’: o verdadeiro olhar sobre o sistema penitenciário brasileiro

Ao Vai Lendo, Pedro Madsen Andrade e a jornalista Fernanda Portugal falam sobre o processo de transformar o depoimento do empresário sobre a sua experiência como presidiário em livro

Esqueça tudo o que você acha que sabe sobre as prisões no Brasil. Perto da realidade, o nosso conhecimento sobre o sistema penitenciário é praticamente ínfimo. E isso diz muito sobre a nossa sociedade. Mas é de dentro de uma cela que, de fato, podemos começar a entender o tamanho do problema e as falhas. E é exatamente isso o que Pedro Madsen Andrade faz ao retratar a própria experiência dos 498 dias em que esteve preso no Complexo de Gericinó, no Rio de Janeiro, em depoimento à jornalista Fernanda Portugal, o que resultou no livro Quando a Liberdade Vira Pó, lançado pela Babilonia Cultura Editorial.

“Quando a Liberdade Vira Pó”, Pedro Madsen Andrade em depoimento a Fernanda Portugal / Divulgação

Pedro, empresário de classe média carioca, aos 27 anos, viu a sua vida mudar radicalmente quando, devido ao vício em cocaína, se tornou um presidiário. Depois de passar por três unidades da penitenciária, ele não se omite ao relatar a experiência, sem qualquer omissão ou rodeios. Quando a Liberdade Vira Pó, segundo Pedro, se diferencia pelo tom sincero, com o objetivo de atingir e inspirar as pessoas a tentarem mudar o sistema.

“Esse livro representa a minha redenção”, declarou Pedro em entrevista ao Vai Lendo. “É um símbolo. Um piloto de corrida ganha uma corrida ao cruzar a linha de chegada. Mesmo assim, ele sobe ao pódio para receber o troféu. Esta obra é o meu troféu. Ganhei a corrida ainda dentro da prisão quando, em meio a uma opressão enorme, apesar de todo meu sofrimento, ainda assim, consegui me manter são e ajudar outras pessoas. Creio que o livro tem duas grandes vertentes: a primeira é a minha história. Uma história como a minha inspira pessoas em dificuldades a encararem os seus problemas, seja lá quais forem. E eu estou aqui para comprovar, o que serve de estímulo extra. A segunda vertente é uma história de todos os brasileiros: violência, corrupção e tráfico. Isto está no dia a dia de cada cidadão tupiniquim. No entanto, ao abordarmos este assunto de uma forma transparente e sincera, expondo os problemas pela ótica do cidadão, falamos a linguagem da população e nos comunicamos melhor com ela. Portanto, espero que as pessoas entendam que não há recuperação para a máquina pública brasileira. Esperar um processo endógeno de renovação é utopia e, portanto, se nós, os cidadãos comuns, não nos engajarmos nas engrenagens e meandros deste sistema, nunca haverá um alvorecer que nos livrará desta eterna penumbra noturna que é a vida do cidadão comum sob a tutela do inchado e pesado estado brasileiro”.

Uma das maiores preocupações de Pedro em relação ao livro era conseguir passar todo o conteúdo através de uma linguagem inteligível. Por isso mesmo, a jornalista Fernanda Portugal, apaixonada por reportagens policiais, decidiu transformar a obra em uma.

“Há alguns anos, era bastante comum, nos jornais impressos, a produção de séries de reportagens especiais, publicadas aos capítulos, com textos mais elaborados do que os das hard news (estes, sim, feitos sob pressão, em questão de minutos e bem objetivos)”, explicou Fernanda ao Vai Lendo. “Procurei fazer o Liberdade como se fosse uma daquelas reportagens especiais. O desafio maior, na verdade, foi o de ‘trançar’ a história com idas e vindas no tempo. Nas entrevistas, o Pedro contou tudo em ordem cronológica: da infância ao pós-prisão. Mas, para tornar a narrativa dinâmica e jornalística, ela precisava dessas idas e vindas, subidas e descidas, curvas e retomadas de retas. Então, era preciso costurar todo o conteúdo com ganchos/links para o leitor não se perder neste labirinto”.

Para Fernanda, a mistura do jornalismo com a literatura é uma forma não apenas de quebrar paradigmas e instigar discussões relevantes, mas também e principalmente gerar reflexões nos leitores sobre temas tão importantes e ainda tão pouco trabalhados, como o levantado em Quando a Liberdade Vira Pó.

“Hoje, o jornalismo ainda é, acredito, a forma mais ágil para colocar as questões em debate e tentar reverter tabus”, apontou ela. “Mas a literatura, embora mais lenta, vai mais fundo, dá tempo ao leitor para ‘respirar’ e pensar. Se este livro gerar, para pessoas que nunca sequer pensaram no assunto, ao menos reflexões sobre este ‘ovo da serpente’ que é o sistema carcerário, já terá cumprido um grande papel. Como diz a advogada Maíra Fernandes, que também entrevistei para este trabalho, ‘parcela significativa da população deseja que [os detentos] sejam tratados como insetos e defende que as prisões sejam terríveis. Mas não temos prisão perpétua nem pena de morte: eles vão sair da cadeia piores, doentes, e vão circular de novo pela sociedade. Nosso desejo é exatamente este: que o leitor seja transportado para dentro da prisão, a partir do olhar do Pedro, que é um ‘olhar de estrangeiro’ ali. Ele próprio nunca tinha ouvido falar de nada daquilo antes. Então, ele consegue perceber o absurdo, ao contrário da maioria dos outros homens que ali estão, que acham tudo ‘normal’, por serem oriundos da realidade das favelas, do desemprego, da pobreza… ‘”.

