Entrevista: Cristina Sánchez-Andrade

O Vai Lendo conversou com a escritora espanhola sobre seu livro ‘As Invernas’, publicado no Brasil pela Tordesilhas, o espaço das mulheres na literatura e a troca de experiência com leitores ao redor do mundo

Ela é considerada uma das vozes femininas contemporâneas mais atuantes na literatura. Seus livros geralmente abordam temas delicados, principalmente do universo das mulheres, e levantam debates relevantes. Em seu novo livro, As Invernas, publicado no Brasil pela editora Tordesilhas, a escritora espanhola Cristina Sánchez-Andrade mostra a rivalidade e o amor entre duas irmãs e resgata a tradição oral dos contadores de histórias, especialmente os da Galícia, onde a trama se passa. Filha de mãe galega e de pai britãnico, Cristina contou exclusivamente ao Vai Lendo que fez questão de resgatar memórias da infância porque é a partir disso, segundo ela, que se forma a tensão entre o real e o imaginário que afeta o adulto para sempre.

“No caso de As Invernas, a narração oral está presente não apenas porque as histórias que se misturam ao romance – ao longo da narrativa – são reais, mas também os personagens se dedicam a contar histórias junto ao fogo, na lareira da casa”, explicou Cristina. “Quase tudo o que aparece na narrativa eu escutei ou vi quando era pequena, na Galícia. Pensei que, através do testemunho oral, poderia captar com maior intensidade a cultura espiritual e essa dimensão mágica tão características do povo galego e que, de certo modo, também herdou a cultura brasileira. Nos contos está todo o legado de premonições, vidências e aparições derivados da superstição ou da religião. Creio que esse território da infância é muito importante na hora de escrever. Torrente Ballester, um escritor galego, dizia que a cultura, as crenças não vinham de estudos na Universidade, mas, sim, pelo que escutamos nas casas de nossas avós. Efetivamente, a tradição oral está se perdendo. Para os mais jovens é mais fácil pegar um tablet, um celular, um computador… E isso é uma pena porque não se lembrarão das histórias de suas avós e acabarão esquecendo-as”.

Foto: divulgação

Cristina, que também é jornalista, mescla momentos históricos com ficção em As Invernas, agregando informação e criatividade numa narrativa tocante e surpreendente. Para ela, contudo, o importante é ter sempre curiosidade e saber onde buscar o conteúdo, o material para desenvolver uma boa história.

“A minha formação jornalística me ajuda como qualquer outra informação na hora de escrever”, afirmou. “O importante é ser curioso e saber ir nas fontes certas quando um tema lhe interessa. A opção pelo tema histórico, neste caso, serviu apenas como um cenário. Na verdade, parti de um momento real na história da Espanha, em que Ava Gardner chega ao país para rodar Os Amores de Pandora (1951). Foi nos anos 1950, e, a partir daí, coloquei os meus personagens neste tempo para que eles pudessem ter uma conexão com o mundo do cinema – já que elas queriam ser atrizes”.

Citada como referência feminina, principalmente na literatura espanhola, Cristina, no entanto, rechaçou a impressão de que se sente compelida a abordar regularmente essas questões de gênero. A autora exaltou a presença e a força das mulheres no meio literário, porém, confirmou que há, sim, uma dificuldade maior para as autoras já publicadas serem reconhecidas ao longo de suas carreiras. Ela também citou Clarice Lispector, como inspiração, e nos contou ainda que terminou a tradução para o espanhol de “uma das suas melhores biografias”, escrita por Benjamim Moser.

“Não sinto qualquer tipo de pressão ou urgência para falar sobre as questões femininas”, indicou. “Não é algo que se faça intencionalmente. Sinceramente, não acredito que seja mais difícil para uma mulher do que para um homem publicar pela primeira vez. O que acontece é que, por algum motivo, uma vez que uma mulher tenha publicado e alcançado certa fama, é muito mais difícil ela continuar subindo na carreira. Na Espanha, pelo menos, nove ou dez nomes de escritores famosos são de homens. E há mulheres escritoras muito boas, com uma carreira extensa, porém, das quais ninguém nunca ouviu falar.  Parece que, aqui, a literatura séria está associada aos homens e que consequentemente as mulheres só escrevem coisas ‘superficiais’. Mas para tudo há exceções.  De qualquer forma, abordo em meus livros aqueles temas que mais me interessam. Não penso inicialmente em falar sobre o que pode ajudar as mulheres em sua luta por igualdade. O que me interessa tanto quanto escritora como leitora são as obsessões. O cineasta checo Svankmajer dizia que, ao criar, temos que abandonar inteiramente a sua obsessão porque as obsessões são as relíquias da infância. Não se trata de recordações, mas de sensações. Não da consciência, mas do inconsciente. Clarice Lispector, escritora brasileira que admiro muito, era mestre nisso. O seu exemplo é muito eloquente. Não acredito que ela estivesse pensando em temas femininos na hora de escrever. Ela simplesmente escrevia o que vinha do seu interior.  Mas o problema é mais à frente. No momento em que as mulheres tentam colocar seus nomes em algo mais sério, como, por exemplo, ocupar uma cadeira na Real Academia. Aí é difícil ter esse reconhecimento. Por isso que temos a sensação de que as autoras precisam se esforçar mais. Para demonstrarem coisas óbvias, que, talvez para os homens, são mais facilmente adquiridas. Só posso agradecer por As Invernas continuar sendo bem recebido, no geral”.

Sucesso de público e de crítica não apenas em seu país, mas também ao redor do mundo, Cristina destacou que o mais interessante é observar o aspecto pelo qual o livro é trabalhado em cada lugar e principalmente poder conversar e compartilhar essas experiências com os mais variados leitores.

“É muito curioso e bonito, ao mesmo tempo (lidar com leitores de diferentes países e ser publicada em outros lugares”, declarou. “Como este livro foi traduzido para muitos países, entre eles os Estados Unidos, percebi que cada lugar demonstra um interesse por um aspecto em particular. Alguns se interessam mais pela questão do tema histórico e a conexão que eles podem fazer com um determinado país, outros se interessam mais pela questão do coletivo… É uma experiência muito bacana poder conversar os leitores de cada país. Outro fenômeno também muito diferente é a questão das capas dos livros. Cada país tem a sua logicamente, e cada uma foca em um aspecto. Por exemplo, no Brasil, me encantou que tenham focado no tema  do comportamento humano (com as ovelhas na capa), de como nós nos misturamos com a massa porque é mais cômodo e não temos muito o que pensar. Esse é um aspecto que me interessa muito, inclusive: as ações das pessoas que resolvem se ‘esconder’ através da massa e como a massa anula a vontade particular do indivíduo. No geral, esse é um tema que, de uma forma ou de outra, costuma surgir nos meus romances. Definitivamente, somos como as ovelhas dessa capa”.

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada “literariamente”. Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de “A Bela e a Fera”.

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