Entrevista: Viviane Maurey

Em entrevista ao Vai Lendo, Viviane Maurey, autora de ‘#Fui’, publicado pela Globo Alt, falou sobre a transição da carreira de editora para escritora, marketing editorial e internet

Ela é jornalista, trabalhou com marketing e foi editora do selo Rocco Jovens Leitores, da editora Rocco, durante quatro anos. Tanto talento e diversidade só poderia resultar numa coisa: um livro, é claro. A carioca Viviane Maurey acabou de publicar o seu primeiro livro, #Fui, pelo selo Globo Alt, da Globo Livros e, hoje, dedica-se integralmente à carreira que sempre esteve presente não apenas no seu dia a dia, mas também em seu inconsciente. No livro, sua protagonista faz uma viagem de intercâmbio que acaba sendo uma jornada de autodescoberta. E é exatamente essa a sensação que a agora autora sentiu ao terminar a sua primeira obra.

Foto: arquivo pessoal/Facebook da autora

“Gosto de acreditar que descubro coisas novas sobre mim a cada experiência”, declarou Viviane em entrevista exclusiva ao Vai Lendo. “Escrever um livro e, ainda mais importante, terminar uma história, por si só, já me trouxe coragem e autoconfiança para continuar no meu caminho de escritora. Só então soube o quanto eu podia ser persistente e organizada. Foi uma baita descoberta (risos!). E escrever #Fui foi, de muitas maneiras, libertador. Eu também fiz uma viagem de intercâmbio para a mesma cidade há uns anos e, na época, como a Lully, eu tinha muitas certezas. Entrar em contato comigo mesma, com as lembranças da minha experiência, enquanto escrevia as aventuras da Lully (que são bem mais interessantes!) foi enriquecedor e terapêutico. Pude colocar em perspectiva decisões e situações em que passei e absorver melhor o que um intercâmbio significa pra mim, que é justamente a oportunidade de a pessoa se encontrar. Sem contar com todas as emoções que passei enquanto escrevia o livro e que me fizeram acreditar mais em mim mesma! #Fui é inspirado na minha viagem, mas seria injusto com a Lully dizer que somos a mesma pessoa. Ela passou por situações que eu nem sonharia em passar e decidiu caminhos que eu viveria apenas em sonhos. Acho que por isso digo que foi tão libertador escrever a história da Lully”.

Para Viviane, conhecer o processo editorial ajudou muito na hora de desenvolver o seu próprio projeto. Ela, que também é revisora e tradutora (ufa!), destacou que esse entendimento lhe deu mais disciplina e desenvoltura e permitiu que pensasse de uma maneira mais estratégica. O trabalho com marketing também garantiu, segundo uma ela, uma consciência intrínseca de pensar em elementos que possam ser utilizados como material de divulgação. Nada disso, porém, ressaltou Viviane, a impede de sentir aquela ansiedade, o nervosismo de só quem coloca um livro no mundo entende, mesmo que essa vontade venha desde pequena. Ela ainda destacou a carreira de editora como o passo principal para a realização do sonho de virar autora.

“Desde pequena me considero escritora”, afirmou. “Amava aula de redação na escola, português, inglês, mantinha diário escrevendo nas duas línguas e contava histórias para quem quisesse escutar. Ter me tornado uma editora e viver isso por quatro anos foi, na verdade, o maior passo que eu dei para me tornar uma autora. Foi quando oficializei para mim mesma o meu desejo de amadurecer meu texto trabalhando com o que mais amo nesse mundo: livros. Meu lado editora e meu lado autora caminham de mãos dadas. Hoje em dia, nem se eu quisesse conseguiria separá-los. É como emoção e razão, sem querer fazer analogia ao significado de cada um, mas digo isso no sentido de um completar o outro. E acredite quando eu digo que os dois lados são tão barulhentos que, às vezes, preciso recorrer ao terceiro, o da jornalista, para eleger as melhores informações e aproveitar melhor cada ponto de vista. Viver na minha cabeça, olha, só digo isso: não é nada entediante (risos!)”.

Com uma capa muito elogiada pelo público – e inspirada numa tatuagem da própria autora – , Viviane exaltou a parceria com a própria editora na hora de pensar no material de divulgação do livro. Uma vez que ela também atuou nessa área, Viviane destacou a mudança que a internet impôs ao trabalho de marketing das editoras, tornando os livros mais acessíveis.

