Entrevista: Luiz Fernando Vianna

O jornalista Luiz Fernando Vianna fala ao Vai Lendo sobre o seu livro, ‘Menino Vadio’, que traz uma uma visão direta e verdadeira sobre os prazeres e desafios de cuidar de um filho autista

O amor incondicional. De alma. Aquele amor que cuida, que sofre, que ri e chora. Capaz de encarar todos os desafios e enfrentar as mais difíceis e angustiantes batalhas. Um amor que lida com todas as provações, doenças e preconceitos. O amor de pai e filho. Único, intenso, visceral. O jornalista Luiz Fernando Vianna levou para as páginas a sua relação com o filho Henrique, que é autista. Em Meu Menino Vadio – Histórias de um Garoto Autista e seu Pai Estranho, publicado pela Intrínseca, ele transcreve de maneira extremamente verdadeira a sua experiência, abrindo o coração e desmistificando certas premissas da sociedade.

Divulgação/Intrínseca

Com surpreendente desprendimento, Vianna não se omitiu ao abordar os desafios de cuidar de um filho autista. Mesmo com todos os prazeres e alegrias que essa relação lhe proporciona, o jornalista destacou também os momentos de desespero e as dificuldades que surgiam e ainda surgem. Para ele, no entanto, transformar tudo isso em livro levou tempo, até para que conseguisse lidar com suas próprias questões internas.

“Em 2013, depois que publiquei um artigo na ‘Folha de S. Paulo’, achei que estava chegando a hora de revisar o que tinha acontecido na vida do meu filho”, contou Vianna em entrevista ao Vai Lendo. “Ele já tinha, então, 13 anos, passara por situações muito difíceis, várias terapias e escolas… Minha raiva em relação a várias coisas já era menor, então podia começar a pensar em escrever. Por ser jornalista, é o que eu sei fazer. Se fosse médico ou engenheiro, tentaria outros caminhos. Foi mais difícil do que eu imaginei, tanto que o livro só foi publicado em 2017. Mas procurei me manter fiel ao desejo de contar a história sem muita censura, fazendo inclusive autocríticas, para que os leitores percebam as dificuldades (e os prazeres) inerentes a ser responsável por uma pessoa com autismo”.

Ao optar por uma abordagem mais direta e não romantizada da situação, Vianna tinha a consciência de estar exposto ao julgamento da sociedade. Embora houvesse preocupação com opiniões futuras, ele ressaltou a necessidade de ser sincero com o público e principalmente de não se submeter a pressões e interferências externas, ainda que sua abordagem possa causar algum desconforto.

“Eu me preocupei, sim (com as opiniões dos leitores)”, afirmou. “Por temperamento, optei por um processo muito solitário. Não queria ficar vulnerável a pressões do tipo ‘isso você não pode escrever’, ‘isso é perigoso’. Queria arriscar mesmo. Mas temia reações negativas, raivosas. Até agora, elas não vieram. Mas acredito que pessoas fiquem incomodadas com a minha forma de abordar certos assuntos. Seria mais suave um livro que ressaltasse os aspectos positivos e no qual eu e Henrique ficássemos menos expostos. Um livro que procurasse ajudar mais o leitor, consolá-lo. Mas não acho que seja o caminho mais sincero. Pelo menos, não para mim”.

Divulgação/Intrínseca

Tema pouco debatido e explorado, o autismo ainda gera dúvidas, inseguranças e preconceitos. No entanto, passou a ganhar certo destaque, ao longo dos últimos anos, principalmente na literatura, despertando o interesse e a atenção. E muito disso, segundo Vianna, se deve ao esforço e à dedicação daqueles que têm propriedade de sobra para discutir o assunto e dar a esse debate a importância que ele merece: os pais.

“Assim como outros transtornos e síndromes, o autismo era, décadas atrás, motivo de vergonha para as famílias”, explicou. “As pessoas eram mantidas escondidas em casa, tinham pouca vida social. Mas, enfrentando muitos obstáculos, os pais têm lutado já há algum tempo para mostrar que seus filhos precisam ser tratados como cidadãos. Em vários campos, aliás, a cidadania vem sendo conquistada contra as vontades de minorias (econômicas, sociais, étnicas) que não querem abrir mão de seus privilégios. As pesquisas sobre autismo estão aumentando, os diagnósticos estão aumentando, o assunto passou a interessar mais à imprensa e a despertar maior atenção. Entrou, portanto, na arena pública, o que resulta na produção de mais livros, especialmente os escritos por pais. Nós vivemos na pele as dificuldades e temos o que contar”.

Divulgação/Intrínseca

Para o jornalista, os livros têm papel fundamental na quebra de paradigmas e na luta contra o preconceito. Contudo, ele destacou, é imprescindível o apoio do Estado para o acesso à informação e na inclusão, uma vez que, hoje, o conhecimento a respeito do autismo é insuficiente.

“Os livros podem informar e causar empatia, quebrando preconceitos”, destacou. “É difícil alguém ficar indiferente ao relato de um pai e não mudar seu comportamento. Mas é fundamental que o Estado faça a sua parte. Monte redes de esclarecimento e atendimento, faça campanhas informativas, trabalhe para valer na educação inclusiva. Não estará fazendo nenhum favor. As pessoas com autismo são cidadãs, seus parentes pagam impostos, o Estado não pode se omitir. No Brasil, a ação pública ainda fica bastante aquém do que deveria. E a sociedade ainda sabe muito menos sobre autismo do que deveria saber”.

Confira a participação de Luiz Fernando Vianna no programa ‘Encontro com Fátima Bernardes’.

 

 

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada "literariamente". Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de "A Bela e a Fera".

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