Bienal 2015: a força e a coragem de Julia Quinn

Em encontro com os leitores na Bienal do Livro 2015, Julia Quinn falou sobre o preconceito com os romances históricos, seu processo de escrita e a personalidade forte de suas personagens

No último sábado (5), tivemos a chance de conhecer vários grandes autores internacionais, na Bienal do Livro 2015. Além do simpático David Nicholls, também participamos do bate papo com Julia Quinn, autora da série Os Bridgertons, publicada aqui no Brasil pela editora Arqueiro. Ovacionada, Julia se mostrou bastante animada pelo contato com seus leitores brasileiros e levou o auditório lotado – composto em sua maioria por mulheres – ao delírio.

Julia Quinn no bate papo com leitores, na Bienal do Livro 2015/Foto: Vai Lendo
Julia Quinn no bate papo com leitores, na Bienal do Livro 2015/Foto: Vai Lendo

Com a consciência de que é responsável por “apresentar” o romance histórico a milhares de leitores, e, até mesmo, “converter” aqueles que nunca tiveram tanto interesse nesse tipo de obra, a escritora norte-americana defendeu o gênero ao comentar sobre o preconceito enfrentado pelos títulos dessa temática, principalmente por, ainda hoje em dia, serem considerados livros apenas para as mulheres.

“Acho que esse preconceito começou há alguns anos, principalmente porque os romances eram escritos por mulheres para as mulheres e, por isso, não eram levados a sério”, afirmou. “Outra coisa interessante é que muitos gêneros são julgados pelos seus melhores exemplos e o romance, pelo pior. Em todo gênero você encontra livros fabulosos e terríveis. E as pessoas acham que sempre vão pegar um romance ruim. Até porque, o repórter que geralmente comenta sobre eles não faz a pesquisa para saber qual romance, de fato, é bom. O que eles acharem que tem a capa mais boba vai ser o escolhido para se trabalhar. E ninguém faz isso com os títulos de mistério, suspense… Porém, felizmente, isso está mudando um pouco nos Estados Unidos”.

Ainda falando sobre as dificuldades de se escrever um romance e de enfrentar resistências, Julia, que se declarou feminista – para alegria da plateia -, rechaçou a ideia generalizada de que ela não poderia desenvolver esse tipo de história, justamente por elas não serem consideradas “realistas”. Porém, ela ressaltou que é necessário se preocupar com o tempo em que a trama se passa para equilibrar as personalidades e atitudes de suas personagens com a realidade da época e apontou que o romance não necessariamente aborda apenas temas relacionados ao amor.

“Eu sempre me considerei uma feminista e fico chateada quando dizem que não posso escrever romances por ser feminista”, declarou. “As pessoas dizem que os romances não são realistas. Ué, as pessoas se apaixonam todos os dias. Como isso não pode ser realista? Acho que uma das razões pelas quais as pessoas se interessam pela minha escrita é que há mais mais temas, além do romance. Você conhece os personagens não somente por quem eles se apaixonam, mas como eles lidam com o mundo. As minhas personagens são independentes, espertas, engraçadas e têm ambições. Mas eu também tenho que lembrar que trabalho com um certo período de tempo. Naquela época, algumas coisas não seriam realistas. Preciso equilibrar essa força independente interior com a época. Tento fazer com que as minhas personagens sempre olhem à frente, sejam fortes e descubram como podem viver melhor no mundo delas”.

Julia Quinn no bate papo com leitores, na Bienal do Livro 2015/Foto: Vai Lendo
Julia Quinn no bate papo com leitores, na Bienal do Livro 2015/Foto: Vai Lendo

Comemorando o 15º aniversário da publicação da série Os Bridgertons – que consiste em oito livros, cada um com a história de um dos oito filhos do falecido Visconde Bridgerton -, Julia disse estar muito feliz com sua visita ao Brasil e agradeceu o carinho do público brasileiro, que, segundo ela, perde apenas para os leitores dos Estados Unidos em número em suas redes sociais.

“Essa é a minha primeira vez no Brasil, e eu fiquei muito animada quando soube que poderia vir para cá”, contou. “Foi engraçado porque eu recebi um e-mail da minha editora perguntando se eu queria vir. Claro! Todo mundo da minha família também queria vir. Os brasileiros são muito acolhedores, hospitaleiros e animados. Eu fui muito abraçada aqui, o que é ótimo. Eu sou bem conhecida nos Estados Unidos, mas os fãs não agem dessa forma. Tem sido muito divertido. Quando eu comecei a escrever, eu sempre quis e pensei que seria um sucesso, porque me achava uma boa escritora. Mas meu primeiro livro foi publicado em 1995, era o início da internet. Não havia redes sociais, então, a ideia de que meus livros fossem conhecidos ao redor do mundo era inimaginável. Não me ocorria que muitas pessoas de outros lugares pudessem ler os meus livros, e isso é bem especial”.

