A Amiga Genial, de Elena Ferrante | Resenha

Review of: a amiga genial
book:
Elena Ferrante

Reviewed by:
Rating:
4
On 17/02/2017
Last modified:10/05/2017

Summary:

Um relato duro, frio e, até mesmo, cruel das relações humanas. Ninguém está imune à narrativa de Elena Ferrante!

‘A Amiga Genial’: uma narrativa arrebatadora e catártica, de uma maneira ou de outra

Uma amizade verdadeira – verdadeira MESMO – é algo raro. Daquelas que você guarda e cuida com toda a atenção e carinho, sabendo de sua importância. Um verdadeiro amigo é aquele que faz a gente crescer, aprender, evoluir. Que chora, ri, ouve e fala. Que briga e pega no colo. Por isso mesmo, uma obra como A Amiga Genial, primeiro volume da série napolitana escrita por Elena Ferrante e publicada pelo selo Biblioteca Azul, da Globo Livros, é quase um soco no estômago. Uma representação fria e quase cruel de uma amizade – se é que podemos chamar assim – que resiste ao tempo… E à vida.

Nesse primeiro livro, começamos a conhecer a história de Elena e Lila, desde a infância das meninas até os seus 16 anos. A trama se desenvolve a partir das memórias relatadas por Elena, anos depois, quando Lila resolve simplesmente desaparecer, sem deixar rastros. Conhecendo a amiga, Elena não se conforma com a sua atitude e decide escrever a história de ambas para provar que Lila não apenas existiu e existe, como também segue firme em seus pensamentos e coração. Ao revirar o passado, somos transportados junto com suas lembranças para a Nápoles de 1950, um cenário pós-Segunda Guerra Mundial, numa vizinhança pobre, machista, conservadora na qual as meninas cresceram e foram descobrindo as mazelas da vida.

Há tempos queria ler Elena Ferrante – pseudônimo de uma escritora italiana que prefere viver e escrever no anonimato – e principalmente os livros dessa tetralogia. E que surpresa. Sinceramente, o primeiro volume não foi o que eu esperava. Longe disso. Foi um turbilhão de emoções, uma avalanche de sentimentos. Fui arrebatada e catapultada pela escrita densa, crua e verdadeira da autora. Li pouquíssimas obras da literatura italiana, e Elena Ferrante mexeu comigo de muitas maneiras. Confesso que inicialmente estranhei um pouco a sua narrativa direta e quase sem diálogos, mas não demorou muito para que a sua capacidade de contar uma história apenas através das memórias da protagonista me envolvessem. Senti que estava também vivendo através das recordações de Elena Greco.

A maneira como Elena – a autora, não a protagonista – descreve aquele tempo, aquela realidade, choca. Anestesia. Uma época em que aqueles que conseguiam prosseguir nos estudos, especialmente as  mulheres, eram considerados exceções e não regras. Como se estudar fosse um luxo, algo tão distante e sem importância para aqueles indivíduos. Uma época em que as mulheres praticamente não tinham – ou melhor, não podiam ter – vontade e opinião próprias. Uma época em que os desafetos não demoravam a chegar às vias de fato. Uma época em que duas meninas encontraram uma na outra uma espécie de fortaleza, de porto seguro para conseguirem sobreviver e seguirem em frente.

Contudo, não se iludam. A Amiga Genial do título, em minha humilde opinião, de genial não tem absolutamente nada. Sim, as duas meninas são inteligentes e esforçadas. E correm atrás de seus objetivos. Mas a que preço? E objetivos de quem? Sinceramente, não consegui vislumbrar uma amizade, no sentido mais pleno da palavra. O que eu percebi foi uma relação completamente tóxica, disfuncional, egoísta e de total dependência uma da outra. Inveja, frustração e muito amargura de ambas. Como se uma só conseguisse evoluir se passasse por cima da outra. Se fosse melhor do que a outra. Isso me incomodou profundamente. Não consegui me conectar com elas. Às vezes, até achei que chegava a ter pena. Mas nem isso. Fiquei foi irritada mesmo pela mesquinharia de uma, pela submissão da outra. Talvez, porque eu não esteja acostumada a um relato tão escancarado, tão denso e tão frio de uma relação humana. Eu sou romântica, gente. Tentei, inclusive, levar em consideração o fato de que essas atitudes, essas personalidades e esse turbilhão de sentimentos são de crianças e posteriormente de adolescentes, num cenário de total subversão de valores. Mas acredito que a essência das duas não irá mudar. E isso, penso, pode ser tão instigante quanto decepcionante.

Entendo que esse primeiro livro tenha sido uma espécie de introdução não apenas às personagens, mas principalmente para nos ajudar a entender os motivos e os caminhos que levaram as duas até onde elas se encontram atualmente e que fizeram Lila querer desaparecer. Estou bastante curiosa para os próximos livros. De uma maneira ou de outra, Elena Ferrante marca a gente profunda e intensamente.

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Um relato duro, frio e, até mesmo, cruel das relações humanas. Ninguém está imune à narrativa de Elena Ferrante!

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada “literariamente”. Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de “A Bela e a Fera”.

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