“Minha agente literária, Lucia Riff, sugeriu na época que eu enviasse junto com o arquivo final do livro ideias de marketing, de promoções, de brindes e de material de divulgação e foi o que eu fiz e, desde o início, a equipe de marketing da Globo Alt foi parceira e me ajudou muito a concretizar essas ideias”, garantiu. “Nós trocamos muitos e-mails (costumo avisar quando faço uma ação nas minhas redes sociais) e coordenamos ações sempre que possível, e eles são super pacientes com tudo, mesmo eu lotando a caixa de entrada deles com pedidos absurdos (risos!). Já em relação à internet, a questão toda, pra mim, é a alcançabilidade. O ponto de venda, a loja em si, é importante, sem dúvida, mas infelizmente não temos livrarias em todos as cidades e estados do Brasil. A internet propõe formas alternativas não só de divulgação, mas de compra, permitindo ao público acesso a qualquer livro. As editoras agora podem trabalhar divulgação livro a livro nas redes sociais, sem grandes custos, e com potencial de visibilidade muito maior que no ponto de venda, que, por conta da competitividade, não dá conta de abrir espaço para todos os títulos. Além disso, nas redes sociais, você fala diretamente com o público-alvo, recebe direto da fonte conhecimento do que está sendo pedido, do que os leitores preferem, gostaram ou não gostaram. Não tem pesquisa de campo mais transparente que essa, e para o marketing conhecer o leitor é primordial”.

Por falar em conhecer o leitor, destacou a importância de os autores estreitarem os laços com o público e utilizarem bem as redes sociais, inclusive, para chamar a atenção das editoras.

“É maravilhoso que a internet proporcione esse crescimento de novos leitores e novos escritores, que mais pessoas estejam interessadas em criar universos e dividir suas histórias e visões de mundo”, declarou. “As editoras estão de olho nisso, posso dizer por experiência própria. No entanto, a competitividade acaba existindo, ainda mais sendo um mercado difícil e em crise. Se o novo autor não se mostrar, não divulgar sua obra, seu talento, sua capacidade de engajar leitores, a editora dificilmente vai querer investir nessa pessoa. Atualmente, temos à disposição tantas plataformas online que oferecem distribuição gratuita das obras; o novo autor que não estiver a par dessas possibilidades ou não estiver disposto a encarar o desafio pode encontrar dificuldades para entrar no mercado. Quando já se tem um público cativo, leitores que acreditam em você, a editora olha para esse autor com mais confiança, mais certeza de que é um bom investimento. Faz toda a diferença”.

Depois dessa “mudança de lado”, Viviane também precisou lidar com os leitores de uma maneira bem mais direta. E, pela primeira vez, estar no centro das atenções do público e ter o seu próprio livro resenhado – algo que ela também fazia, mas, claro, com os livros dos outros. Mas nada disso a incomoda. Pelo contrário! Ela destacou a interação dos leitores como parte importante do processo e principalmente como forma de aprendizado.

“Na época em que publiquei o meu primeiro conto na Amazon, Papel de Sangue, e tive meus primeiros feedbacks cheguei a dizer numa entrevista que ‘pela primeira vez, eu senti a experiência completa de ser uma autora’, quando alguém lê o que você escreve e comenta”, explicou. “Em se tratando de etapas, eu deixei de ser escritora para registrar uma autoria e dividir publicamente minha visão de mundo. O retorno dos leitores, as resenhas – sejam elas positivas ou negativas – são a base da divulgação e do consentimento. Quanto mais feedback, mais o autor entra em contato com a própria obra, através do ponto de vista de várias pessoas, e mais ele aprende, seja sobre si mesmo, sobre legado, humanidade, comportamentos e até mesmo sobre o que não se deixar influenciar. O retorno do #Fui tem sido muito mais positivo do que meu lado inseguro poderia me permitir imaginar. Estou surpresa com o carinho, com a sensibilidade e, sobretudo, com o entusiasmo dos leitores em compartilhar suas considerações sobre os conflitos da Lully. Já chorei tanto com alguns e-mails… Como as pessoas são generosas e sensíveis, uma compaixão que me deixa sem palavras e me dá forças para querer continuar escrevendo mais e mais. É, sem dúvida, a maior gratificação de um autor”.

 

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada “literariamente”. Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de “A Bela e a Fera”.

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