“Quando a Liberdade Vira Pó” / Divulgação

Pedro ratifica a visão da jornalista e ressalta também a importância do livro no que diz respeito ao entendimento do problema, das falhas do sistema penitenciário.

“O livro é paradigmático”, indicou ele. “É uma exposição, um ícone do que não deve ser feito no sistema penitenciário. Por isso, tem tudo para ser um marco. Pela primeira vez, as pessoas têm a oportunidade de realmente conhecer o problema. Todos sabem que acontecem coisas ‘escusas’ no sistema penitenciário, mas não sabem exatamente ‘o quê’ e nem ‘como’. O livro traz à tona esta sujeira que, até então, estava debaixo do tapete. Quem mais chegou perto de explorar este submundo foi o Dr. Varela. Mas o campo de visão dele ficou limitado do portão de entrada até as grades das celas. Eu trago a visão das grades para dentro da cela, o que é totalmente novo. Isto, casado com uma ‘perspectiva do cidadão comum’ e não do bandido, fez nascer esta abordagem que tanta curiosidade desperta no público em geral”.

Ao transformar o depoimento de Pedro em livro, Fernanda, como qualquer jornalista que atua nessa área, encarou aquela linha tênue entre o lado pessoal e o profissional. Afinal, não era apenas uma pauta, era a vida de um ser humano. Uma oportunidade de fazer a diferença e reafirmar o compromisso social vinculado à profissão.

“Trabalhei com reportagens policiais durante 11 anos, até 2007, e frequentemente estava em contato com pessoas que tinham seus direitos mais básicos violados”, concluiu. “Por isso, não foi surpresa um relato como o do Pedro. Desalentador é perceber que os anos passam e nada muda. Fazer jornalismo nesta área é sempre angustiante. Junto com a pauta de cada dia, vem a angústia de querer e, ao mesmo tempo, não querer encontrar um ‘personagem’ para a matéria. É a sensação que aparece quando, por exemplo, temos de escrever sobre violência urbana e precisamos achar uma vítima de bala perdida que gostaríamos que não existisse. O lado pessoal e o profissional se misturam, não tem jeito. Há quem não acredite, mas esses repórteres também são seres humanos ‘normais’, não gostam de tragédias. Só que os ‘personagens’ estão por aí, não há como escapar. Só nos resta escrever sobre eles. E, como eu digo a certa altura do livro, a eles, muitas vezes, só resta que os jornalistas escrevam suas histórias. É a última trincheira. Esta é a função dos jornalistas que escrevem sobre Direitos Humanos e casos policiais: denunciar os dramas do dia a dia através de exemplos concretos. E torcer para que, um dia, eles deixem de existir”.

Pedro Madsen Andrade e a jornalista Fernanda Portugal / Divulgação

Pedro – graduando em Psicologia e Teologia -, que hoje trabalha com aconselhamento em dependência química e faz palestra sobre a sua experiência na prisão, exaltou ainda o método de ressocialização denominado APAC, implementado no sul de Minas e levado há quatro anos para o Paraná, que reduziu o custo do interno de quatro para um salário mínimo e levou a taxa de reincidência em cimes de 85% para 2%. O empresário, que tinha acesso restrito aos livros na cadeia, disse acreditar que os livros podem ajudar os presos a mudar a sua visão de mundo e ter novas perspectivas.

“O Ministério Público promoveu um evento no dia 21 deste mês para a reativação do Conselho da Comunidade no Rio de Janeiro”, explicou. “Me voluntariei para fazer parte do conselho, e prontamente fui aceito. Espero contribuir para que esta realidade de violência que consome diretamente as pessoas menos favorecidas social e financeiramente – e indiretamente as classes mais favorecidas – possa se transformar em uma realidade de recuperação de pessoas. Em Bangu 9, só tinha livros porque minha família levava para mim. No Plácido de Sá Carvalho até havia uma biblioteca, mas não havia nenhum tipo de sinalização ou aviso, e muitos presos sequer sabiam da sua existência. E os que sabiam não eram bem recebidos. Era permitido permanecer no local alguns poucos minutos para a escolha de um livro que se levaria para a cela para ler, e deveria ser devolvido alguns dias depois. Acredito que você possa, com muita dificuldade, chegar aos penitenciários, mas, mesmo se chegar, eles não se abrirão com você simplesmente por medo e desconfiança. Creio que a leitura é uma das muitas ferramentas que, combinadas, podem ajudar um preso a rever sua cosmovisão de mundo. A leitura, em especial de uma obra como a minha, serve de estímulo para os que estão passando pelo momento turbulento que é a prisão. Por outro lado, uma parcela considerável é analfabeta e, dentre os que são alfabetizados, creio que uma porcentagem considerável seja de analfabetos funcionais, o que limita muito o campo de ação da leitura. Por este motivo devem ser ações combinadas, e a leitura apenas uma delas”.

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada "literariamente". Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de "A Bela e a Fera".

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