Quanto à série que a tornou mundialmente conhecida, a escritora explicou que a inspiração para os personagens que dominam o imaginário de seus leitores não vêm de uma base específica, mas foram construídos a partir de “pedaços de pessoas” que ela mesma conhece. Julia explicou também que, ainda que reúna muitas informações e detalhes que não são inseridos em seu trabalho final, isso a ajuda a conhecer melhor seus próprios personagens e suas tramas. Muitas vezes, no entanto, são os leitores que lhe pedem mais páginas, porque gostariam de se aprofundar nas histórias, sendo muitas delas de personagens secundários, que, devido à narrativa envolvente da autora, acabam caindo mais nas graças do público.

“Quando começo um livro, já sei um dos personagens, e isso facilita”, explicou. “Não é uma descrição com listas e números. Eu tenho de 12 a 15 páginas em branco e passo muito tempo descobrindo os personagens, porque eu preciso saber quem eles são. Eles alimentam a trama, e não o contrário. Escrevo muitas informações sobre eles e, de repente, isso nem entra no livro, mas me ajuda a conhecê-los e, assim, posso torná-los melhor para os leitores. Eu escrevo em ordem cronológica e vou editando. Todo dia, eu mudo alguma coisa. Às vezes, nem lembro o que já aconteceu em um capítulo. Preciso saber se tudo faz sentido. Enquanto eu escrevia Os Bridgertons, as pessoas se envolviam muito e sempre queriam saber o que iria acontecer com eles. E eu mesma não sabia. Então, quando termino um livro, se eu não trouxer um personagem secundário em outro, não vou mais pensar nele. Mas, depois, eu comecei a pensar que poderia tentar descobrir alguma coisa e tive a ideia de escrever o que chamamos de segundo epílogo. Algo pequeno de, mais ou menos, 40 páginas, e depende de que ponto na vida daqueles personagens eu quero escrever”.

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Sobre seus próximos livros, Julia contou que o título que sairá no próximo ano aqui no Brasil é sobre a personagem Violet, a mãe, mas apontou que essa “não é uma história de amor, e, sim de vida”. E ela também anunciou que está trabalhando no primeiro volume de uma série de cinco títulos sobre os vizinhos dos Bridgertons. Comparada a Jane Austen, algo que, para ela, “é uma honra e uma das comparações mais maravilhosas que alguém pode ter”, a escritora enfatizou ainda que, para quem deseja ser um escritor, é necessário ter força de vontade e, acima de tudo, conhecer as suas próprias limitações e gostos, além de tentar sempre se inovar.

“A única maneira de escrever um livro é literalmente escrever um livro”, afirmou. “Se você quer ser escritor, você precisa terminar a obra. O mundo está cheio de primeiros capítulos, então, você tem que concluir. Mas não se pressione demais, não se castigue. A escrita não precisa ser a sua primeira prioridade. Ela tem que ser prioridade, claro, mas não precisa ser a primeira. Entenda o que você pode fazer e faça. Por isso, o meu primeiro conselho é entrar em uma organização de escritores. Eles têm muitos recursos interessantes e podem ajudar. Uma das minhas metas como escritora é não escrever o mesmo livro várias vezes. É um buraco em que você pode cair, o de usar a mesma fórmula. Pode ficar muito fácil fazer a mesma coisa. Trabalho muito para criar algo que seja novo e diferente para mim”.

Juliana d'Arêde

Jornalista de coração. Leitora por vocação. Completamente apaixonada pelo universo dos livros, adoraria ser amiga da Jane Austen, desvendar símbolos com Robert Langdon, estudar em Hogwarts (e ser da Grifinória, é claro), ouvir histórias contadas pelo próprio Sidney Sheldon, conhecer Avalon e Camelot e experimentar a magia ao lado de Marion Zimmer Bradley, mas conheceu Mauricio de Sousa e Pedro Bandeira e não poderia ser mais realizada “literariamente”. Ainda terá uma biblioteca em casa, tipo aquela de “A Bela e a Fera”.

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